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O Grande Prémio da Estíria já era um dia histórico para Miguel Oliveira, naquela que seria a 150.ª corrida entre Moto3, Moto2 e MotoGP. E era um dia histórico para o português dentro de um dia histórico para o MotoGP, que fazia a 900.ª prova de sempre no calendário. Parecia destino, história com história só podia dar mais história. E o que se passou no Red Bull Ring foi a verdadeira narrativa de sonho para um piloto que é hoje o protótipo no plano nacional do que deve ser a construção da carreira de um desportista de eleição na respetiva modalidade. Nunca tinha ido a um pódio, estreou-se logo com um triunfo na categoria rainha. Por ele, pela equipa, pela família que devido à pandemia não pode estar tão próxima e por Portugal, como fez questão de dizer.

Histórico: Miguel Oliveira consegue primeira vitória de sempre no Moto GP no Grande Prémio da Estíria

Chegado à zona das boxes e do pódio, o piloto de Almada foi cumprimentado por Pol Espargaró, também ele piloto da KTM. Um cumprimento frio que não ofuscou o calor do momento. Ao longo de uma semana, o português e o espanhol trocaram palavras mais acesas ainda a propósito do acidente que afastou ambos do Grande Prémio do passado domingo, também na Áustria. O ambiente, mesmo com Oliveira a tentar colocar uma pedra sobre o assunto, continuava a ser de tensão, como se viu numa sessão de treinos livres em que se cruzaram em pista. E essa foi a nota paralela do feito histórico: com a terceira posição assegurada depois de uma curva com trajetória mais larga que tirou Andrea Dovizioso da luta pelo pódio, o português aproveitou a luta entre Pol Espargaró e Jack Miller pela primeira posição para ultrapassar a dupla por dentro na última curva e fazer a festa.

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Miguel Oliveira nem conseguia acreditar no que tinha acabado de acontecer. Até pelos pontos atípicos que teve ao longo da época entre a frustração por ficar na Tech3 e ver Brad Binder saltar para o conjunto principal de fábrica (algo que deixará de acontecer em 2021 porque Pol Espargaró vai para a Honda), a necessidade de adiar por o casamento marcado para 25 de julho pelas alterações no calendário – um dia onde conseguiu a melhor qualificação de sempre, um quinto lugar – e duas desistências atípicas na Andaluzia e na Áustria após choques com companheiros da KTM (primeiro Binder a dar um toque na roda traseira, depois Espargaró a abrir trajetória numa curva antes de fechar com o português já por dentro). A festa, de certa forma inesperada, foi mais do que muita.

Entre abraços a membros da equipa, o dedo levantado em sinal de número 1 com língua de fora e o prémio muito especial e exclusivo de receber um novíssimo e personalizado BMW M4 pela vitória, o Falcão de Almada estava em êxtase, sempre com a bandeira portuguesa, das entrevistas rápidas à cerimónia (com restrições) do pódio.

“Estou muito emocionado, há tanto que quero dizer… Mas obrigado a todos os que acreditam em mim, há tantas pessoas que me lembro. A família, a equipa, os patrocinadores, os portugueses… Sim! Somos os melhores. Obrigado pelo apoio! Fizemos história, pelo país! Estou muito feliz por ter sido aqui, em casa da KTM, obrigado a todos”, comentou (em inglês) na zona de entrevistas rápidas após a corrida antes de subir ao lugar mais alto do pódio e ouvir pela primeira vez A Portuguesa no MotoGP ao fim de 900 corridas, já depois de ter ganho seis corridas no Moto3 (onde esteve cinco anos, a primeira em 125cc) e outras tantas em Moto2 (onde passou três anos). Ao 21.º Grande Prémio da categoria rainha, onde nunca tinha ido ao pódio, ganhou.

“Antes de mais, estava a assegurar-me que era mesmo a última volta. Durante toda a corrida não conseguia ver a informação no muro das boxes e nem sequer sabia se o quarto classificado estava perto de mim ou não. Na última volta vi que o Pol [Espargaró] começou a adotar linhas muito defensivas. Pensei que podiam ambos perder tempo e que podia beneficiar com isso. Na última curva deixei-os lutar um com o outro e meti por dentro. Quando vi a bandeirada de xadrez e ninguém à minha volta, foi um momento de pura alegria”, acrescentou na conferência de imprensa após a corrida que juntou os três primeiros classificados do Grande Prémio da Estíria.

“A Tech 3 tem grandes seres humanos, muito profissionais e já mereciam. Merecemos esta vitória por todas as batalhas que travámos desde o ano passado. Desde início que revelámos um enorme potencial mas por uma razão ou outra não se concretizou. Finalmente sou um desses, que dão troféus às suas equipas”, salientou, antes de revelar mais segredos sobre o inédito triunfo como a troca para pneu duro à frente e médio na traseira: “Senti-me melhor do que na primeira parte e achei que podia lutar pelo pódio. Aqui nesta pista, quando um piloto está muito próximo do da frente, tira partido do cone de aspiração. Conhecendo o Pol e o Miller como conheço, sabia que se iriam atrapalhar. Joguei as minhas cartas de forma segura e inteligente”.

“A carreira no MotoGP não tem sido fácil, também pela lesão que sofri no final do último ano, mas acredito que toda a gente em Portugal está contente com este triunfo. Ouvir o hino nacional no pódio foi mesmo especial. Tenho os pés bem assentes na terra mas a cabeça já não”, concluiu o piloto português da KTM.