“Queriam calar-nos, não conseguiram”. A realização desta festa do Avante além de uma espécie de incubadora para eventos na sociedade pós-Covid-19 foi também, na leitura do secretário-geral, uma afirmação de força do PCP. É assim que o partido a vê (“a força do PC”) e quer que essa força se estenda às negociações para os Orçamentos do Estado. Jerónimo de Sousa até subiu ao palco de voz rouca, mas à medida que o discurso foi crescendo — e as críticas aumentando — a mensagem era limpa: o PS pouco ganha em “agitar com ameaças de crise política”. Já depois de uma ausência à mesa das negociações (na semana que antecedeu o início do Avante), o PCP mostra-se disponível para se sentar à mesa a negociar o orçamento. “O PCP não faltará, como nunca faltou, a nenhuma solução que dê resposta aos problemas, não desperdiçará nenhuma oportunidade para garantir direitos e melhores condições de vida”, esclareceu Jerónimo.

À sua frente, Jerónimo de Sousa tinha 2.000 cadeiras lotadas. A habitual enchente no recinto e que sobe a rua até à roda gigante não está preenchida, o distanciamento e o espaço entre todos mantém-se, mas ainda havia espaço para mais militantes e simpatizantes esta tarde na Atalaia. Já os que estão, foram alinhados por esquema de filas e números que repete a organização do partido no primeiro comício depois do confinamento obrigatório. Cada um tem um lugar atribuído quer na bancada imediatamente frente ao Palco 25 de abril, quer mais atrás. Para as plateias só entra mesmo quem tem essa pré-indicação, uma clara organização do partido para este comício garantido que cada cadeira seria ocupada e as bandeiras erguidas.

Uma lição sobre política nas ruas do pós-Covid ou como o PCP aprendeu com o 1.º de maio

Para António Costa houve recados diretos. “Não vale a pena uns virem agitar com ameaças de crise política. O que se impõe é aproveitar todos os instrumentos para não permitir que os trabalhadores e o povo vejam a sua vida mergulhada numa crise diária”, disse Jerónimo, mas sem fechar a porta às negociações para o Orçamento do Estado: “Não vale a pena apressarem-se a sentenciar que o PCP não conta, que está de fora das soluções de que o país precisa”.

“O PCP não faltará, como nunca faltou, a nenhuma solução que dê resposta aos problemas, não desperdiçará nenhuma oportunidade para garantir direitos e melhores condições de vida”, disse Jerónimo já depois de o PCP na semana passada ter alegado questões de agenda para não se sentar à mesa com na reunião com o primeiro-ministro em S.Bento na sexta-feira, 28 de agosto. Foi o único partido à esquerda do PS que não o fez.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mas antes de Jerónimo subir ao palco, já Manuel Rodrigues, diretor do Avante, tinha deixado feito fortes críticas à comunicação social (secundadas pelos assobios das bancadas)— que o PCP acusa de ter dado aso à campanha da direita contra a festa, numa “gigantesca operação reacionária que mais que a Festa visa atacar o PCP”.

Construímos e realizámos a nossa Festa, esta grande festa e este comício da solidariedade, da paz, da amizade, da democracia e do socialismo, num quadro de inusitada hostilidade dos grandes interesses económicos e das forças mais reacionárias e conservadoras, contra a qual moveram uma insidiosa campanha, utilizando os seus poderosos recursos mediáticos e de intoxicação da opinião pública para a inviabilizar”, disse depois o secretário-geral antes de responder ao PS e passar às críticas aos restantes partidos.

Salário mínimo nacional nos 850 e fundos europeus aplicados em creches e lares. As exigências do PCP

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E ficam também já em cima da mesa as linhas vermelhas do PCP: aumento do salário mínimo nacional para 850 euros; eliminação dos cortes salariais associados ao layoff;  proibição dos despedimentos de todos os que veem ameaçado o seu emprego e não apenas nas empresas com lucros; reforço do SNS; revogação das “normas gravosas da legislação laboral”. Ou outros que o PCP sabe ser mais difícil de conseguir como: colocar os CTT, Novo Banco e TAP nas mãos do Estado ou lançar um programa de construção de habitação pelo Estado, foram alguns dos exemplos que os militantes ouviram atentamente. Aqui e ali uns aplausos, mas ficou provado que o efeito mimético dos aplausos ou assobiadelas reduz drasticamente com o afastamento (e, naturalmente, a diminuição do número de pessoas presente).

Algumas exigências serão mais fáceis de acomodar que outras. O PCP também quer ter uma palavra a dar sobre os fundos da União Europeia e junta à lista de requisitos a “criação de uma rede pública de creches e lares”, através do aproveitamento dos “fundos anunciados para Portugal”. O PS também tinha a temática das creches no programa para a legislatura, resta esperar pela negociação nas várias áreas para perceber o que será acomodado, ou não, mas Jerónimo deixou claro “em que não alinhará”: na tentativa de “travar o aumento geral dos salários e do salário mínimo nacional, dos trabalhadores da administração pública”, em “alterações na legislação laboral” ou na degradação dos “serviços públicos”.

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PCP diz que Marcelo está inserido num “branqueamento do PSD”

Jerónimo criticou ainda as opções de “PS, PSD e CDS” na resposta à pandemia e na defesa dos direitos dos trabalhadores no âmbito da “proibição de despedimentos” e de “garantia de pagamento de salários a 100%”. E, já depois de ontem ter respondido diretamente ao Presidente da República, Jerónimo voltou a criticar o chefe de Estado (com a plateia a responder com uma das maiores vaias da tarde), acusando-o de “estar inserido num processo de rearrumações de forças que está em marcha” e que tem como objetivo “branquear o PSD visando a sua reabilitação política e a cooperação mais intensa com o PS” que diz serem “indispensáveis à política de direita”.

Nestes três dias conseguimos resgatar o valor da vida, da vida com felicidade. Há que continuar este combate para uma vida melhor e um Portugal com futuro”, frisa Jerónimo de Sousa.

O secretário-geral do partido criticou também quem se “está a esforçar” para fazer crer que “tudo vai ficar bem” e que “os problemas que o país hoje enfrenta são essencialmente resultado da epidemia”. “Querem mesmo fazer crer que passada esta, tudo vai ficar bem, como se estivesse antes tudo bem e o futuro do país e do seu desenvolvimento garantido”, aponta antes e passar às críticas ao Novo Banco, aos impostos e à saída de empresas nacionais para “paraísos fiscais”.

Para os próximos dias ficará a apresentação do candidato presidencial do PCP às eleições presidenciais. No discurso, Jerónimo de Sousa deixou a confirmação oficial, perante os militantes que o PCP terá um candidato próprio às presidenciais no próximo ano com uma candidatura que, diz, assumirá “os direitos dos trabalhadores, os valores de Abril e o compromisso do projeto que a Constituição da República Portuguesa consagra”.

Pela primeira vez em muitos anos, a Carvalhesa ficou por dançar frente ao secretário-geral, mas é certo que os próximos resultados eleitorais permitirão ler se as provas de organização que o partido consegue montar e suportar serão apenas suficientes para não perder eleitorado; convincentes para recuperar quem deixou de votar ou quem nunca votou ou, por último, — e no pior caso para os comunistas — penalizadoras.