Em março, Maria Gambina apresentou uma coleção entre os pingos da chuva. Contudo, entre esse desfile e o desta sexta-feira, tudo aconteceu — milhões de pessoas fechadas em casa e uns bons milhares em protesto nas ruas. Coronavírus e Black Lives Matter são — com acasos pelo meio — os temas quentes do próximo verão, a primeira estação a desfilar no parque de estacionamento da Alfândega do Porto.

Uma manequim negra, vestida de branco e cercada por uma saia rodada e com estrutura, tomou a dianteira e deu o tom para o que se seguiu. “Quando estávamos confinados, o Pedro Tenreiro, que é meu amigo e tem um programa na Antena 3, começou a fazer uns sets diários chamados ‘Quarentena Funky’. Acordava de manhã e ia ver se ele já tinha posto mais um, passava o dia a ouvir aquilo. E as imagens que ele usava para divulgar aquilo eram tão inspiradoras — sempre aquela cultura afro-americana dos anos 60. Começa tudo aí”, explica a criadora ao Observador.

Desfile de Maria Gambina © Melissa Vieira/Observador

O movimento de contestação pro igualdade e anti-violência eclodiria mais tarde, em maio, com a morte de George Floyd. Nessa altura, já Gambina estava no encalço da sua inspiração, cruzando aquelas imagens fascinantes com referências olímpicas. Tentou localizar a primeira nadadora negra a receber uma medalhada olímpica, mas a conquista, à semelhança de tantas outras, veio tarde demais. Ainda assim, destaca as cavas e os decotes retirados dos fatos de banho para o pronto-a-vestir do próximo verão.

Recordou ainda John Carlos e Tommie Smith, os atletas negros que, a 16 de outubro de 1968 (há 52 anos precisamente), ergueram o punho do alto do pódio. “Aconteceu uma série de pequenas coisas que me foram dando motivação para a próxima coleção”, prossegue. O branco predominou, moldado por elásticos e franzidos e com as texturas de rendas e folhos. O amarelo florescente e o azul acabaram por juntar-se, à semelhança de um tom desportivo, com detalhes tão inusitados (ou que, pelo menos, o eram na era pré-pandemia) como os acabamentos em membrana antibacteriana ou as mangas tufadas. Estas últimas, influência direta das máscaras usadas nos braços, ponto alto da coleção Covid-19 2020.

Susana Bettencourt, uma artesã digital a duas velocidades

Susana, a malheira dos Açores que, a partir de Londres, conquistou um lugar no círculo restrito da moda de autor portuguesa, chegou cedo ao Hotel Neya, a dois passos da Alfândega do Porto. Eram oito da manhã, para sermos exatos. Com ela, veio uma pequena equipa de aderecistas, técnicos de cabelos e maquilhagem, profissionais do vídeo e da fotografia e meia dúzia de modelos, não para montar um desfile, mas para produzir, entre outras coisas, a campanha deste outono-inverno.

Na dança das estações, há já algum tempo que a designer criou o seu próprio ritmo sazonal. Menos antecipação, mais flexibilidade na forma de oferecer ao consumidor o que ele quer — novidade constante e ao alcance de um botão. Depois de desfiles de pronto-a-vestir e de apresentações estáticas de peças conceito, Susana inaugura um novo formato, que de híbrido tem muito pouco: um editorial ao vivo e em direto.

Susana Bettencourt durante a produção desta sexta-feira © Melissa Vieira/Observador

A coleção é “Overload”, cujo aperitivo já tinha sido servido em março (Bettencourt apresentou coleção no primeiro dia de desfiles, imediatamente antes do evento ser cancelado) e que a criadora decidiu desdobrar em duas estações, com o verão a ser revelado dentro de seis meses. É um exercício pré-pandemia, mas estranhamente consonante com aquilo que 2020 representa para o mundo e, em especial, para a moda. “A pandemia não trouxe esta coleção, no entanto, ela encaixa no que está a acontecer”, explica ao Observador.

“Quando parámos, percebemos todos que estávamos num ritmo acelerado e desmedido. Conseguimos ver isso no grafismo que trouxe para a coleção, dos pontos às texturas, em todas as nervuras que temos nas malhas finas, nas bolinhas e favos que temos nos pontos grossos. Trouxemos confusão para as peças, mas também alguma harmonia. Temos todos de encontrá-la, é uma consequência da pandemia”, continua. As malhas continuam a ser a arte de Susana Bettencourt que aqui mistura preto e branco, mas também amarelo, azul e cor-de-rosa. Nem todas as peças são jogos de cor, muitas convidam ao toque e confirmam que Bettencourt meteu realmente prego a fundo nas texturas.

“O passo seguinte foi responder à necessidade que mais sentimos nesta pandemia: conteúdo”, assinala. Com o formato de produção assistida, a marca garante imagens das peças para a loja online, uma campanha, um vídeo de making off e ainda uma visita virtual por esta sessão de bastidores, a acontecer junto às velhas paredes do antigo Convento de Monchique, agora convertido em hotel. As primeiras peças vão ficar à venda durante este fim de semana, as restantes serão alvo de pequenos lançamentos periódicos.

“Não quero ser dramática e dizer que o mundo não vai ser o mesmo. No mundo da moda, pelo menos, muitos de nós designers já lidávamos com problemas de identidade, sem saber o que íamos fazer a seguir. O mundo acelerou e as redes sociais fazem com que haja a necessidade ao mesmo tempo que existe a imagem. A partir do momento em que há conteúdo, há a necessidade de comprar aquilo. Depois, é esquecido. Então, onde é que a moda de autor encaixa no meio disto tudo?”, questiona Susana.

A produção de Susana Bettencourt © Melissa Vieira/Observador

A pandemia gerou um sentimento de urgência dentro da marca Susana Bettencourt. A designer fala no “ano certo” para experimentar e testar. Embora a junção do artesanal com o tecnológico tenha feito sempre parte da linguagem que a consagrou, não se pode dizer que a nova era digital seja o seu ambiente natural. “Estou a passar por muitas dores de crescimento este ano, a pandemia obrigou-nos a ser digitais, era a única forma de contacto com o cliente. Para mim, é um choque — sou artesã, sou malheira desde os cinco anos. É difícil passar esse meu nível de detalhe para este tipo de curadoria, mas é necessário”, conclui.

Impelida a acelerar no jogo de ação/reação com o consumidor final, compensa a pressa com uma calma quase inédita no processo criativo. O verão de 2021, por exemplo, está pronto há meses. Daqui, as peças vão sair já fotografadas e com margem para alguns aperfeiçoamentos da coleção. A haja tempo.

Pé de Chumbo e os primeiros saltos altos

Perante a tendência de encolher desfiles, reduzir passerelles e encurtar castings de manequins, Alexandra Oliveira, a designer por trás da Pé de Chumbo, assume-se como contracorrente. “O bichinho está cá dentro. A coleção era mais pequena, mas tive de fazer mais umas peças para aqui e para ali”, admite ao Observador. O resultado pisou a imponente Sala do Arquivo, até aqui de portas fechadas.

Na coleção da próxima estação quente destacam-se duas novidades, a começar por uma linha de gangas, corte abrupto na longa tradição de tramas e transparências, imagem de marca da Pé de Chumbo. A  segunda é uma questão de atitude. “Estava mais arrojado. Pela primeira vez na vida pus tacões, costumo ser mais pé de chumbo. Mas tinha de ser, para mostrar uma força e uma robustez e, ao mesmo tempo, para ter uma feminidade mais vincada. Também é mais sexy, um campo que não costumo explorar tanto”, explica.

O desfile da Pé de Chumbo © Melissa Vieira/Observador

Apesar da crise instalada, o eveningwear continua a ser a maior aposta da marca. Aparentemente, Itália e Médio Oriente, dois importante mercados, continuam a ir a festas, apesar de uma ligeira redução nas vendas. Alexandra não acredita que uma pandemia possa mudar o curso da humanidade, ou melhor, o seu apetite consumista. A convicção serve-lhe de suporte ao otimismo. “As pessoas têm memória curta e não vão deixar de voltar ao que gostavam antes só por causa deste pequeno momento”, remata. Afinal, o que seria da Pé de Chumbo sem uma boa festa.

Miguel Vieira serviu um drink ao final do dia

A apresentação de Miguel Vieira fechou este segundo dia de Portugal Fashion. O momento havia sido pensado, inicialmente, para um famoso café da invicta. Mais tarde, criador e organização acharam por bem manter tudo por perto e trazer o bar até ao edifício da alfândega.

[Ouça aqui a entrevista de Miguel Vieira à Rádio Observador, poucas horas antes da apresentação no Portugal Fashion]:

“No confinamento não tive vontade de desenhar”

O vídeo projetado recordou a coleção já apresentada em Milão, um sortido de cores dignas de uma montra de pastelaria francesa, marcado pelo crescendo de fluidez e liberdade que, nas últimas estações, tem tomado conta do homem Miguel Vieira. O designer é o primeiro a admitir ter aproveitado o confinamento para repensar o guarda-roupa masculino da marca. Chama-lhe “remodelagem”, processo que visa transformar as peças mais elementares da alfaiataria clássica em itens universais, usados por homens e mulheres.

O entusiasmo de apresentar uma coleção só é diminuído pela impaciência face às limitações decorrentes da pandemia. “Estou ansioso para que isto tudo pare e para que as coisas sejam normais outra vez. Sou um bocadinho old school. Sinto muita falta das palmas, do contacto com os cabeleireiros e maquilhadores, com os produtores, com os jornalistas, com tudo. Não sou um homem de distâncias, sou um homem de afetos”, admite em conversa com o Observador.

A apresentação de Miguel Vieira © Melissa Vieira/Observador

Ainda assim, Miguel Vieira fez a festa como pôde. Distribuiu pequenas porções de cocktails alcoólicos pelos convidados sentados na sala. Uma primeira prova de três receitas — Pink Garden, Capri Blue e Biscuit Brown — inspiradas nos tons da coleção e elaboradas pelo Vogue Café. Para brincar, ainda que seja à moda nacional, é que vai ser preciso esperar por melhores dias.

No mesmo dia, desfilaram ainda Maria Meira, Unflower e Rita Sá, ambas inseridas no calendário do Bloom. Também a designer Inês Torcato integrou o alinhamento desta sexta-feira, porém com o anúncio de que a 22 de dezembro lançará uma nova marca em nome próprio. A 47ª edição do Portugal Fashion termina este sábado, dia em que são esperados nomes como Marques’Almeida, Alexandra Moura, Hugo Costa, Júlio Torcato, Luís Onofre e Alves/Gonçalves.