Desde terça-feira, dia em que os norte-americanos foram chamados às urnas para votar no próximo presidente dos Estados Unidos, até quinta-feira de manhã, John King, dono das manhãs políticas da CNN e responsável pelos factos matemáticos na batalha eleitoral entre Joe Biden e Donald Trump, dormiu apenas seis horas e meia.

“Na terça-feira à noite dormi duas horas e meia; quarta-feira à noite foram quatro”, contabilizou o jornalista em declarações ao Los Angeles Times: “Tenho estado no ar umas 12 a 14 horas. Fico feliz por fazer tudo o que posso. Esta é uma história incrível e consequente. Mais ainda por causa da pandemia e do seu impacto em tudo”.

Nos últimos três dias, a contagem dos votos nos Estados Unidos tem sido marcada pelas afirmações falsas de Donald Trump, que afirma estar a ser alvo de uma conspiração democrata de fraude eleitoral. Mas John King tem sido o crivo para encontrar os factos nos zooms constantes à frente do “quadro mágico” da CNN.

Depois de um primeiro emprego a entregar jornais à porta, King esteve 12 anos na Associated Press onde, com 30 anos, se tornou correspondente político principal e ganhou um prémio pela cobertura da Guerra do Golfo. Pelo meio, liderou as eleições presidenciais de 1992 e 1996. Anos mais tarde, seria ele quem anunciaria na CNN a morte de Osama bin Laden.

Mas a entrada no mundo da televisão foi um “acidente”, considerou o próprio numa entrevista Biblioteca e Museu Presidencial John F. Kennedy:

“Depois da campanha de 1996, a CNN veio falar comigo numa abordagem bastante agressiva e disse: ‘Tu passaste seis ou oito anos a cobrir este gajo, o Bill Clinton. Fizeste nome como repórter com ele. Porque é que não vens connosco? Se não gostares, podes ir embora’. Então decidi fazer isso.”

Em 1997, John King tornou-se, então, o correspondente da CNN na Casa Branca e, oito anos depois, foi promovido a correspondente nacional — o cargo que ainda hoje ocupa. Atualmente é também o apresentador do programa “Inside Politics”, que disseca a atualidade política norte-americana. E o novo fascínio das redes sociais graças à cobertura das eleições deste ano.

Parte da glória de John King está no Multi-Touch Collaboration Wall, o monitor com 2,40 metros de comprimento e 91 centímetros de altura que o jornalista tem utilizado para revelar detalhes eleitorais até nas cidade mais remotas dos Estados Unidos. Além da CNN, só mais uma instituição utiliza esta tecnologia criada pela Microsoft, mais conhecida como “Quadro Mágico”: o governo norte-americano. 

Também houve tropeções na carreira de John King. Em abril de 2013, aquando do ataque na maratona de Boston, o jornalista avançou que um homem negro tinha sido detido pelas autoridades e citou fontes policiais. Vários órgãos de comunicação social repetiram a informação, que se veio a confirmar falsa. O FBI chegou a criticar a notícia, pedindo aos jornalistas para terem “cuidado” e “verificarem a informação”.

Sete anos depois, o erro da CNN está perdoado e John King é o novo “MVP” das eleições norte-americanas — uma expressão emprestada pelo mundo desportivo ao Los Angeles Times e que, em inglês, indica a personalidade que registou um melhor desempenho numa atividade. E até já cometeu mais um erro, que, desta vez, caiu nas graças dos fãs: “O presidente… perdão, Joe Biden”, disse ele, mais do que uma vez.

Nas redes sociais, o fascínio pelo jornalista repete-se. Taylor Rooks, jornalista de desporto, disse no Twitter que King era “perfeito”: “O seu conhecimento é incomparável. Ele é justo e a sua postura deixa os espectadores à vontade. Lembramo-nos sempre de quem traz as notícias em momentos históricos como este. Temos sorte por ser John”.

Até mesmo as redes sociais mais recentes, dominadas pelos mais jovens, tecem rasgados elogios ao registo de John King. Rosie Gray, jornalista de política do BuzzFeed, partilhou no Twitter os comentários que estão a ser publicados sobre o colega da CNN no Tik Tok: “Ele nem sequer faz uma pausa. Visitou todos os condados do país, meu”, diz um dele. Outro comentário acrescenta: “Ele não tem medo do sono. O sono é que tem medo dele“.

Tudo isto está a alimentar uma onda de memes — publicações que fazem humor com assuntos relacionados com a atualidade — que têm John King e a própria CNN como protagonistas. Por exemplo, há quem tema o nível de cansaço do jornalista, embora não haja pudor em fazer piadas com isso:

O fenómeno deu até origem a um vídeo falso que tem circulado nas redes sociais e que mostra uma suposta notificação push do Pornhub a aparecer no “Quadro Mágico” durante a transmissão da CNN, mesmo por cima da cabeça de um John King com uma expressão comprometida. A manipulação já foi sinalizada pelo Twitter, mas não foi eliminada. E está a conquistar milhões de visualizações.

Ao The Los Angeles Times, John King explica que não tinha ideia do sucesso que tem feito nas redes sociais. Mas agradece as mensagens: “No geral, para mim, é mais do que qualquer outra prova do grande interesse na eleição e da confiança que trabalhamos arduamente para ganhar com as pessoas em momentos importantes. Lamechas, talvez, mas adoro as eleições e adoro ver a afluência generalizada. E sou grato pela confiança que a CNN deposita em mim para desempenhar este papel”.