Que o rei emérito de Espanha se sente sozinho e aborrecido já não é novidade, mas sabe-se agora que Juan Carlos começa a estudar algumas opções quanto ao destino onde dará continuidade ao que tudo indica ser um exílio forçado. Segundo o El Español, o tédio e a solidão pesam sobre o monarca de 82 anos. Florida ou República Dominicana? Os círculo de amigos é vasto e parece que alguns estão de braços abertos para recebê-lo.

“Ele sabe que está convidado para ficar na minha casa, sempre que quiser. Em Palm Beach, seja na casa de campo ou no barco. Temos vários planos de viagens para ele. Mas sempre como visita, não para viver. Para ele, a sua casa é e sempre será Espanha”, afirmou o empresário Pepe Fenjul, também conhecido como o “rei do açúcar”, que numa entrevista recente a um meio de comunicação norte-americano admitiu falar diariamente ao telefone com Juan Carlos. Foi esta mesma ligação que, no início de agosto, levou a crer que o rei emérito pudesse ter voado para a República Dominicana, após a sua saída de Espanha.

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Mas não, o monarca dirigiu-se para o Médio Oriente, via Porto, usando o nome Juan Sumer (em espanhol, a expressão surge como acrónimo de Sua Majestade O Rei), outro dos detalhes divulgados agora pelo mesmo jornal espanhol. Foi assim que chegou a este destino paradisíaco, como confirmou a Casa Real Espanhola cerca de duas semanas depois da sua partida. Alojado no Emirates Palace desde o dia 3 de agosto, tem vivido cercado de luxo. Cada noite rondará os seis mil euros.

Ao conforto daquele que é considerado o terceiro hotel mais luxuoso do mundo, juntou-se Fernando Alonso. A viagem do piloto de Fórmula 1 para Abu Dhabi terá animado o rei emérito, que inclusive terá assistido a alguns treinos do espanhol na pista. A alegria durou pouco — Alonso terminou as suas provas em solo árabe na última segunda-feira.

Monarquia espanhola em crise. A solução? Renunciar

Juan Carlos estará agora numa espécie de encruzilhada, da qual não fará parte, certamente, um regresso a Espanha, onde é investigado pelo uso de cartões de crédito associados a fundos provenientes do estrangeiros — aparentemente patrocinados por um milionário mexicano –, pelos 65 milhões de euros em supostas comissões recebidas na sequência da construção da linha de alta velocidade entre Meca e Medina, na Arábia Saudita e, mais recentemente, por uma eventual fortuna escondida na ilha de Jersey, no Canal da Mancha. Em todos os casos, a corrupção é a suspeita comum.

O monarca terá tido passagem marcada para regressar a Espanha, mesmo a tempo da última regata da temporada, no Real Club Náutico de Sanxenxo, no passado sábado. Contudo, Sánchez Junco, tê-lo-á alertado para a investigação em curso por parte do Supremo Tribunal. “Lamento utilizar esta expressão mas é a que melhor descreve a situação de Juan Carlos. Ele só volta quando morrer. Cada dia sai uma história nova e temo que ainda agora tenha começado. Estivemos juntos em muitas viagens, caçadas e outras coisas que, se começam a vir cá para fora, vão obrigar-nos a remar para não deixar o barco afundar”, partilha ainda o El Español, citando fontes próximas do Palácio da Zarzuela.

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Longe de casa, Juan Carlos não é o único a sofrer as consequências dos seus sucessivos escândalos e presumíveis crimes. Durante o último verão, Espanha voltou a ser palco de protestos antimonárquicos. Depois de, em março, ter renunciado à herança paterna, Felipe VI continua a ter de gerir a crise gerada pelo pai. “As coisas estão a correr tão mal que já ninguém parece duvidar de que é preciso tomar mais medidas. [A renúncia à herança] ficou aquém […] Está a ser ponderada a possibilidade de [Juan Carlos] renunciar ao título de rei, de uma vez por todas”, descreveu ao El Español um colaborador da Casa Real Espanhola.

A mesma fonte afirmou acreditar também que outros escândalos ligados ao monarca de 82 anos estão para vir a público e que uma renúncia ao título de rei emérito de Espanha poderia afastá-los do atual rei e da nova geração real. Acalmar as ondas em torno da monarquia espanhola parece ser, neste momento, essencial, sobretudo quando o número dois do Governo é um republicano convicto. Online circula ainda uma petição para que seja o executivo espanhol a destituir Juan Carlos do título honorífico, e respetivo estatuto, concedido por Rajoy em 2014.

Cinco transferências anónimas depois, 6,5 milhões de euros na Suíça

Esta semana começou com mais uma suspeita a pairar sobre Juan Carlos de Borbón. Depois do rei emérito ter vindo negar a existência de uma fortuna de dez milhões escondida na ilha Jersey, eis que o El Confidencial trouxe a público documentos que provam que, em dezembro de 2008, cinco transferências depositaram 5,5 milhões de euros numa das oito contas da Fundação Zagatka, no Credit Suisse.

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A fundação em causa foi criada em 2003, no Liechtenstein, e dirigida desde então por Álvaro de Orleans-Borbón, primo do então rei de Espanha, Juan Carlos I. Além do montante principal, foram feitas ainda outras quatro transferências, no valor de 250 mil euros cada uma, entre março e julho do mesmo ano. O mesmo jornal assinala que as transferências, cuja proveniência é desconhecida, foram feitas uma altura em que as contas do atual rei emérito naquele mesmo banco estavam a aproximar-se do vermelho.

O caso aponta Juan Carlos como principal beneficiário da Fundação Zagatka. Com o dinheiro, o monarca terá feito investimentos na bolsa, mas também pago despesas de voos privados, estadias em hotéis e presentes. Os documentos exibidos pelo El Confidencial mostram ainda retiradas de dinheiro na ordem dos 100 mil euros.