Rui Rio falou com Paulo Rangel sobre a hipótese de o eurodeputado avançar com uma candidatura à Câmara Municipal do Porto. O Observador sabe que os dois já conversaram sobre essa possibilidade, mas não foi tomada qualquer decisão. Todos os cenários estão, neste momento, em aberto.

Na direção do PSD insiste-se que é um “nome óbvio” e uma “candidatura natural”, mas ninguém vai forçar ninguém. Se Rangel entender não avançar, será com ele e não faltarão candidatos alternativos. Mas se decidir faltar à chamada esse facto não será esquecido.

De resto, não é segredo para ninguém que Paulo Rangel seria, em qualquer circunstância, a escolha preferencial de Rui Rio para tentar fazer um brilharete numa autarquia que foi sua durante 12 anos. No núcleo duro do líder social-democrata há quem entenda que o eurodeputado tem pouca margem para dizer que não ao desafio se quiser continuar a alimentar expectativas de um dia chegar à presidência do PSD. “Claro que seria importante para ele perceber o que vale nas urnas”, comenta com o Observador fonte da direção do partido.

Ainda que Rui Rio tenha reservado para si o direito de escolher os candidatos nos principais palcos autárquicos, em particular os de Lisboa e Porto, o nome de Rangel não teria dificuldade em passar pelo crivo das estruturas locais. O eurodeputado é reconhecido como um dos melhores quadros do partido a nível nacional e teria o aparelho do seu lado caso decidisse avançar.

Rangel, por sua vez, manteve sempre o tabu. No último congresso do partido, em janeiro, chutou todas as perguntas sobre o seu futuro para canto. “Não aprendi a dizer que desta água não beberei; já nasci ensinado a dizer isso…“, gracejou.

Mas as contas não são fáceis para Paulo Rangel. Desde logo, porque acabou de ser eleito mais uma vez eurodeputado e tem, dentro da família europeia de que o PSD faz parte — o Partido Popular Europeu (PPE) — um peso indiscutível. É vice-presidente do PPE, o que lhe garante uma capacidade de influência que poucos têm e a possibilidade de, por exemplo, sentar-se à mesma mesa que Angela Merkel e outros líderes europeus nas cimeiras do PPE.

Colocar em causa esse capital político seria um risco. E não o único. O tabu de Rui Moreira não ajuda e condiciona muito. O atual presidente da Câmara do Porto continua sem dizer se vai ou não recandidatar-se a um terceiro mandato e já deu sinais contraditórios. No PSD do Porto, no entanto, vai crescendo a convicção que o reacender do Caso Selminho só o tornará mais obstinado.

Avançar com uma corrida pela Câmara do Porto sem Rui Moreira em jogo seria uma coisa, até porque não há sinais de que o PS tenha um candidato forte na manga; correr com o atual presidente em campo dificilmente poderia redundar numa vitória. Nas últimas eleições, Álvaro Almeida, uma escolha pessoal de Rui Rio, teve apenas 11%. Fazer pior do que isso é praticamente impossível. Mas um resultado tímido seria pouco mais do que nada para Paulo Rangel, que já averbou uma pesada derrota nas últimas europeias. Seria um desgaste político desnecessário.

Mais uma vez, tudo está em aberto. A conversa entre Rui Rio e Paulo Rangel aconteceu há um par de semanas e foi meramente exploratória. Nem Rio exigiu uma resposta, nem Rangel fechou qualquer porta. O assunto ficou no ar.

Santana fora de Lisboa

Quem está fora da equação em Lisboa é Pedro Santana Lopes. O jantar com Rui Rio e outros dirigentes do PSD, na última semana, fez disparar as notícias e os rumores de que o antigo primeiro-ministro era hipótese para defrontar Fernando Medina em 2021. Nada mais errado: o Observador sabe que a hipótese não é equacionada nem pelo próprio, nem pela direção do partido.

Continua, aliás, a valer o que disse quando foi entrevistado pelo Observador a 1 de outubro: “Não está nas minhas intenções voltar a funções que já tenha exercido. A única exceção que abriria era a Figueira da Foz, por razões sentimentais, mas estou num ciclo diferente. Não se deve voltar sequer a pôr a questão. Já há 20 anos que se fala do meu nome para Lisboa outra vez.”

Lisboa está, por isso, fora da equação. Mas e Figueira da Foz? É prematuro afastar essa hipótese. O facto de esse jantar, organizado a pensar nos 19 anos das autárquicas em que Rui Rio conquistou o Porto e Santana Lisboa e com o propósito de voltar a juntar duas figuras que se incompatibilizam, ter sido apadrinhado por António Maló de Abreu, figura forte em Coimbra, muito próximo de Rio e o homem que está a preparar a missão autárquica na região centro, não passou despercebido ao aparelho social-democrata.

Sintra foi outra hipótese que surgiu em força nas últimas semanas. Nos bastidores do PSD, há quem aponte como interessante uma eventual candidatura de Santana contra Basílio Horta. Santana, mais uma vez, nunca desmentiu cabalmente. Numa entrevista recente à jornalista Maria João Avillez a propósito dos 40 anos da morte de Francisco Sá Carneiro, publicada no Observador, o antigo líder do PSD desconversou. “Não tenho nada para dizer.”

A 19 de dezembro, o semanário “SOL” garantia que Marco Almeida seria o número dois da lista logo atrás de Pedro Santana Lopes. O ex-presidente do PSD seria um nome do agrado de uma parte da estrutura do partido em Sintra, mas está longe de ser unânime. No Facebook, Marco Almeida, o vereador do PSD que regressou ao partido em 2018, atirou a questão para o plano do delírio.

Numa rara declaração pública sobre o assunto, à TSF, Santana fechou praticamente a porta a qualquer candidatura. “Não tenho vontade rigorosamente nenhuma [de ser candidato], especialmente nos tempos que vivemos. Temos é que atravessar esta fase difícil que o mundo está a viver. Deus que me livre de estar agora a pensar em campanhas ou candidaturas ou seja o que for”. Mas a realidade é dinâmica. E tabus há muitos. Que o diga Pedro Santana Lopes, que já alimentou uns quantos.