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“Fizeram testes para estarem todos juntos? Podem estar todos em cima uns dos outros? Depois pede confinamento… perde por isso, senhor Presidente”. Uma senhora que passava junto ao Centro Social Paroquial da Azambuja, onde Marcelo Rebelo de Sousa tinha estado como candidato presidencial, estranhava tanta gente na rua (ainda que as regras sanitárias estivessem a ser cumpridas). Nessa altura, Marcelo fazia declarações aos jornalistas e não deixou fugir o episódio que lhe serviu de exemplo para apontar o “cansaço das pessoas” e para justificar ter apenas uma ação de campanha por dia. Até pensou ter zero, mas mudou de ideias quando lhe chamaram arrogante e ali esteve até ouvir o acordeão de Sebastião.

“Numa primeira fase até estive quase tentado a reduzir a praticamente nada, mas depois como vi que era interpretado como um sinal de arrogância, de sobranceria, de distanciamento e auto-convencimento… era difícil explicar que era uma questão de precaução e de contenção sanitária”, revelou aos jornalistas o candidato-Presidente. E falou mesmo na senhora que passou indignada, ao dizer que “há sempre o argumento, como a pessoa que passou aí a dizer ‘o senhor devia era estar confinado no Palácio de Belém e está aqui numa ação de campanha'”, mas para lamentar logo a seguir: “Se eu estivesse confinado no Palácio de Belém diziam ‘lá está ele convencido que já ganhou, ou porque acha que não é importante a campanha”.

Nos primeiros dias de campanha oficial, o candidato esteve ausente da rua e só começou a aparecer na sexta-feira passada — depois de promulgado e fechado o capítulo do novo estado de emergência e do novo confinamento geral — e foi amplamente criticado pelos seus adversários políticos, nomeadamente Ana Gomes e André Ventura. E os argumentos foram precisamente aqueles em que Marcelo admite agora ter ficado a matutar, acabando por reconhecer ter sido “sensível ao facto de se poder afirmar que podia ser considerada como atitude intolerante, distante e incompreensível”. E aqui está ele na rua pelo quarto dia consecutivo e sem travar até domingo.

Não quis falar do episódio do jantar de André Ventura. Preferiu entrar no estilo analista e registar que, independentemente do que se fizesse no Natal, o problema ao 11º mês da pandemia é o “cansaço”. “O discurso político pode ser mais ou menos dramatizado, mas as pessoas ao fim de 11 meses já perceberam tudo. Ou aderem ou não”, vaticina quando questionado sobre a decisão política de abrir no Natal. “No fim do ano havia regras restritivas e infelizmente não foram acatadas”.

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“O Governo não previu. Nós não previmos”

Para Marcelo “não há poder político que se possa substituir às pessoas, por muito dramatizador que seja”, e assume em uníssono com o Governo a falha na antevisão da segunda vaga. “O Governo não previu, Nós não previmos. Já disse que assumo máxima responsabilidade “, corrige-se imediatamente quando fala na subida de casos logo depois do Verão e não no outono como tinha sido inicialmente previsto. Também considera impossível que se recorra a um excesso de policiamento do cumprimento das medidas, comparando mesmo a regimes “mais musculados” como o chinês. “Tive netos que viveram na China e nem imaginam as regras de comportamento… mesmo!”.Em Portugal, advertiu logo de seguida, “vivemos numa sociedade democrática e não é possível ter a polícia atrás das pessoas ou a fechá-las em casa”.

Agora, também assume que a “divisão” entre portugueses é hoje maior do que na altura do primeiro confinamento e que neste momento, como não existe fecho de fronteiras, a indústria continua a funcionar. E até apontou para a Azambuja, onde estava numa visita rápida, em que “a maioria das empresas e das atividades logísticas está a funcionar”. Isto para dizer que de uns dependem outros. Ou seja, que quem está a trabalhar depende do confinamento de quem não está. E que de todos depende o “sistema de saúde”: “Ainda há muita gente, os mais jovens, idades inferiores a 60 anos, pensam que isto é grave, mas que não é tão grave assim. E não percebem que o stress no SNS cobre depois todos os doentes. Quando começa a esgaçar o tecido, atinge primeiro os doentes Covid, mas quase ao mesmo tempo os doentes não Covid”.

Ainda fez ali uma pausa para dar uma entrevista rápida à rádio Valor Local, com instalações dentro de um centro comercial da Azambuja que estava fechado ao público. Saiu pouco depois e já ia direto ao carro quando à janela do rés-do-chão viu Aurora e Sebastião acenar-lhe Ficou para um pequeno concerto de acordeão ali mesmo à janela e a ouvir a história dos dois viúvos que se juntaram”. “Foi muito bonito o nosso casamento”, contava Aurora a um candidato divertido: “Mas enviuvaram naturalmente? Ao mesmo tempo? É que é uma coincidência muito curiosa. Isto estava preparado há muito tempo”. Aurora correspondia ao tempo de atenção: “Adoro este professor, desde sempre”. E Sebastião completava-a: “Por mim não vai para lá outro. Ai não vai não”.