Os automóveis modernos necessitam tanto de pneus como de processadores e estes últimos não servem de nada sem os chips que os integram. Daí que se perceba a gravidade da situação actual, com que praticamente todos os construtores estão a lidar, uma vez que não há chips suficientes no mercado para satisfazer as suas necessidades. Nas últimas semanas, isto tem levado à redução da produção, à dispensa de empregados e a avolumadas perdas, em todos os cantos do mundo. Tudo por causa de uma peça do tamanho da cabeça de um dedo, com cerca de 2,6 cm2.

Os cada vez mais populares sistemas electrónicos são comandados por processadores, dos vocacionados para o entretenimento aos que servem a navegação, passando pelas ajudas à condução, sem esquecer os “computadores” que gerem o funcionamento do motor, da caixa de velocidades e até do controlo de tracção e estabilidade. Por isso, não espanta que cada veículo necessite de vários chips, com diferentes características e capacidades, chips estes que nenhum construtor fabrica e apenas um desenha e concebe.

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Que crise é esta?

Os construtores de automóveis são exímios a gerir stocks e muitas das peças a que recorrem para fabricar os seus veículos vêm de fornecedores externos. Quando tudo corre bem, as peças são entregues na linha de produção exactamente no instante em que se aproxima o modelo que dela necessitam, num processo just in time que evita o trabalho e o custo do armazenamento.

Com a pandemia, as marcas reduziram as encomendas das peças vindas de fora, para depois incrementarem os pedidos, à medida que o número de unidades também crescia. Quase todos os fornecedores conseguiram acompanhar a crescente necessidade dos construtores, mas não os fabricantes de chips. Isto porque, no momento em que os automóveis cortaram nas encomendas, os fabricantes de consolas de jogos apresentaram os seus novos produtos, recebidos de braços abertos pelos clientes presos em casa pelo confinamento, ávidos de uma nova forma de entretenimento.

À medida que as PlayStation 5 e as Xbox Series X saíam da linha de produção, com ambas as empresas a apontarem para 15 milhões de unidades por ano, a capacidade de produção dos fabricantes de chips ficou esgotada, impedindo-os de acompanhar as solicitações das marcas de automóveis que, por causa dessa falha, estão a produzir veículos a meio gás. Veja aqui um curioso trabalho da BBC sobre a TSMC, o maior fabricante de chips do mundo:

Quem mais sofre com a falta de chips?

A crise é geral, pois os fabricantes europeus, americanos, japoneses, sul-coreanos e chineses têm muitas das suas linhas de produção a trabalhar ao ralenti enquanto não aparecem os necessários chips. A Audi anunciou que ia colocar os trabalhadores das fábricas de Ingolstadt e Neckarsulm a funcionar em ritmo reduzido até 29 de Janeiro, em linha com o que a VW tinha anunciado dias antes.

Do outro lado do Atlântico, a FCA parou temporariamente as suas fábricas em Ontário e no México, enquanto a Ford colocou a linha de produção no Kentucky a trabalhar ao ralenti, com a Toyota a admitir que sofre do mesmo mal.

Há vários especialistas em semicondutores a assegurar a fabricação de chips por esse mundo fora – apesar de a Nvidia liderar entre os sistemas que envolvem o tratamento de imagens, como a condução semiautónoma –, mas a especificidade desta indústria dá-lhes um tempo de reacção entre seis e nove meses. Muitos esperam que a falta de chips vá sendo atenuada com o passar dos meses, mas há quem acredite que só será ultrapassada por completo na segunda metade do ano. A Intel explica aqui como se produz um chip:

Todos os construtores sofrem por igual?

Todos os fabricantes de veículos modernos necessitam de chips “como de pão para a boca” e praticamente nenhum deles os produz ou desenha, confiando estas tarefas aos especialistas em semicondutores. Esta dependência é ainda maior nos construtores mais tradicionalistas, como nos confessou um técnico da Continental, pois se um fabricante de um carro de luxo alemão pode necessitar de até uma centena de processadores num modelo todo de gama, um fabricante mais moderno de veículos eléctricos, como a Tesla, precisa de apenas dois.

De todos os construtores do mercado, apenas a marca de Elon Musk desenha e desenvolve os seus próprios chips, encomendando depois a produção à Samsung. Apesar de necessitar de apenas dois chips (um para controlar todo o veículo e o segundo exclusivamente para o Autopilot, o FSD, com 3 quad-core), monta-os em duplicado por uma questão de redundância.

O processador da 3ª geração do Autopilot, que será substituído pela 4ª geração no início de 2022, já com 7 nm

A decisão de avançar para os chips não foi tomada apenas por uma questão de custos, mas também pela necessidade de os adaptar às exigências dos veículos eléctricos, nos quais o ideal é que o consumo de energia para fins não essenciais seja reduzido ao mínimo. E os chips conseguem ser bastante “gulosos”, com a Tesla a avançar que a sua 3ª geração do FSD consome 72 W, contra 350 W de um chip equivalente da Nvidia.

A marca norte-americana diz ter já negociado com a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) a fabricação da 4ª geração, que estará disponível em 2022 e que promete ser 21 vezes mais rápida que a 3ª, mas a consumir ainda menos por recorrer à tecnologia de 7 nanómetros, em vez dos 11 nanómetros da actual geração. A Tesla continua assim a tentar depender tão pouco quanto possível dos fornecedores, para evitar crises como a actual.