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Com mais de 98% dos votos já contabilizados nas eleições regionais da Catalunha, os socialistas catalães (PSC) seguram a vitória em número de votos (algo que não conseguiam há 22 anos), mas com os mesmos 33 representantes no parlamento catalão do que a ERC (que também soma 33 assentos). Uma vitória (que pode ser de Pirro) para Salvador Illa, já que a maioria (e absoluta, desta vez) continua a ser dos independentistas: aos 33 deputados da ERC somam-se os 32 do Junts per Catalunya e os 9 da CUP (que ganha 5 face a 2017), para um total de 74 assentos. A maioria absoluta na Catalunha obtém-se com 68 deputados.

O VOX (extrema direita) entra pela primeira vez no parlamento catalão, e em força, com 11 deputados, enquanto o Podemos catalão soma oito e o Ciudadanos (C’s) tem uma queda monumental (de vencedor em 2017, com 36 deputados, para no máximo seis nestas eleições).

As negociações no pós-eleições não serão fáceis, mas os independentistas têm via aberta para uma maioria confortável no Palau del Parlament. Ainda assim a ERC e o JxCat terão de saber gerir os sempre imprevisíveis CUP (uma formação anti-sistema, anti-Europa e UE, anti-capitalismo e mais virada para ações radicais de rua). Quanto aos socialistas ganham um ímpeto significativo (a contar com eleições antecipadas, um cenário repetido várias vezes nos últimos 4 anos), beneficiando de uma queda abissal do Ciutadans (centro-direita moderado, constitucionalista) e do PP catalão (que apenas elegeu 3 deputados). Mas a maior surpresa da noite (muito à custa do PP e do C’s) é o Vox, partido unionista, que acaba por entrar de rompante no parlamento catalão, e logo com 11 assentos (ou seja, como a quarta força política).

O candidato do Vox, Ignacio Garriga, salientou – no seu discurso no final da noite eleitoral – que, finalmente, “todos os catalães estão agora representados no Parlament“. Mas o presidente nacional do Vox, Santiago Abascal, preferiu a leitura mais ampla do resultado da formação na Catalunha. Referindo-se ao resultado como “uma gesta histórica”, Abascal disse que o Vox é a “primeira força nacional na Catalunha”.

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Os constitucionalistas nem conseguiram impedir um feito inédito dos independentistas, que conquistaram mais de 50% do voto popular, uma meta que nunca tinham alcançado e que os poderá levar a sonhar ainda mais com novos referendos pela autodeterminação ou, pior, declarações unilaterais de independência.

A derrocada do Ciutadans (C’s) levou a líder do partido, Inés Arrimadas, a convocar para segunda-feira uma reunião de urgência da Comissão Executiva.

Nas primeiras reações, os partidos catalães lamentaram a fraca participação, mas com tons diferentes. A ERC e a Junts per Catalunya asseguraram que “a vitória dos partidos independentistas” está garantida, enquanto o C´s admitiu o descalabro eleitoral. Os socialistas catalães, que se reergueram depois de alguns anos de menor fulgor, reagiram com entusiasmo: “Estamos conscientes de que temos a confiança de muita gente. Hoje a Catalunha abre uma nova etapa e não podemos desaproveitar a oportunidade. A mudança chegou para ficar”, disse Eva Granados, numa referência à vitória do PSC em voto popular.

O caso não é para menos: o Partido Socialista da Catalunha voltou a ganhar a demarcação de Barcelona (a mais importante da região autónoma), algo que não acontecia há 18 anos (à frente da ERC e da JxCat). E, claro, foi o partido mais votado.

Já com mais de 95% dos votos escrutinados, o candidato socialista a presidente da Generalitat, Salvador Illa (ex-ministro da Saúde de Espanha), não cabia em si de contente. “A minha vitória tem um significado muito claro: virar a página. Além disso, desde já lhes digo que me apresentarei à investidura”. Na Catalunha (como na maioria das regiões autónomas), o candidato do partido vencedor tem de se apresentar a votação no parlamento regional, podendo ser eleito à primeira por maioria absoluta ou nas seguintes (espaçadas em 48 horas) por maioria simples.

O cenário eleitoral não lhe augura grande sorte. Oriol Junqueras, histórico líder da Esquerra Republicana Catalana (um dos independentistas que esteve preso por declarar a independência da região) preferiu dar a vitória ao seu próprio partido. “Pela primeira vez em 80 anos, a ERC voltará a ter a presidência da Generalitat da Catalunha”. O candidato da ERC, Pere Aragonés, foi claro nos propósitos da formação: “O resultado das eleições é inapelável. Haverá maioria de deputados independentistas no Parlament , e hoje tem de começar uma nova etapa”. E concluiu: “É hora de resolver o conflito. Temos de votar num referendo pela autodeterminação”.

Já Carles Puigdemont, o homem que declarou a independência da região e depois fugiu para Bruxelas, enalteceu o facto de os independentistas terem obtido mais de 50% do voto popular: “A mensagem das pessoas é persistente. Só o independentismo pode construir uma alternativa de Governo”.

A partir de Madrid, o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez (PSOE), exultou com os resultados dos socialistas na Catalunha. “O socialismo ganhou as eleições. Uma fantástica notícia para tornar possível a mudança”, escreveu o chefe de Governo no Twitter.

Projeções já davam cenário de maioria absoluta dos independentistas

As primeiras projeções da noite, divulgadas pela TV3 e a Catalunya Ràdio (e realizadas pela Gad3), davam a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), força independentista, como vencedora com um número de deputados entre os 36 e os 38. A mesma análise apontava que o Partido Socialista da Catalunha (PSC) teria 34 a 36 deputados, mesmo tendo em conta que seria a formação mais votada (o método eleitoral catalão e a distribuição por regiões permite que uma formação menos votada obtenha mais assentos).

A terceira posição seria a Junts per Catalunya, que ficaria com entre 30 e 33 assentos. Cinco a seis outros partidos conseguiram passar os 3% de votos que lhes garantiriam representação parlamentar: Catalunya en Comú, a extensão catalã do Podemos, com 6 a 7 deputados. A CUP (extrema esquerda anti-sistema, anticapital e antieuropeísta) com sete. O VOX (extrema-direita) entraria pela primeira vez no parlamento catalão e logo com seis representantes. O Ciudadanos, que nas eleições de 2017 ficou em primeiro com 36 assentos, tem uma queda monumental, ficando-se pelos 6 ou 7 assentos. O PP catalão ainda pior, com 4 ou 5 deputados. O PdeCat, finalmente, pode chegar aos dois assentos, segundo a mesma sondagem.

Uma outra sondagem à boca das urnas, divulgada pela televisão de Barcelona, a Betevé, e o jornal El Periódico (elaborada pelo instituto de estudos de mercado catalão Gesop) dava outro resultado: um empate a três entre o PSC, a ERC e o Junts per Catalunya, com intervalos de entre 31 e 33 deputados cada um. Logo de seguida, nova surpresa: o VOX, com 10 ou 11 deputados. A quinta força seria o En Comú Podem, com 8 ou 9. A CUP obteria entre 7 e 8 deputados e o Ciutadans 6 ou 7 deputados (tal como indica a sondagem da Gad3). O PP catalão teria os mesmos assentos que o Ciutadans. Já o PDeCAT oscilaria entre zero e 2 deputados regionais.

O retrato do dia de eleições

O dia foi decorrendo com relativa tranquilidade — de assinalar uma manifestação modesta em que algumas ativistas protestaram contra a ascensão eleitoral do Vox –, apesar de não terem faltado as longas filas de espera, realidade bem conhecida dos portugueses que participaram na reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República. O mais inusitado, porém, foi a decisão tomada sobre o voto dos cidadãos Covid-19 positivos.

As apertadas medidas de higiene e segurança marcaram este ato eleitoral catalão. GettyImages

Um dos princípios orientadores deste ato eleitoral foi a distribuição de votantes por períodos horários durante o dia, sendo divididos em três blocos temporais: das 9h e as 12h (só para grupos de risco), das 12h às 19h (população geral), e das 19h às 20h (cidadãos covid positivos e contactos de risco) — oEl Periódico citou o Departament de Salut — uma espécie de Direção-Geral de Saúde catalã — que estimou que nesta última fatia de eleitores deveriam estar cerca de 14 a 80 mil pessoas.

As urnas encerram às 20h locais, 19h em Portugal, e por volta dessa altura começou-se a perceber que os valores dos partidos independentistas continuavam em força entre as preferências políticas da Catalunha — o resultado final, conhecido já quase à 1h da manhã, hora de Espanha (meia-noite em Portugal), comprovou-o.