Se em 2010 perguntássemos a Kevin Systrom e Mike Krieger, fundadores do Instagram, qual seria o rumo da rede social uma década depois, a resposta estaria certamente longe de prever o impacto real. Podíamos fazer o mesmo exercício com Mark Zuckerberg e o seu Facebook, ou com Jack Dorsey, a figura do Twitter. Influencer – ou influenciador – é hoje um termo mundialmente conhecido, seja qual for a plataforma usada. Mas, por detrás desta maquinaria, está um fator transversal: a importância dos números.

“A Skorr surgiu numa perspetiva de dar valor ao impacto que temos nas redes sociais de maneira agregada”, começa por explicar António Filipe, cofundador e atual diretor geral da plataforma portuguesa criada em 2017. “Através desta app podemos ter acesso a alguns indicadores, a análises agregadas por rede social e começar a receber uma série de dados – da nossa performance ou de outras pessoas que estejam no Skorr e que sejam nossos amigos”, acrescenta.

O conceito, com assinatura da startup portuguesa Slaicos Lda, partiu de uma ideia que já tinha sido posta em prática por outra empresa, a Klout, mas viu com a Skorr várias melhorias.

“Era possível ver quais os conteúdos mais relevantes na altura, tópicos, o meu ranking versus o de outras pessoas e um feed, que agregava tudo o que fazia nas redes sociais”, lembra António Filipe.

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Um ano depois do arranque, a evolução era eminente: estava para chegar uma aplicação móvel e um plano de expansão mais alargado de redes e funcionalidades, mas o escândalo que envolveu o Facebook e a empresa de dados Cambridge Analytics, em março de 2018, seria um travão brusco.

“O Facebook cortou o acesso ao Interface de Programação de Aplicações (reconhecido em inglês como Application Programming Interface, ou API) e, assim, deixámos de conseguir aceder a determinados dados. Isto porque não fazemos public scraping (processo de recolha de dados estruturados da web de uma forma automatizada), ou seja, guiamo-nos pelas APIs oficiais, consoante as autorizações que as pessoas deram a essas redes sociais, o que não acontece com outras empresas. Com esta mudança tivemos de repensar o negócio, perceber como trazer valor ao mercado. Só passados dois anos é que relançámos a aplicação”.

Mas como funciona este novo modelo da Skorr?

Na prática, a Skorr recolhe e trata dados como o alcance das publicações feitas por uma pessoa, bem como o número de seguidores, de likes por publicação ou dados específicos da audiência, seja a página pública ou privada, traduzindo os resultados numa pontuação. Para dar início a este processo, basta associar pelo menos uma conta de rede social (Instagram, Twitter, Facebook ou YouTube são, para já, as possibilidades), definir os termos e decidir qual a informação que quer ver partilhada. A partir daqui, é possível definir a intenção para a qual queremos os dados, ou seja, podemos utilizar a Skorr meramente como referência ou para monetizar a nossa presença nas redes, como explica António Filipe.

“O que acontece é que uma marca vai ao social hub ver análises de perfis mas não vai nunca saber quem é a pessoa nem o que fez nas redes sociais, mesmo que seja pública. Se a marca estiver interessada naquele perfil,vai enviar um convite, o que faz com que o utilizador tenha de autorizar a marca a ter acesso aos dados. Sendo que, quando dou acesso, posso só dar acesso às redes sociais públicas”, disse.

Para dar acesso, a marca pode enviar um convite e paga para ter acesso aos dados por 90 dias ou um convite ‘descoberta’, pensado para grandes marcas ou agências de influenciadores. “Aí, a pessoa só aceita se gostar da marca, sendo sempre a pessoa a autorizar. Todo este processo é digital: eu recebo o convite da marca e, com ele, chegam as instruções sobre o que tenho de fazer”, acrescenta o responsável.

skorr

A aplicação tem três planos de subscrição e está a apostas num Social Hub

Os preços desta operação são sempre definidos pelo utilizador, quer os de acesso ao perfil ou os de uma eventual campanha — o primeiro não é negociável, já o segundo pode ser. “Outro aspeto importante é que, como muitas pessoas não sabem o que valem no mercado, temos uma abordagem de avaliação baseada em performance”, esclarece. Esta avaliação tem por base a audiência, alcance ou o número de reações aos posts.

“A Skorr vai avaliar-nos por cada pessoa e por rede social, portanto, a empresa quando quer convidar alguém, tem não só o preço definido pela pessoa como o que o Skorr estipula”, diz.

Caso as duas partes cheguem a acordo, o processo é automático. E para ajudar a esclarecer dúvidas, tempos e passar toda a informação necessária há um chat próprio. Depois, a plataforma envia um relatório em tempo real ao cliente, esclarecendo se foi feito a publicação e se esta corresponde ao solicitado. “A partir do momento em que executa, são injetados pontos em carteira, que podem ser transformados em dinheiro”, diz.

Em alternativa, no caso das campanhas, as marcas podem optar por uma abordagem diferente. Além da compra de dados, as empresas podem tentar garanti-los através de campanhas ‘embaixador’, que funcionam numa base de um contrato que, durante um período estipulado entre as duas partes, o utilizador tem direito a prémios da marca como forma de pagamento.

E quanto é que custa utilizar a Skorr?

Existem três modelos da Skorr: o primeiro é totalmente gratuito, depois há um plano “Basic”, a partir de 59 euros mensais (ou 49 euros mensais no caso de subscrição anual). Por último, o Cropped, definido consoante a especificação do cliente. Mas António Filipe esclarece que o grande passo é o Social Hub — um sítio “em que qualquer marca se pode registar – o primeiro modelo de acesso é grátis – para dar a hipótese às empresas de dar os primeiros passos quer no marketing de influência, quer no social”. E isto abre novas possibilidades no mercado ou, como o CEO da Skorr o descreve, “um novo paradigma”.

“Temos a política de que qualquer pessoa pode ser um influenciador, quer tenha 100 seguidores ou muitos mais, depende tudo do alcance e daquilo que cada um tem para oferecer. Outro aspeto é que todo o marketing de influência agora é de contas profissionais, mas há muito mercado de pessoas sem conta profissional, com as quais não se podia trabalhar; claro que há menos dados disponíveis, porque o Facebook dá muito menos dados nessas condições, mas como temos este ecossistema de portal e mobile app, conseguimos recolher indicadores oficiais via Facebook que não seria possível de outra forma. Isso permite a uma marca fazer uma campanha no Instagram pessoal de alguém, e isso abre um leque de possibilidades”, aponta.

“Com isto, não estamos a tentar dizer que somos melhores do que os outros, mas temos uma abordagem diferente, estamos a conseguir massificar. Podemos ser utilizados por macro influenciadores mas permitimos a uma marca massificar o marketing de influência”, acrescenta.

Quer isto dizer, a título prático, que é possível pensar numa campanha de manhã, ir à Skorr, fazer uma lista de 200 pessoas, passar o brief e, à hora de almoço essas pessoas estão a receber o convite. A partir desse momento, se aceitarem, todos os dados são cruzados e, no final do dia, as marcas estão em tempo real a ver os resultados. “O aspeto chave é a simplificação”, acrescenta.

Esta nova e melhorada versão da Skorr chegou em 2020 e, com ela, outras mudanças dentro da empresa. A app contabiliza, segundo dados do Crunchbase, uma ronda de investimento em que angariou um milhão de dólares (cerca de 800 mil euros, em 2017), e outra, “que não chega a dois milhões de euros, de 2020”, ambas financiadas por investidores particulares.

A equipa original, fundada por Bernardo Lucas, Carlos Martins, Fernando Videira, João Brites Moita, Miguel Caeiro, Rui Paiva e Tony Poulos – “grande parte desta tinha vindo da antiga WeDo Technologies”, agora Mobileum -, também sofreu alterações, perfazendo agora um total de nove pessoas a tempo inteiro.

António entrou na parceria em 2018 e, a partir de Lisboa, assumiu o cargo de diretor geral em outubro do ano passado pela “necessidade de uma presença mais efetiva na liderança, visto que grande parte da equipa está baseada em Braga”. Na bagagem, traz consigo a experiência de passagens como diretor de marketing e comunicação da Siemens, diretor de marketing da McDonald’s, category manager da Procter & Gamble, diretor de marketing e comunicação da Swatch ou managing partner de uma clínica de estética e implantologia, cargo no qual ainda se mantém.

*Tive uma ideia! é uma rubrica do Observador destinada a novos negócios com ADN português.