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O videoclipe de “Perra”, do artista colombiano de reggaeton J Balvin e da rapper dominicana Tokischa, lançado a 7 de setembro, gerou uma onda de indignação devido às representações hipersexualizadas de mulheres negras. Nele vê-se o cantor, um homem branco, a passear duas mulheres negras em roupa interior, atreladas, que gatinham, como se de cadelas se tratassem.

Para piorar a conjuntura, os rostos das afrodescendentes foram maquilhados de forma a parecerem cães ferozes. A própria Tokischa, que é também uma mulher negra, posa de quatro dentro de uma casota. Contudo, do cenário fazem igualmente parte homens e crianças, alguns com o rosto alterado, em que todos dançam e se divertem num bairro visivelmente pobre.

A acompanhar estas imagens, está a letra da música: uma comparação entre a procura sexual das mulheres e das cadelas, com mensagens de desejo e de submissão. “Eu sou uma cadela no cio / Estou a procurar um cão para ficar preso” e “tenho raiva canina, febre vaginal / Ele tem que me punir e tem que me enjaular”, canta Tokischa.

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O vídeo foi retirado da página de Balvin no YouTube no domingo, por motivos ainda a serem confirmados pelos cantores. No entanto, não é claro se foi removido pelo Youtube ou pela própria equipa de J Balvin. O Los Angeles Times avança que tentou contactar representantes da respetiva plataforma, mas não obteve resposta. Mesmo assim, é possível encontrar um “making-of” da peça audiovisual, o áudio da música, capturas não oficiais, entre outros conteúdos.

A página pessoal de Instagram de Raymi Paulus, produtor do vídeo, também já não está disponível ao público.

Representações das mulheres na música: do machismo à liberdade sexual

A canção fez renascer a controvérsia relativa ao machismo no reggaeton: Se há quem acredite que imagens como as de “Perra” são uma forma de objetificação das mulheres e consequente regressão nos seus direitos, há quem discorde e garanta que é um meio de empoderamento, porque as mulheres no videoclipe consentiram lá estar. As reações ao vídeo multiplicaram-se, desde cidadãos comuns até à vice-presidente da Colômbia.

Num comunicado conjunto divulgado na semana passada, a vice-presidente colombiana Marta Lucía Ramírez e a conselheira presidencial para a igualdade das mulheres Gheidy Gallo Santos, caraterizaram o conteúdo de “Perra” como “sexista, racista, machista e misógino”. Tal porque representa as mulheres como “escravas” e como “um objeto de propriedade dos homens”.

“Objetivar as mulheres é fracassar como sociedade”, reiteram. Para as políticas, estes comportamentos são “aberrantes, abomináveis” e “violam a dignidade da mulher, enviando sinais errados ao país e ao mundo”.

Não se ficando pelas críticas, na carta aberta surge um convite a J Balvin e à indústria musical e discográfica para assinar um pacto que inclui compromissos “para a promoção dos direitos das mulheres na música e a prevenção da violência contra elas”.

Numa outra perspetiva, a professora e doutora em Jurisprudência Feminista de Harvard Isabel Cristina Jaramillo crê “que não seja uma mulher branca, do establishment, que pode conduzir este debate”. Acusa, citada pela BBC, a vice-presidente de esquecer “mulheres que gostam de ser cadela, de sexo” e que se sentem abertamente “seres sexuais”.

Por sua vez, Nuria Net, jornalista e cofundadora da La Coctelera Music, escreveu no Twitter que não considera a letra da canção “machista”, justificando que “eles cantam um para o outro sobre o seu desejo”.

Mas, salvaguarda, o vídeo é “desprezível e racista”. Ainda assim, removê-lo do YouTube sem fazer qualquer tipo de declaração é um ” ato cobarde que não resolve nada”.

Não é a primeira vez que o universo da música se choca com o limite da liberdade sexual. No início deste mês, o cantor espanhol César Tangana causou polémica com o videoclipe “Ateo”(ateu, em português), gravado na Sé Catedral de Toledo, por ter conteúdo visual provocador. A Arquidiocese de Toledo, em comunicado, pediu desculpas e desaprovou, posteriormente, as imagens.

Videoclipe sensual gravado na Catedral de Toledo causa polémica em Espanha. Arcebispo pede desculpa e “desaprova” imagens

Da mesma forma, atitudes antigas da rapper Tokischa tinham já incomodado: o seu videoclipe de “Yo No Me Voy Acostar” já tinha sido removido em dezembro de 2020, por razões desconhecidas.