A Associação de Deficientes das Forças Armadas apelou esta quarta-feira aos deputados que aproveitem os 50 anos do 25 de Abril de 1974 para resolver alguns problemas destes antigos militares, como a dificuldade no acesso a próteses.

Este apelo foi deixado pelo presidente da direção nacional da ADFA, coronel José Clara Gomes, numa audiência na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, na qual lembrou que esta associação “nasceu do pouco cuidado ou do desprezo mesmo a que foram votados os deficientes militares durante o tempo da guerra [do Ultramar]”.

“Não é por acaso que alguns de nós fizeram parte do 25 de Abril e isso tem a ver com aquela necessidade que tivemos, num conceito que para nós é extremamente importante, que é a cidadania plena. (…) O grande apelo que faço a esta casa que nos merece todo o respeito é esse: porque não aproveitar os 50 anos do 25 de Abril, os 50 anos da fundação da ADFA, para encerrar o nosso contencioso?”, questionou.

Entre as dificuldades elencadas pelo presidente da direção da ADFA — que esteve acompanhado pelo secretário, coronel Manuel Lopes Dias, e tesoureiro, Cândido Mendes — está a dificuldade no acesso a próteses, que se agravam consoante um cidadão viva em Lisboa ou na ilha do Corvo, onde “fica mais complicado”, exemplificou.

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“Temos que ter a consciência de que ficar sem uma prótese não é o mesmo que ficar sem uma escova de dentes, [o cidadão] não se desloca pura e simplesmente, está diminuído. E depois há processos administrativos que são caros. Não sei se têm noção, mas uma prótese de uma perna já não é como antigamente um bocado de pau com uma borracha na ponta, é uma coisa eletrónica que pode custar 30 ou 40 mil euros”, referiu.

O coronel vincou ainda que a ajuda aos deficientes das Forças Armadas é “não só uma questão cívica, é uma questão de ética” e sublinhou que estes antigos combatentes “têm que ser apoiados no dia a dia” e não ter “apenas transportes gratuitos ou entradas grátis em museus” — numa alusão a medidas do Estatuto do Antigo Combatente.

Todos os partidos concordaram quanto à importância das reivindicações da ADFA, tendo trocado algumas acusações sobre responsabilidades executivas ou até sobre a necessidade de juntar às palavras os atos.

Pelo PS, a deputada Anabela Real disse que os socialistas registam as preocupações da associação, priorizando esta questão, tratando-se de “um desígnio nacional”.

Logo a seguir, Emília Cerqueira, do PSD, mostrou preocupação pelo “tratamento em matéria de integração” feito pelo atual governo dos deficientes das Forças Armadas, apelando a que “as ações sejam coincidentes com os discursos”.

Também o social-democrata Carlos Eduardo Reis criticou as verbas do Orçamento do Estado para 2022 na área da Defesa, lamentando a falta de investimento.

Pelo Chega, o deputado Pedro Pessanha disse que os antigos combatentes, e nomeadamente os deficientes das Forças Armadas, são uma “prioridade absoluta” para o partido, deixando uma série de questões à associação.

Já Patrícia Gilvaz, da Iniciativa Liberal, vincou que este deve ser um tema transversal, independente de “posicionamentos político-partidários” e defendeu uma “resposta digna e duradoura”.

João Dias, do PCP, lamentou que sejam criadas aos antigos combatentes “muita expectativa, mas quando se chega ao momento de traduzir essa expectativa na prática em alteração da vida dos antigos combatentes, aí já não se traduz”.

Pelo BE, a deputada Joana Mortágua também referiu a “aparente unanimidade no discurso” dos vários partidos mas advogou que esse respeito tem que ser “traduzido em mais ação”.

No final da audiência, o presidente da Comissão de Assuntos Constitucionais, o social-democrata Fernando Negrão, dirigiu-se aos representantes da ADFA: “Esperemos que essa ideia da comemoração do 25 de Abril com a pacificação com os problemas que versam da guerra colonial sejam resolvidos e essa ideia é uma ideia muito interessante”, disse.