Donald Trump pode estar prestes a ser acusado no processo que investiga os acontecimentos da invasão ao Capitólio, a 6 de janeiro de 2021. O antigo Presidente norte-americano e atual candidato às próximas eleições revelou ter recebido uma carta do procurador especial a cargo da investigação, identificando-o como um dos alvos da investigação e instando o republicano a comparecer em frente a um grande júri até à próxima quinta-feira.
Foi através de um comunicado, divulgado na sua rede social, a Truth Social, que Trump partilhou a notícia. “O enlouquecido Jack Smith, o procurador com o Departamento de Justiça de Joe Biden, enviou-me uma carta (a um domingo à noite!) a dizer que eu sou um ALVO da investigação do grande júri sobre 6 de janeiro, dando-me apenas 4 dias para comparecer perante o grande júri, o que quase sempre significa uma detenção e uma acusação”, pode ler-se.
Em causa estão os acontecimentos em torno do ataque ao Capitólio, no momento em que o Senado dos EUA procedia à certificação dos votos do colégio eleitoral que reconheciam a vitória de Joe Biden nas eleições de 2020.
Milhares de apoiantes de Donald Trump (que, em meses anteriores, perpetuou uma série de acusações infundadas de fraude eleitoral) invadiram o edifício para tentar impedir que o processo fosse concluído, resultando em confrontos com as forças de segurança que provocaram a morte de 5 pessoas. Ainda na manhã do mesmo dia, Trump participou no comício “Salvem a América”, em Washington D.C., durante o qual incentivou muitos dos seus apoiantes a fazer uma “marcha pacífica” até ao Capitólio.
Apoiantes de Trump invadiram Capitólio a 6 de janeiro de 2021 para impedir a certificação da vitória eleitoral de Joe Biden
Nesta fase, recorda o The Guardian, não é claro que acusações específicas podem estar em cima da mesa; em todo o caso, é verdade que quando as autoridades federais enviam cartas a indivíduos específicos, tal quer, por norma, dizer que uma uma acusação está próxima.
O próprio Trump passou recentemente por um processo semelhante quando, no início do ano, foi convidado a deslocar-se ao tribunal de Nova Iorque para comparecer perante o grande júri, tendo sido “detido” para cumprir as formalidades do processo, nomeadamente a recolha de impressões digitais e a leitura da acusação — na altura estavam em causa alegadas irregularidades no pagamento de um suborno à ex-atriz pornográfica Stormy Daniels, durante a campanha eleitoral de 2016.
O atual favorito à nomeação do Partido Republicano para 2024 continua a dizer que tudo não passa de uma campanha política para o tentar impedir de voltar à Casa Branca. “O Departamento de Injustiça de Joe Biden efetivamente acabaram de decretar uma terceira acusação e ordem de prisão contra o PRINCIPAL OPONENTE POLÍTICO DE JOE BIDEN”, exclamou o ex-Presidente e candidato no mesmo comunicado.
Donald Trump acusado de 37 crimes no caso dos documentos confidenciais levados da Casa Branca
Na mira de Trump, além da administração Biden, está também o procurador Jack Smith do Departamento de Justiça que, além de ser o homem responsável pela investigação aos acontecimentos de 6 de janeiro de 2021, foi ainda nomeado para liderar o processo relativo aos documentos confidenciais ilegalmente mantidos por Trump depois de este deixar a Casa Branca, e sobre o qual o magnata, de 77 anos, foi formalmente acusado no início do mês de junho.
Recentemente, a equipa de defesa de Trump pediu o adiamento do prazo para o início do julgamento neste processo. Esta movimentação visa atrasar o processo judicial e, no limite, deitar por terra a investigação, uma vez que Trump pode entretanto vir a ser reeleito Presidente nas eleições de 2024, conferindo-lhe imunidade e inviabilizando qualquer julgamento.
Advogados de Trump pedem adiamento do julgamento em caso dos documentos confidenciais
Maioria do Partido Republicano sai em defesa de Trump
Logo após a carta do procurador ter sido tornada pública, as reações começaram a surgir, vindas sobretudo de dentro do Partido Republicano que, na sua maioria, saiu em defesa de Trump.
Uma das primeira vozes a pronunciar-se foi Marjorie Taylor Greene, uma das mais acérrimas (e polémicas) defensoras do antigo Presidente. A congressista do estado da Georgia, que se tornou conhecida durante a pandemia ao defender várias teorias da conspiração relacionadas com as vacinas, acusou os “democratas comunistas” de quererem prender os seus oponentes políticos e descreveu o procurador Jack Smith como um fantoche do partido de Joe Biden.
Também o líder republicano da Câmara dos Representantes, Kevin McCarthy — que chegou a criticar publicamente Trump na sequência do ataque de 6 de janeiro — veio dizer que uma eventual acusação seria um exemplo de “instrumentalização” da justiça, e ecoou a narrativa de Trump de que tal se deve ao facto de este estar a subir nas sondagens.
Sondagem. Donald Trump está 23 pontos percentuais atrás do principal oponente republicano
Entre os adversários de Trump nas primárias republicanas, o sentimento foi mais comedido. De uma forma geral, quase todos disseram não concordar que o magnata viesse a ser acusado — incluindo o principal rival de Trump, o governador da Florida Ron DeSantis, que falou numa “politização” do Departamento de Justiça.
No entanto, houve quem demonstrasse algum cansaço com o protagonismo constante de Trump e dos seus casos na justiça. Nikki Hayley, que foi embaixadora dos EUA nas Nações Unidas durante o mandato do ex-Presidente, disse em declarações à Fox News que a sucessão de polémicas é uma “distração” e um sinal de que é necessária uma “mudança geracional” na liderança do Partido Republicano.
Mais longe ainda foi Asa Hutchinson, também candidato nas primárias republicanas (as sondagens mais recentes dão-lhe cerca de 1% das intenções de voto) e um dos poucos membros do partido abertamente críticos de Donald Trump. Num comunicado publicado no Twitter, o antigo governador do Arkansas considerou que “as ações de Donald Trump no dia 6 de janeiro deviam desqualificá-lo imediatamente de alguma vez voltar a ser Presidente” e instou o favorito à nomeação republicana a suspender imediatamente a campanha.