Marcelo Rebelo de Sousa não morre de amores por Henrique Gouveia e Melo, mas fez questão de dizer que no caso do almirante a condecoração com a Ordem Militar de Cristo não é apenas uma formalidade. “Ultrapassa o mero proforma“, garantiu na cerimónia em Belém. Mas Marcelo Rebelo de Sousa não resistiu, para lá dos elogios, a desmontar todo o percurso de Gouveia e Melo para explicar como se afirmou do ponto de vista mediático. E cita Ortega y Gasset para dizer, ponto por ponto, que o almirante é, como todas as pessoas, fruto dele “próprio e as suas circunstâncias“.
Antes das maldades, comecemos pelos elogios. Na sala dos embaixadores, Marcelo Rebelo de Sousa explica que apesar de uma recente abordagem legislativas que limitada daquela ordem todos os chefes militares recebem a condecoração. Disfarçando bem caso fosse um engolir de um sapo — que seria o natural, tendo em conta o que foi partilhando nos bastidores com outros atores políticos nos últimos meses — o Presidente da República garante que “trata-se de reconhecer o mérito no exercício de funções da parte do Almirante Henrique Gouveia e Melo enquanto Chefe do Estado-Maior da Armada”.
Começam depois as entrelinhas do Presidente, que acrescenta que o almirante exerceu as suas funções de CEMA com “um toque pessoal muito específico”, que “beneficiou da sua carreira, mas definiu-se, de forma singular, no exercício da função. ” Depois de elogiar a lufada de ar fresco que o Almirante levou à Marinha, na modernização, na área dos drones, na investigação científica, nos contactos internacionais ou na ligação ao setor privado, Marcelo acrescenta um “mas”. Diz o Presidente: “Mas, para sermos justos, como dizia um clássico: todas as pessoas são elas próprias e a sua circunstância. E, para se compreender o desempenho que foi o seu, tem de se compreender a circunstância.”
O Presidente começa então a descrever como foram os caprichos do percurso que levaram Henrique Gouveia e Melo a ter atual imagem pública: Há várias circunstâncias que o marcam: primeiro vir de um domínio específico, que é os submarinos; segundo, o facto de em várias circunstâncias ter sido porta-voz da Marinha e por vezes do Estado-Maior-General das Forças Armadas, o que lhe permitiu um contacto privilegiado da sociedade civil e uma compreensão do fenómeno mediático em transformação na sociedade portuguesa.” Marcelo justifica assim facilidade que o Almirante teve em comunicar e ser visível durante o tempo em que chefiou a Armada.
Depois, o chefe de Estado atribui à sorte, ou melhor, às circunstâncias o mediatismo e “protagonismo” de Gouveia e Melo. “As calamidades permitiram-lhe uma intervenção diferente. A experiência em 2017, aquando dos fogos. Coube-lhe , a logística alimentar e isso deu-lhe um contacto privilegiado com as populações naquele municípios”, diz o Presidente. Que continua: “Mais tarde, num período de calamidade, que determinou Estado de emergência, a experiência do protagonismo daquilo que foi uma campanha de vacinação em Portugal ao longo do ano de 2021.” Para Marcelo, o almirante foi buscar a Pedrógão Grande o à vontade junto das populações e à pandemia a experiência para ser um protagonista mediático.
Marcelo colocou depois a faixa vermelha em Gouveia e Melo, que estava muito apertada por o almirante ser alto. Enquanto posava para a fotografia, o Presidente da República dizia que era importante a imagem para “depois mostrar às famílias” e provar que aconteceu aquele momento.
Na sala ficaram dois membros do Governo: o ministro da Defesa, Nuno Melo, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel fizeram questão de ficar para a cerimónia. O primeiro-ministro Luís Montenegro não assistiu à condecoração, o que não é invulgar já que António Costa também não esteve na distinção do antecessor António Mendes Calado. A de Mendes Calado foi, porém, meses depois da posse do sucessor, o que tornou menos intuitiva a presença de ministros. Rangel e Melo não tinham de ficar e ficaram. Montenegro não precisava de ficar e não ficou.
Minutos antes, o Presidente deu posse ao novo Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), o almirante Jorge Nobre Sousa. A cerimónia durou cerca de dois minutos e meio. Henrique Gouveia e Melo passa agora à reserva, como pretendia, e fica com total liberdade nos “direitos cívicos”, sendo expectável que prepare uma candidatura à Presidência da República.