Erigido durante a ditadura do Estado Novo, reabilitado nos 50 anos da democracia. O Estádio Nacional vai ter a primeira grande remodelação da sua história, num projeto apresentado na manhã desta segunda-feira. Os 13 projetos a concurso – que começou a 22 de janeiro de 2024 e durou um ano – foram reduzidos a seis, todos premiados, mas só um foi escolhido. O júri, composto pela Federação Portuguesa de Futebol, IPDJ, Património Cultural da IP, Câmara Municipal de Oeiras e a Ordem dos Advogados, acabou por escolher o projeto do consórcio Aires Mateus III, Atherden Fuller Leng e Gonçalves Vieira-Cruz, com coordenação do arquiteto Manuel Aires Mateus. Um projeto em que a palavra de ordem é “reabilitar”, já que não se quer retocar demasiado a obra prima.

Por isso mesmo, não se esperam alterações na estrutura do estádio propriamente dita, mas sim nas acessibilidades ao seu redor. Os acessos e entradas vão ser reabilitados, os lugares para pessoas com mobilidade reduzida vão ser requalificados, e um dos maiores pontos de queixa do recinto vão ser melhorados: as casas de banho. Adeus aos WC portáteis, olá a novas infraestruturas para os adeptos. “Vamos passar a ter o número necessário de casas de banho, bares e outros espaços de apoio para eventos como a final da Taça de Portugal. Vamos deixar de ter um Estádio Nacional mais coxo e passamos a ter um Estádio Nacional preparado para os tempos de hoje”, explica Manuel Aires Mateus, arquiteto coordenador do projeto.

A Tribuna Presidencial, na bancada central do estádio, vai receber uma pala, alicerçada na zona verde do recinto

Algumas das grandes queixas dos adeptos ficam assim sanadas, mas uma delas poderá continuar, pelo menos no grosso do recinto: o desconforto com chuva, vento ou frio por causa da ausência de cobertura. O novo “Jamor 2.0” vai ganhar uma pala gigantesca na bancada presidencial, mas fica fora de questão alargar a cobertura a todo o estádio. Uma ideia que, para Manuel Aires Mateus, é quase impossível de realizar: “Esta cobertura escolhida já é uma cobertura muito ambiciosa. Há uma parte significativa do público que ficará agora coberta. Outra não estará, mas não seria possível aumentar mais esta cobertura”, esclarece. Esta cobertura pode vir ainda a ganhar vida durante a noite, com iluminação, uma possibilidade que está incluída no projeto. Luz verde tem assim também a criação de um novo lounge na entrada VIP, com a criação de um novo parque de estacionamento.

Mas quando é que os adeptos vão poder ver a nova cara do santuário do futebol português? Está no segredo dos deuses. Por enquanto não há previsões para o início e fim das obras, mas a partir de hoje começa a fase de concretização do projeto. Nenhuma das autoridades presentes na apresentação feita na sede da Ordem dos Arquitetos se quis comprometer com uma data certa, mas há pelo menos um horizonte de esperança quanto ao Mundial-2030. António Laranjo, responsável pela candidatura ibero-marroquina ao Campeonato do Mundo – que se vai realizar em Portugal, Espanha e Marrocos –, e também presidente do júri que escolheu o projeto de reabilitação, não tem dúvidas de que se já estiver pronto, o Jamor vai ser uma infraestrutura importante na competição: “Não tenho dúvidas de que este será um estádio em condições para ser utilizado como um dos centros de treino para uma das seleções”.

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Mas enquanto não chega o Mundial de 2030, daqui a cinco anos, há muito por onde usar o também chamado Estádio do Jamor. Isaltino Morais que o diga. O presidente da Câmara Municipal de Oeiras também discursou na apresentação e, entre elogios ao projeto e à cooperação, deixou críticas aos últimos Governos pela forma como tem sido gerido o estádio e pela clausura “nacional” a que este foi cingido. “A democracia chegou muito tarde ao Estádio Nacional. Sempre foi visto pelos dirigentes do desporto nacional como uma espécie de quinta dos funcionários designados pelo Governo para fazerem a gestão daquele espaço. E, naturalmente, não viam com bons olhos a apropriação do espaço pelos cidadãos. Como era nacional, só servia para eventos nacionais. Era uma espécie de quisto”, rematou o autarca. Uma democracia que se espera que chegue agora ao Jamor, com maior participação dos cidadãos.

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Uma participação que já vai acontecer através do erário público. Todo o financiamento da reabilitação vai custar 25 milhões de euros, o valor estabelecido ainda antes do concurso, com 6% a serem comparticipados pelo Estado e a corresponderem ao valor apenas do projeto. Valores explicados pelo Secretário de Estado do Desporto, Pedro Dias: “Este valor foi o valor base do concurso quando ele foi apresentado. As seis entidades que se candidataram sabiam que tinham de apresentar um projeto que cumprisse esse valor. O valor do projeto é sensivelmente 6% do valor total da obra. E como ficou assumido, as entidades preponentes têm um protocolo que estabelecem as responsabilidades de cada um”, afirma, deixando também uma garantia. “São estas entidades  federações, o património cultural, IPDJ, a Câmara Municipal de Oeiras –, que vão fazer acontecer. E nós não vamos estorvar”, diz.

FPF

Mas também houve elogios aos governos, com o maior a vir de Fernando Gomes, ainda presidente da Federação Portuguesa de Futebol. O agora candidato à presidência do Comité Olímpico Português agradeceu a Luís Montenegro por se ter “apercebido” do que representava o projeto e por o ter abraçado, mas principalmente a António Costa: “Agradeço ao anterior primeiro-ministro António Costa. O apoio institucional é fundamental para o sucesso de iniciativas desta dimensão e, sem dúvida, que a sua visão foi uma força motriz neste processo”.