Eduardo Cabrita, antigo ministro da Administração Interna e responsável político pela extinção do SEF, acredita que Pedro Nuno Santos não tem razão quando defende que o mecanismo de manifestação de interesse teve um “efeito de chamada” na imigração e lamentou a declaração “perigosa” do líder socialista sobre a necessidade de os imigrantes respeitarem o “modo de vida” do país que os acolhe.

Em entrevista à CNN Portugal, Cabrita chegou mesmo a dizer que Pedro Nuno Santos “conhece mal” o tema da imigração e, partindo de um pressuposto falso, chegou a uma conclusão errada quando se pronunciou sobre o mecanismo de manifestação de interesse.

“A manifestação de interesse era um mecanismo residual. Só poderia recorrer à manifestação de interesse quem tivesse entrado legalmente em Portugal, quem estivesse a trabalhar e a descontar para a Segurança Social há um ano. Não tinha efeito de chamada. Discordo de Pedro Nuno Santos. Ele conhece mal estes temas e eu acompanho-os há muitos anos. O efeito de chamada foi porque a economia portuguesa foi das que mais cresceu em 2022 e 2023″, começou por Eduardo Cabrita dizer nos estúdios da CNN.

Esta posição de Eduardo Cabrita está alinhada com a do seu sucessor no cargo, José Luís Carneiro, e de figuras como Eurico Brilhante Dias, que além de ter sido secretário de Estado da Internacionalização nos governos de António Costa foi também líder parlamentar do PS. “Pedro Nuno Santos está a avaliar mal uma realidade que conhece mal. O que trouxe mais imigrantes para Portugal foi o crescimento da economia em 2022 e 2023″, rematou Cabrita.

Ainda assim, no essencial, o antigo ministro acabou por elogiar o “contributo muito importante” que Pedro Nuno Santos deu para o debate sobre imigração ao recentrar a discussão na necessidade de acolher e integrar bem os imigrantes e por estar a desenhar uma alternativa que venha responder ao “vazio” deixado pelo atual Governo quando extinguiu o mecanismo de manifestação de interesse. Além disso, e tal como fizera recentemente em entrevista ao Observador, Eduardo Cabrita voltou a criticar a forma como foi conduzido o processo de criação da AIMA.

No entanto, quando desafiado a comentar as declarações de Pedro Nuno Santos sobre a necessidade de os imigrantes respeitarem o “modo de vida” e a “cultura” do país que os acolhe, Eduardo Cabrita foi bem menos tolerante. “Isso não faz sentido nenhum. Estou certo de que Pedro Nuno Santos clarificará essa posição. A nossa forma de vida é o respeito pelos Direitos Humanos. A expressão dita dessa forma é perigosa. Há múltiplos modos de vida. O limite é o respeito pela lei.”

Com explicava aqui o Observador, a pressão no PS para um posicionamento claro sobre um tema sensível como o da imigração não era de agora e aqueceu com as polémicas declarações de Ricardo Leão, em outubro passado. Entre um posicionamento mais humanista ou mais pragmático, houve mesmo socialistas que defenderam que se criasse um guião. O líder socialista Pedro Nuno Santos acabou por clarificar essa linha a tempo das autárquicas, mas fez saltar para a praça pública uma divisão que o partido já vivia internamente sobre o tema.

Pedro Nuno Santos clarificou linha na imigração e dividiu o partido