Os combates na RDCongo intensificaram-se nos últimos dias, com o grupo rebelde M23 a anunciar que capturou Goma — a maior cidade do leste do país, na manhã desta segunda-feira. Várias embaixadas foram atacadas por manifestantes, a ONU relatou cenário de muitos cadáveres nas ruas, e as hostilidades resultaram em mais de 100 mortos e cerca de mil feridos, só nos últimos três dias de combates, segundo a agência de notícias France-Presse (AFP). Em reação, o Papa Francisco pediu o fim da violência instalada.
O sumo pontífice lamentou esta quarta-feira a violência no leste da República Democrática do Congo e apelou ao fim dos combates. “Exorto todas as partes em conflito a empenharem-se na cessação das hostilidades e na proteção da população civil de Goma e de outras regiões afetadas pelas operações militares”, disse no final da audiência geral, apelando ao ‘fim mais rápido possível de todas as formas de violência’.
O Papa prometeu rezar “pelo restabelecimento da paz e da segurança” e pediu “às autoridades locais e à comunidade internacional a mostrarem o máximo empenho na resolução do conflito por meios pacíficos”.
Pelo menos 17 mortos e 367 feridos nos combate em Goma, na República Democrática do Congo
Mais de 100 mortos e cerca de mil feridos foram levados para os hospitais de Goma nos últimos três dias de combates, de acordo com uma contagem da agência de notícias France-Presse (AFP) elaborada na terça-feira a partir de relatórios hospitalares.
O grupo armado antigovernamental M23 e das tropas ruandesas, na terça-feira, tomou o aeroporto, menos de dois dias depois de terem entrado na cidade, onde os combates já deslocaram mais de 500.000 pessoas desde o início de janeiro, segundo o governo congolês.
Pelo menos 17 mortos e 367 feridos nos combate em Goma, na República Democrática do Congo
Na terça-feira, em Kinshasa, manifestantes atacaram várias embaixadas, incluindo a do Ruanda, acusado pelas autoridades congolesas de lhes ter “declarado guerra” no leste do país. As missões diplomáticas do Quénia, França, Bélgica e Estados Unidos, países criticados pela sua inação nesta crise, foram também alvo de ataque.
Uruguai anuncia cessar-fogo mediado pela missão da ONU
O exército do Uruguai, entretanto, anunciou na segunda-feira que as forças armadas da República Democrática do Congo (RDCongo) e o grupo armado Movimento 23 de Março (M23) chegaram a um acordo de cessar-fogo, mediado pela missão da ONU, com entrada em vigor prevista para as 19h00 [18h00 em Lisboa]. No entanto, não houve até ao momento qualquer confirmação oficial da trégua por parte do governo congolês ou do M23.
“Após os esforços da MONUSCO [Missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo], foi alcançado um acordo de cessar-fogo entre as facções em guerra”, disse o exército do Uruguai.
A MONUSCO, que inclui centenas de soldados uruguaios, esteve envolvida na luta contra o M23, ao lado do exército congolês em Goma.
Conselho de Segurança da ONU condena violação da soberania
A atual situação da região provocou também a reação do Conselho de Segurança da ONU, que condenou o “desrespeito descarado” pela soberania e integridade territorial da República Democrática do Congo, exigindo a retirada de “forças externas” do país, sem apontar explicitamente para o Ruanda.
Os membros do Conselho “condenam o flagrante desrespeito pela soberania e integridade territorial da RDCongo, incluindo a presença não autorizada de forças externas no leste do país, conforme relatado pelo Grupo de Peritos, e exigem a retirada imediata dessas forças”.
A declaração, divulgada no domingo à noite, refere um relatório de peritos da ONU que denunciou a presença de forças ruandesas na RDCongo e o apoio do Ruanda ao grupo armado rebelde M23, que está a combater o exército congolês.
A declaração surgiu depois de uma reunião de emergência do Conselho de Segurança, agendada inicialmente para segunda-feira, mas antecipada para domingo face à tomada por parte do M23 da cidade de Goma.
Na reunião, a diplomacia congolesa pediu ao Conselho de Segurança para impor sanções políticas e económicas contra o Ruanda.
Ruanda sublinha necessidade de cessar-fogo
O Presidente do Ruanda, Paul Kagame, disse esta quarta-feira ter tido uma “conversa produtiva” com o chefe da diplomacia dos Estados Unidos sobre a “necessidade de garantir um cessar-fogo” na República Democrática do Congo (RDCongo).
Numa mensagem publicada na rede social X, Kagame disse que, durante a conversa por telefone com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, sublinhou a importância “de abordar de uma vez por todas as causas profundas do conflito” na vizinha RDCongo.
Had a productive conversation with Secretary Rubio @SecRubio on the need to ensure a ceasefire in Eastern DRC and address the root causes of the conflict once and for all, and on the importance of deepening our bilateral ties based upon respect for our respective national…
— Paul Kagame (@PaulKagame) January 28, 2025
O chefe de Estado do Ruanda enfatizou “a importância de aprofundar” os “laços bilaterais com base no respeito pelos nossos respetivos interesses nacionais”.
“Estou ansioso por trabalhar com a administração [do novo Presidente dos Estados Unidos, Donald] Trump para criar a prosperidade e a segurança que o povo da nossa região merece”, acrescentou Kagame.
Guterres nomeia novo líder das forças da ONU
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, anunciou a nomeação do tenente-general brasileiro Ulisses de Mesquita Gomes como novo comandante das forças da ONU na República Democrática do Congo (RDCongo).
Em comunicado divulgado na terça-feira, as Nações Unidas explicaram que Gomes tem 35 anos de experiência em resposta a crises, gestão de conflitos e manutenção da paz.
“O seu último cargo foi no exército do seu país, onde desempenhou as funções de Vice-Chefe do Comando de Logística do Exército. Antes disso, foi adido militar do Brasil nos Estados Unidos”, observou a ONU.
O conflito entre o M23, apoiado por três mil a quatro mil soldados ruandeses, segundo a ONU, e o Exército congolês dura há mais de três anos.
A RDCongo acusa o Ruanda de querer apoderar-se das riquezas do leste do Congo, algo que Kigali nega.