Perante os jornalistas na Sala Oval da Casa Branca, tanto o Presidente dos EUA, Donald Trump, como o vice-presidente, JD Vance, acusaram Zelensky de “ingratidão”, apontando que o ucraniano devia agradecer pelo apoio militar do país assim como pelos esforços do Presidente dos EUA para acabar a guerra.
A CNN Interncional recolheu 33 declarações e publicações na rede social X de Volodymyr Zelensky em que o líder agradeceu aos Estados Unidos pelo apoio que têm demonstrado ao país, com a primeira das publicações a datar de janeiro de 2022, praticamente um mês antes da guerra. As contas da CNN não contabiliza as declarações que o Presidente terá feito em ucraniano ou para a comunicação social do seu país.
“Obrigado, Presidente [Joe Biden] pelo apoio militar e diplomático (norte-americano) sem precedentes à Ucrânia“, escreveu Zelensky a 21 de janeiro de 2022, numa altura em Biden afirmava que qualquer entrada de forças russas no país seria considerada “uma invasão” e que seria “alvo de uma resposta económica severa e coordenada”.
Thank you @POTUS for the unprecedented ???????? diplomatic and military assistance for ????????. https://t.co/GfxDqdl1q8
— Volodymyr Zelenskyy / Володимир Зеленський (@ZelenskyyUa) January 21, 2022
Em 2022, no primeiro ano de guerra, o Presidente ucraniano agradeceu aos Estados Unidos e a Joe Biden nas redes sociais e em discursos por cinco vezes, segundo as contas da televisão norte-americana. Já em 2023, foram oito os agradecimentos públicos; em 2024, atingiram as 18 vezes e em 2025 contam-se já dois.
De facto, como refere a CNN, existe a possibilidade de o atual Presidente se estar a referir a “gratidão” diretamente demonstrada a ele próprio ou aos EUA sob a sua Presidência — portanto, desde que Trump voltou à Presidência, a 20 de janeiro. Porém, desde a reeleição de Donald Trump como Presidente, em novembro do ano passado, Zelensky fez pelo menos três agradecimentos em que menciona diretamente Trump, referindo-se ao apoio que tem feito à Ucrânia.
Mas a relação entre ambos dura há mais tempo. Ao todo, Zelensky e Trump coexistiram enquanto líderes dos respetivos países ao longo de 611 dias, com um primeiro período entre 2019 e 2021, antes de Biden vencer as presidenciais de 2020 nos EUA. Poucos meses depois de Zelensky ser eleito em maio de 2019, Trump ligou ao líder ucraniano para discutirem, entre vários assuntos, a investigação de que Hunter Biden estava a ser alvo na Ucrânia.
A transcrição, perante acusações de que Trump estaria a pressionar o ucraniano para investigar Hunter Biden, foi divulgada. Na altura, lê-se, Trump era visto pelo Presidente ucraniano como um “professor” para um recém-eleito Zelensky que também queria “drenar o pântano“.
De facto, as relações pareciam muito mais radiantes na altura entre ambos os Presidentes. Zelensky e Trump estavam de acordo sobre vários assuntos, especialmente no que toca a um assunto fundamental ainda nos dias de hoje: as sanções sobre a Rússia.
Na altura, Zelensky agradecia aos Estados Unidos de Trump por estarem a fazer “muito mais do que a União Europeia, especialmente quando estamos a falar de sanções contra a Federação Russa“. O Presidente ucraniano agradeceu também pela entrega dos misseis Javelin, como parte da cooperação de defesa dos dois países.
Mas foi “o favor” pedido por Trump na chamada para investigar Hunter Biden que acabou por iniciar a decadência das relações entre ambos, até porque foi o que desencadeou o primeiro impeachment contra o Presidente dos EUA.
Mais de cinco anos e uma guerra depois, o tom de Zelensky e Trump mudou radicalmente, como foi demonstrado pelo encontro em Washington D.C. desta sexta-feira.
“Eu dei-lhe os Javelins para destruir aqueles tanques todos. O Obama deu-lhe lençóis. De facto, o que fica é que Obama deu lençóis e Trump deu Javelins. Tem de ser mais grato. Porque, deixe-me dizer-lhe: sem nós, vocês não têm cartas. Connosco tem as cartas. Mas, sem nós, não tem as cartas”, disse o norte-americano no fim da discussão.
A primeira resposta pública do líder ucraniano na sexta-feira veio na rede social X na forma, novamente, de vários “obrigado”.
“Obrigado América, obrigado pelo vosso apoio, obrigado por esta visita. Obrigado ao Presidente, ao Congresso e ao povo americano. A Ucrânia precisa de uma paz justa e duradoura, e estamos a trabalhar exatamente para isso”, escreveu Zelensky.
Thank you America, thank you for your support, thank you for this visit. Thank you @POTUS, Congress, and the American people.
Ukraine needs just and lasting peace, and we are working exactly for that.— Volodymyr Zelenskyy / Володимир Зеленський (@ZelenskyyUa) February 28, 2025