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Zelensky e Trump, quando se encontraram pela primeira vez, em 2019
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▲Zelensky e Trump, quando se encontraram pela primeira vez, em 2019

AFP via Getty Images

▲Zelensky e Trump, quando se encontraram pela primeira vez, em 2019

AFP via Getty Images

Do primeiro impeachment às trocas de insultos. Como um telefonema de 2019 azedou a relação entre Trump e Zelensky

Na segunda vez que os dois falaram, em 2019, Trump pediu favores a Zelensky, em troca de apoio militar. A chamada levaria ao primeiro impeachment de Trump e criou tensões na relação dos dois até hoje.

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Eram 16h03 do dia 25 de julho de 2019, quando um telefone tocou no palácio Mariinskyi em Kiev. Era o Presidente norte-americano, Donald Trump, que ligava para congratular o seu homólogo ucraniano pela vitória do seu partido nas eleições legislativas, quatro dias antes. Volodymyr Zelensky ocupava o cargo há pouco mais de dois meses e era apenas a segunda vez que os dois líderes falavam — a primeira tinha sido por ocasião da sua eleição como Presidente. “Devia concorrer [a eleições] mais vezes, para que me ligasse mais e falássemos mais vezes”, brincou Zelensky, a sua veia de comediante a transparecer.

Mas o Presidente Trump não estava a ligar apenas para dar os parabéns a Zelensky. “Tenho de lhe pedir um favor, porque o nosso país passou por muito e a Ucrânia sabe muito sobre isso“, afirmou o norte-americano, depois de trocarem algumas formalidades. O que se seguiram foram pedidos para que a Ucrânia investigasse dois casos que envolviam os democratas e que, caso se tivessem confirmado, poderiam ter sido utilizados a favor de Trump nas eleições do ano seguinte. Na verdade, o Presidente estava a alimentar duas teorias da conspiração que já tinham sido desmentidas por autoridades norte-americanas.

Ainda que os pedidos pudessem parecer questionáveis, um “não” de Zelensky poderia significar o fim dos casos. Mas Donald Trump tinha jogado as suas cartas ainda antes de pegar no telefone — dias antes da chamada, o Presidente norte-americano tinha ordenado o congelamento de 400 milhões de dólares em ajuda militar à Ucrânia. O telefonema configurava-se assim como uma tentativa de pressionar Kiev a colaborar, mais do que um favor entre amigos.

"A posição geral da administração Zelensky parece ser ouvir a Casa Branca de Trump e não rejeitar nenhum pedido sem se apressar a satisfazê-los. É um equilíbrio difícil: não dizer que não a Trump, mas também não dizer bem que sim."
Revista New Yorker, em 2019, sobre a relação entre Zelensky e Trump

“A posição geral da administração Zelensky parece ser ouvir a Casa Branca de Trump e não rejeitar nenhum pedido sem se apressar a satisfazê-los. É um equilíbrio difícil: não dizer que não a Trump, mas também não dizer bem que sim”. As palavras foram escritas pela revista New Yorker em setembro de 2019, mas seriam igualmente válidas hoje, quando Trump acusa Zelensky de ser um “ditador sem eleições” e prefere negociar o fim da guerra com Moscovo.

A chamada de 2019 acabou por ser tornada pública e desencadeou o primeiro processo de impeachment de Trump. “Ele nunca recuperou das consequências da chamada telefónica ‘perfeita'”, avalia agora John Bolton, que, à data, era o conselheiro de segurança nacional da Casa Branca. A chamada esteve longe de ser “perfeita” e, até hoje, a relação entre Trump e Zelensky não recuperou da onda de choque que gerou.

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O que é que Donald Trump queria de Volodymyr Zelensky com o telefonema?

No dia 25 de julho, quando o Presidente norte-americano entrou numa das duas salas de crise da Casa Branca, levava com ele um guião para a conversa. Devia congratular Zelensky pela vitória do seu partido nas urnas, apoiar a sua agenda anticorrupção e precavê-lo contra possíveis tentativas de manipulação de Moscovo. O relato dos tópicos de conversa foi feito por Alexander Vindman, que era o diretor dos assuntos europeus no Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos e estava presente na sala de crise durante o telefonema.

Donald Trump não seguiu o guião e colocou em cima da mesa dois “favores”. “Queria que percebesse o que aconteceu com esta situação toda com a Ucrânia, eles dizem que a Crowdstrike… Acho que é uma das suas pessoas ricas… O servidor, dizem que a Ucrânia é que o tem“, afirmou Trump, segundo a transcrição que a Casa Branca disponibilizou em setembro — as reticências são edições que foram feitas no documento. A Crowdstrike era uma empresa que detinha servidores com dados do Partido Democrata e que foi alvo de um ataque informático durante as eleições de 2016 — o relatório do procurador especial Robert Mueller revelou, em abril de 2018, que o ataque tinha sido levado a cabo pela Rússia, numa tentativa de interferir com os resultados das eleições presidenciais norte-americanas.

Na chamada, Donald Trump fazia referência a uma teoria da conspiração, promovida pelo seu advogado, Rudy Giuliani, de que a empresa era detida por um ucraniano e todo o ataque informático e ligações à Rússia tinham sido simuladas pelos democratas para prejudicar a campanha do Partido Republicano. Trump prometia pôr Zelensky em contacto com Giuliani, para averiguar esta questão.

"A outra coisa: há muita conversa sobre o filho de Biden, que Biden parou a acusação e que muitas pessoas querem saber isso, por isso o que consiga fazer com o procurador-geral seria ótimo. Biden andou a gabar-se que parou a acusação, por isso se conseguir ver isso... Parece-me horrível."
Pedido de Donald Trump a Volodymyr Zelensky, na chamada de 2019

Mais à frente na conversa, o Presidente norte-americano revelou o segundo favor. “A outra coisa: há muita conversa sobre o filho de Biden, que Biden parou a acusação e que muitas pessoas querem saber isso, por isso o que consiga fazer com o procurador-geral seria ótimo. Biden andou a gabar-se que parou a acusação, por isso se conseguir ver isso… Parece-me horrível”, declarou Trump. Donald Trump referia-se às acusações de que Joe Biden tinha pressionado Kiev a mudar o seu procurador-geral, devido ao facto de o seu filho, Hunter Biden, pertencer ao quadro da administração de uma empresa ucraniana, a Burisma.

É verdade que Biden fez parte da equipa da administração Obama que pressionou Kiev a substituir o procurador Viktor Shokin, em março de 2016. Mas a justificação da Casa Branca é que Shokin se estava a recusar a combater a corrupção no país. Os apelos à reforma da procuradoria ucraniana foram apoiados por Estados europeus e pelo Fundo Monetário Internacional, que ameaçou retirar apoio à Ucrânia. A narrativa de Trump era uma tentativa de encontrar armas políticas contra Biden, a pouco mais de um ano das eleições — que o democrata viria a ganhar.

Antes de pôr os dois pedidos na mesa, Trump tinha empunhado o seu trunfo. “Fazemos muito pela Ucrânia. Despendemos muito esforço e muito tempo. Não diria que é necessariamente recíproco, porque estão a acontecer coisas que não são boas, mas os Estados Unidos têm sido muito bons para a Ucrânia”, declarou, deixando implícita outra frase — o “esforço” norte-americano só ia continuar se passasse a ser “recíproco”.

▲ Donald Trump sugeriu a Zelensky que articulasse a investigação com Rudy Giuliani, que não fazia parte da administração

The Washington Post/Getty Images

Zelensky não se deixou intimidar por Donald Trump e jogou com o charme, descreveu Vindman: elogiou os Estados Unidos, chamou-os de bons amigos, falou no petróleo que Kiev planeava comprar a Washington e, sem nunca prometer respostas a estas investigações, pediu contactos dos procuradores e advogados norte-americanos para ter mais informações sobre os dois casos.

“Isso foi suficiente. Finalmente, o Presidente ficou amigável, muito amigável: ‘Quando quiser vir à Casa Branca’, disse ele, ‘esteja à vontade para ligar. Dê-nos uma data e vamos resolver isso. Mal posso esperar para o ver'”, lembra o antigo membro do Conselho de Segurança Nacional.

O primeiro encontro presencial, o impeachment e a “paranóia” de Donald Trump

Donald Trump e Volodymyr Zelensky encontraram-se pessoalmente precisamente dois meses depois da chamada telefónica. Ao contrário do prometido, o encontro não foi na Casa Branca, mas em Nova Iorque, na Assembleia Geral das Nações Unidas. Na verdade, Zelensky nunca recebeu um convite de Trump para se encontrarem na Sala Oval.

Isto porque duas semanas de terem falado ao telefone, uma queixa anónima foi apresentada ao Diretor Nacional dos Serviços Secretos, Michael Atkinson — “o Presidente dos Estados Unidos está a usar o poder do seu cargo para solicitar interferências de um país estrangeiro nas eleições dos EUA de 2020”, pode ler-se no documento. As informações foram passadas à speaker da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, que, em setembro de 2019, anunciou a abertura de um processo de impeachment ao Presidente Donald Trump.

Foi nesta altura que a Casa Branca publicou a transcrição, editada, da chamada telefónica, numa tentativa de inocentar o Presidente. Sem sucesso, uma vez que o processo foi aprovado pela câmara baixa por abuso de poder e obstrução do Congresso. Poucas semanas depois, o Senado rejeitou as duas acusações e impediu a destituição de Trump.

▲ No final de 2019, a Câmara dos Representantes avançou com o processo de impeachment contra Trump

JIM LO SCALZO/EPA

No mesmo mês em que o processo era anunciado, Trump e Zelensky reuniam-se à margem da Assembleia Geral da ONU e eram questionados sobre a chamada. “Desculpem, mas não quero estar envolvido”, respondeu o Chefe de Estado ucraniano. “Eu não pressionei ninguém“, disse por sua vez o norte-americano.

No final desse ano, Volodymyr Zelensky insistia na sua neutralidade, numa entrevista à Time. “Eu nunca falei com o Presidente numa posição de quid pro quo. Não quero que pareçamos pedintes. Mas têm de perceber. Estamos em guerra [na Crimeia]. Se são nossos parceiros estratégicos, não nos podem bloquear nada”, argumentou.

Questionado diretamente sobre o estado da sua relação com Donald Trump, o Chefe de Estado ucraniano, que ainda não tinha cumprido um ano no cargo, garantia que “não confia em ninguém”, nem mesmo entre os aliados norte-americanos. “Eu nunca quis que a Ucrânia se tornasse uma peça no tabuleiro de xadrez dos grandes jogadores globais para que alguém nos usasse como capa para negócios”, lamentava Zelensky. O tempo — e a invasão do Donbass que alastrou a guerra ao país todo — viriam a dar razão a essa preocupação de Zelensky.

Mas enquanto o líder ucraniano se desligava do escândalo político que lavrava em Washington, Donald Trump ficava cada vez mais “paranóico”, descreve John Bolton. “Ele falou muito sobre isso depois. Antes de eu sair [Bolton demitiu-se em setembro de 2019], ele falava sobre isso e disseram-me que, depois, ele continuava a fazê-lo. ‘Onde está o servidor de Hillary Clinton na Ucrânia?’ ‘Por que é que fizeram campanha contra mim em 2016?'”, cita o antigo conselheiro. “Era tudo paranóia, mas era isso que ele pensava”, remata.

A invasão russa, a aproximação a Joe Biden e um encontro tenso em Nova Iorque

Foram precisos mais de dois anos, mas no dia 1 de setembro de 2021, Volodymyr Zelensky finalmente viu cumprida a promessa de Trump e foi recebido na Casa Branca. Porém, durante esse período aconteceu uma mudança significativa: Donald Trump não conseguiu ser reeleito e Joe Biden chegou a Presidente.

President Biden Welcomes Ukrainian President Zelensky To The White House

▲ A primeira vez que Zelensky foi recebido na Casa Branca, já por Joe Biden, meses antes da invasão russa

Getty Images

Pouco tempo depois, as forças russas invadiram o Donbass. Donald Trump, ex-presidente, elogiou Zelensky pela sua bravura e classificou a ofensiva como “chocante”. E garantiu, pela primeira vez, que não teria acontecido se ainda fosse Presidente. Esta narrativa manteve-se até hoje, mas, à medida que a colaboração entre Kiev e Washington se estreitava, as declarações de Trump passaram para segundo plano.

Até ao ano passado e à campanha eleitoral onde Trump procurou a reeleição — enquanto o Partido Democrata se desdobrou em lutas internas para substituir Joe Biden e encontrar um novo nome a poucos meses da ida às urnas. Os ataques de Trump a Biden pela gestão da guerra na Ucrânia nunca cessaram. Mas a eles somaram-se ataques ao homem a que outrora chamara de corajoso.

No verão, acusou Zelensky de ser o “melhor vendedor de sempre”. Ele saiu daqui há quatro dias com 60 mil milhões de dólares, chega a casa e anuncia que precisa de outros 60 mil milhões. Nunca acaba”, atirou na Carolina do Norte. Por esta altura, Zelensky já não era um novato na política e respondeu, em entrevista à New Yorker. “Acho que Trump não sabe como parar a guerra ainda que ele ache que sabe”, considerou. O então candidato republicano censurou-o por “lançar calúnias desagradáveis contra o seu presidente favorito“.

A troca de provocações entre os dois homens não impediu que, nessa mesma semana, no final de setembro, se encontrassem na Trump Tower, em Nova Iorque. O Presidente ucraniano aproveitou para apresentar o seu Plano de Vitória e ambos concordaram que a guerra precisava de chegar ao fim. Mas o momento não esteve livre de tensão.

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▲ Zelensky e Trump encontraram-se na Trump Tower, em setembro de 2024

Getty Images

Em declarações aos jornalistas, antes do encontro, Trump sublinhou as “relações muito boas” que diz ter tanto com Volodymyr Zelensky como com Vladimir Putin. “Espero que tenhamos as melhores relações“, notou o ucraniano com um sorriso na cara. “São precisos dois para dançar o tango”, retorquiu Trump, mais sério.

No dia a seguir às eleições, Zelensky foi dos primeiros líderes internacionais a felicitar Donald Trump pela vitória. Independentemente das tensões na sua relação pessoal, o Presidente ucraniano continuava ciente que a “liderança decisiva” dos Estados Unidos, como o próprio definiu, ia pesar na guerra na Ucrânia.

“Ditador sem eleições” e “comediante com sucesso modesto”: insultos gratuitos ou “método na loucura”?

Durante cinco anos, Zelensky soube jogar com a imprevisibilidade de Donald Trump e manter-se nas suas boas graças. Alexander Vindman argumenta que o seu passado de comediante lhe conferiu a capacidade para ler as pessoas e reagir em conformidade.

Porém, a tensão entre os dois líderes estalou, como nunca antes, este mês. Os ataques começaram depois de Donald Trump ter telefonado a Vladimir Putin e só depois a Zelensky para desencadear negociações para um acordo de paz. O Chefe de Estado ucraniano afirmou que não tinha sido “agradável” ser preterido para o seu inimigo.

Trump não reagiu bem às críticas por não ter convidado Kiev para o encontro em Riade. “Bem, estiveram aqui durante três anos. Nunca devia ter começado [a guerra]. Podia ter feito um acordo”, atirou, numa conferência de imprensa em Mar-a-Lago. O líder norte-americano já tinha acusado Zelensky de não ter cedido e feito um acordo mais cedo na guerra. Contudo, nunca tinha afirmado tão declaradamente que tinha “começado a guerra”.

"Os insultos que se sucederam entre Trump e Zelensky são muito prejudiciais. Trump precisa de Zelensky. Zelensky precisa de Trump. Este tipo de jogo de insultos mútuos apenas favorece a Rússia numa altura em que a administração Trump deveria estar a fazer tudo para aumentar a influência da Ucrânia, não para a minar."
Charlie Kupchan, membro do Conselho de Segurança Nacional na administração Obama

Zelensky ripostou: “Com todo o respeito pelo Presidente Donald Trump, como líder, está a viver numa bolha de desinformação“. As palavras do norte-americano escalaram com a acusação. Na Truth Social, escreveu que Zelensky é “um comediante com sucesso modesto”, que fez má gestão das ajudas norte-americanas (escreveu ainda, falsamente, que fundos tinham “desaparecido”) e acusou o Presidente de ser um “ditador sem eleições“.

“Os insultos que se sucederam entre Trump e Zelensky são muito prejudiciais. Trump precisa de Zelensky. Zelensky precisa de Trump. Este tipo de jogo de insultos mútuos apenas favorece a Rússia numa altura em que a administração Trump deveria estar a fazer tudo para aumentar a influência da Ucrânia, não para a minar”, avaliou Charlie Kupchan, que ocupou o mesmo cargo de Alexander Vindman, mas na administração Obama.

Kupchan conversava num evento do Council of Foreign Relations com outro membro de antigas administrações norte-americanas, Steve Sestanovich, que acrescentou que o aumento “súbito” da tensão perturba, mais do que a relação direta entre dois Presidentes, a relação de Trump com a Ucrânia — um reflexo da forma como Trump olha para as relações internacionais com um foco desproporcional nas relações pessoais.

"Não se pode desvalorizar a importação das relações pessoais, mas em último caso, a política externa é governada por interesses das nações e não personalidades."
John Bolton, conselheiro de segurança nacional na primeira administração Trump

“Não se pode desvalorizar a importação das relações pessoais, mas em último caso, a política externa é governada por interesses das nações e não personalidades”, avalia John Bolton. Este entendimento vai mais ao encontro do que Zelensky dizia na entrevista à Time: não confiava em nenhuma pessoa, mas fazia o que fosse preciso pelos interesses da Ucrânia.

Apesar de os especialistas fazerem uma análise focada na forma personalizada de o Presidente norte-americano fazer política, membros da administração Trump avançam à CNN que “há método na loucura” e que os insultos a Zelensky têm um objetivo sistémico: assustar a Europa o suficiente para que assumam um papel ainda maior no apoio à Ucrânia.

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