O PS já entrou para a reunião da comissão política nacional a saber que o seu líder mantinha a posição: a moção de confiança do Governo era para chumbar. O próprio Pedro Nuno Santos confirmou-o logo a abrir os trabalhos e, a partir daí, até os socialistas habitualmente mais críticos da direção alinharem pelo inevitável caminho eleitoral. “O PS está unido”, garantiu Pedro Nuno no final. As baterias estão agora apontadas à tentativa de descredibilização da figura de Luís Montenegro, mas com “serenidade” — pede-se.
A diversidade de opiniões do PS sobre a oportunidade de antecipar eleições para maio correu o espaço público nos últimos dias. Mas esta terça-feira, mesmo a ala do partido menos conformada com essa via — como José Luís Carneiro, Álvaro Beleza ou Sérgio Sousa Pinto –, preferiu ir por outro lado, alinhando agora no combate eleitoral que promete ser muito centrado em Montenegro. “Preferiu a turbulência à transparência“, resumiu Carlos Zorrinho do fim da noite. Mas também há socialistas a pedirem “tranquilidade” e “decência” na batalha que aí vem.
Pedro Nuno Santos deu o mote ao começar a reunião com o ataque centrado em Montenegro, a figura “na origem” da crise política, e a dizer que “o caso da gasolineira é sintomático“, segundo ouviu o Observador dos relatos contados da reunião que decorreu à porta fechada. “Chamar aquilo uma empresa é um insulto para a maioria das empresas em Portugal”, terá dito o líder do PS referindo-se à Spinumviva e levantando dúvidas a que alguém pudesse ter pago 230 mil euros “a um advogado sem experiência de gestão”, Luís Montenegro. Na última sexta-feira, o Observador revelou o segundo maior cliente da consultora dos Montenegro, uma empresa que pertence ao pai de João Rodrigues, atual vereador e candidato do PSD à Câmara de Braga, e foi responsável, segundo as declarações de Luís Montenegro no Parlamento, “por metade do volume de negócios de 2022″ — o ano que ficou marcado pelo pico de faturação da empresa da família de Luís Montenegro. A cliente pagou 194 mil euros mais IVA por quase dois anos de trabalho.
Gasolineira de pai de candidato do PSD a Braga pagou mais de 194 mil euros a empresa de Montenegro
Na reunião, Sérgio Sousa Pinto conformou-se com a decisão, ainda que há dias tenha defendido na CNN Portugal que o PSD devia viabilizar a moção de confiança. Agora, quando pediu a palavra na reunião socialista, o deputado defendeu um caminho de elevação do debate no caminho eleitoral que aí vem, para dar “esperança” às pessoas, argumentou. José António Vieira da Silva, uma voz habitualmente mais crítica desta direção, também alinhou com a decisão do líder, de acordo com fontes que estiveram na reunião. O socialista apelou à serenidade e a um combate que não se torne agressivo. O mesmo que Álvaro Beleza, que disse à saída da reunião que o PS vai entrar no “combate pela decência da democracia”, “sem insultos, sem berros” e com “moderação”.
O adversário de Pedro Nuno Santos nas últimas diretas, José Luís Carneiro, foi o primeiro a falar depois do líder, para apoiar o chumbo da moção de confiança. “Não se pode exigir ao PS que se dissolva”, viabilizando a moção de confiança do Governo, disse na reunião, segundo apurou o Observador. Sublinhou a “atitude de responsabilidade” do PS, ao rejeitar moções de censura ou ao viabilizar o Orçamento do Estado para este ano. E apontou o dedo a Montenegro, “pelos atos praticados e pela falta de esclarecimentos”. Ainda defendeu na reunião — tal como tinha feito em declarações à entrada — que o Presidente da República use a “magistratura de influência” para convencer Governo a retirar moção de confiança.
Socialistas dividem-se sobre eleições já, mas sem dúvidas sobre incapacidade de Montenegro
Beleza tinha defendido, em declarações à Rádio Observador, que o PS devia deixar a porta aberta à possibilidade de viabilizar a moção de confiança do Governo, mas no final da reunião alinhou com o líder: “Prefiro um líder que não volta atrás com a sua palavra do que um habilidoso.” O socialista desvalorizou divergências de opinião até aqui, dizendo que no PS “não há carneiro a seguir um chefe”, mas que no final acaba por unir-se.
No final, Carlos Zorrinho falou oficialmente pelo partido garantindo que o PS está “profundamente unido e focado no futuro e nas políticas para os portugueses” e que está pronto para “dar as respostas de que o país precisa”.
Eleições solução única. E um PS que espera o que deu a Montenegro
Nesta reunião ficou ainda claro que o PS rejeita outra via proposta pelo Presidente da República, depois de demitido o Governo, que não seja a da dissolver o Parlamento. O próprio líder disse que outra solução “é inaceitável”, já que Marcelo fechou essa porta quando havia uma maioria absoluta, numa referência ao que se passou em 2023 após a demissão de António Costa: Marcelo não aceitou indicar outra personalidade apontada pelo PS para o lugar do primeiro-ministro.
Com o país à beira de eleições, Luís Montenegro acabou por funcionar como uma cola no PS, com as intervenções durante a reunião que durou cerca de três horas centradas na reprovação da conduta de Montenegro. O primeiro-ministro tinha a acabado de dar uma entrevista televisiva — que Pedro Nuno acompanhou antes de entrar na comissão política nacional — que não mudou uma linha naquilo que já estava definido. É o líder do Governo que tem de estar debaixo de fogo, depois de o PS tudo ter feito pela “estabilidade” — uma posição reforçada nas várias intervenções onde os socialistas foram enumerando episódios: a viabilização do programa do Governo e do Orçamento do Estado, o acordo para a eleição do presidente da Assembleia da República e os chumbos às duas moções de censura.
Aliás, este é o capital com que Pedro Nuno Santos conta para exigir estabilidade ao PSD, caso fique à frente mas eleições. O socialista vai já tentando acautelar uma divisão parlamentar semelhante à que existe hoje e colocou estas eleições como uma oportunidade de “pôr o pé na porta e governar”. Como? Se ficar à frente, o socialista exige ao próximo PSD (seja ele qual for, tendo falado de Montenegro, mas também de Passos ou Moedas) “o mínimo” que diz também ter dado ao longo do último ano.
Perante as eleições cada vez mais certas, o líder do PS quis sobretudo arregimentar o partido para a batalha que aí vem garantindo que a vitória é possível: “Não tememos eleições.” E prometeu um combate “sem dar tréguas”, segundo apurou o Observador sobre a intervenção inicial onde Pedro Nuno Santos apareceu convencido de que nas últimas duas semanas “aumentaram as razões” para chumbar uma moção de confiança. Esta terça-feira à tarde a queda do Governo é já uma certeza.
Pedro Nuno e Montenegro enfrentam-se no primeiro ato das próximas eleições