Duas televisões, duas entrevistas, um intervalo de poucos minutos entre ambas, muitas trocas de acusações, uma certeza: atendendo às posições reforçadas na noite de segunda-feira, o país vai mesmo de novo a votos algures em maio. Pedro Nuno Santos, na SIC, Luís Montenegro, na TVI, arrancaram esta semana para a pré-campanha eleitoral e lançaram as bases de uma luta que, é fácil de antever, será muito dura.
Apesar de tudo, não deixa de ser relevante que os dois tenham sido confrontados com as suas maiores fragilidades: Pedro Nuno Santos, a partir dos estúdios de televisão, foi desafiado a dizer o que fará se perder as próximas eleições legislativas; Luís Montenegro, a partir de São Bento, gozando do estatuto de primeiro-ministro, teve de responder pela ameaça de Pedro Passos Coelho e sobre o risco de ser apeado ainda antes de se apresentar a votos. Prova provada de que esta corrida às urnas apanha os dois, socialista e social-democrata, numa situação política menos favorável do que porventura desejariam.
O primeiro a ter de enfrentar o teste foi Pedro Nuno Santos. Questionado sobre se se mantém líder do PS perante uma derrota, o socialista cortou a eito: disse que só trabalha no “cenário de ganhar as eleições” e está exclusivamente “focado na vitória”. O secretário-geral corrige assim um dos seus conselheiros mais próximos, Francisco César, que admitira abertamente, em entrevista ao Observador, que Pedro Nuno ficaria mesmo se perdesse as segundas eleições legislativas.
Pedro Nuno Santos recusa falar nesse cenário — porque sabe que o enfraquece — e tenta demonstrar que hoje estará em melhores condições de derrotar o líder do PSD do que estava há um ano, explorando as fragilidades da atual situação que o envolve. Em entrevista à SIC, aliás, sugeriu que “Montenegro está pior do que estava há um ano” e que a “confiança” se quebrou “por responsabilidade exclusiva do primeiro-ministro”.
O secretário-geral do PS sabe, e as sondagens sempre apontaram nesse sentido, que a marca “Montenegro” foi sempre superior à marca “AD” ao longo dos últimos 12 meses, pelo que importa atingir em cheio a credibilidade e confiabilidade do primeiro-ministro. Foi também isso que fez ao citar — por duas vezes e de forma provocatória — Francisco Sá Carneiro: “A política sem risco é uma chatice, sem ética é uma vergonha”.
Luís Montenegro, por sua vez, terá consciência de que vai havendo cada vez mais gente no universo social-democrata que desconfia da sua capacidade de revalidar a vitória de 2024. Nos últimos dias, a direção social-democrata foi dando todos os passos para acabar com qualquer centelha de rebelião, desde o comunicado assinado de apoio a Montenegro assinado por todos os líderes distritais do partido, aos avisos pouco discretos, valeu um pouco de tudo para mostrar unidade em torno do presidente do PSD. “Quem tentar abrir uma guerra interna, morre”, dizia há dias um elemento da direção social-democrata ao Observador.
Esta segunda-feira, e já depois de ter dito de viva voz que seria ele o candidato a primeiro-ministro, Luís Montenegro repetiu que seria ele o candidato (“com certeza“) e deixou claro que nada — nem a hipótese de vir a ser constituído arguido neste processo — o impedirá de ser candidato a primeiro-ministro. “Só quero estar à frente do PSD se o PSD quiser. Mas não há ninguém no PSD a levantar a questão da liderança”, cortou o primeiro-ministro. O que Montenegro não pode negar é que há muita gente a suspirar (outra vez) por Pedro Passos Coelho e a pensar nele como alternativa.
A troca de acusações marcará a campanha
Apesar dos pontos menos fortes de ambos, não há já grandes dúvidas de que serão estes dois, que não nutrem grande simpatia política um pelo outro, a medir forças algures a 11 ou a 18 de maio. Estas duas entrevistas, de resto, ficaram marcadas pelo acentuar da troca de acusações entre ambos, com Pedro Nuno Santos a colocar abertamente em causa a natureza da empresa familiar de Luís Montenegro e o tipo de serviços que foram ou não prestados.
De resto, o socialista recuperou a notícia do Observador (“Gasolineira de pai de candidato do PSD a Braga pagou mais de 194 mil euros a empresa de Montenegro“) para lançar ainda mais dúvidas sobre o trabalho que a empresa da família do primeiro-ministro desenvolvia (Montenegro era sócio-gerente da empresa à altura dos factos). “Ainda este fim de semana soubemos do trabalho de reestruturação de uma pequena empresa no valor de mais de 200 mil euros, contratados a um advogado que não tem currículo para reestruturação de empresas. As suspeitas são graves”, apontou Pedro Nuno.
Minutos depois, em entrevista à TVI, Luís Montenegro detalhou (por vezes exaustivamente) os serviços que a empresa foi prestando aos vários clientes — incluindo a esta gasolineira sediada em Braga. Perante a insistência da jornalista Sandra Felgueiras, que o ia confrontando com as suspeitas que recaem sobre o primeiro-ministro e que têm sido levantadas pela oposição, Montenegro chegou mesmo a insurgir-se várias vezes.
“É completamente desprovido o intuito que se tem de se insinuar que estes serviços não foram prestados. E não tem nada que ver com a política. Eu não faço fretes a ninguém. Não faço, não fiz, nem vou fazer fretes a ninguém. Não tirei benefício desta empresa desde que me tornei líder do PSD. Alguém pensa que, como líder do PSD ou agora como primeiro-ministro tenho tempo, cabeça ou disponibilidade para tratar de assuntos das empresas?”, foi repetindo Montenegro.
Olhando para as posições de um e de outro, não só nestas entrevistas com também para o que foi a reação do PS às respostas que Luís Montenegro entregou esta terça-feira no Parlamento, é muito provável que a próxima campanha eleitoral vá vivendo da suspeitas dos socialistas sobre Montenegro e do contra-ataque dirigido pelos sociais-democratas a Pedro Nuno Santos.
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Sacudir a responsabilidade
Posto isto, o que era uma forte possibilidade revelou-se com estas duas entrevistas uma inevitabilidade: nem Luís Montenegro admitiu retirar a moção de confiança ao Governo, nem Pedro Nuno Santos recuou no sentido de voto. O país vai para votos com os dois líderes dos maiores partidos a tentarem impor as respetivas narrativas sobre de quem é a responsabilidade de eleições.
Na linha de argumentação do socialista pesa sobretudo a falta de esclarecimentos que o primeiro-ministro deu até agora. A entrevista de Pedro Nuno Santos foi antes da de Montenegro, mas o socialista, depois de sair dos estúdios da estação de Paço de Arcos, esteve a ouvir o primeiro-ministro na sede do PS. Quando a seguir entrou na reunião da Comissão Política Nacional do partido manteve as acusações de falta de transparência e tentou provar, mais uma vez, que a crise “não tem origem no PS; tem origem no primeiro-ministro”.
Para o socialista, Montenegro avançou para a moção de confiança para evitar a comissão parlamentar de inquérito pedida pelo PS e chamou mesmo à proposta do Governo que vai a votos esta terça-feira “um pedido de demissão cobarde, em que o primeiro-ministro “transporta para a oposição a sua responsabilidade”. A preocupação do PS em não ficar com a culpa nos braços — e o Governo tem estado a trabalhar nesse sentido — é de tal ordem que o socialista chegou mesmo a referir-se à tentativa do Governo em responsabilizar o PS pela crise política como “o mundo ao contrário“.
Numa entrevista que se centrou em alguns detalhes da sua situação no momento, Luís Montenegro acabou por não se alongar sobre argumentos políticos. Mas deixou um aviso aos socialistas: se de facto avançar com uma comissão parlamentar de inquérito, a “oposição vai ter uma surpresa” com o que (não) vai encontrar. Nesta frente, o PSD tem feito o trabalho diário de apontar o dedo ao PS, vitimizando-se para esse efeito. “É muito duro quando se fazem imputações como aquelas que têm recaído sobre mim. Mas não estou aqui para me queixar disso. Quando vim para esta missão já sabia que me ia sujeitar a isto. Não tenho qualquer temor.”
Ao mesmo tempo, Montenegro, tal como explicava aqui o Observador, espera que a corrida às urnas venha a enterrar de vez todo o processo relativo à Spinumviva — e, já agora, Pedro Nuno Santos. A convicção que existe é de que se depois de tudo isto Montenegro voltar a vencer as eleições o caso deixará de interesse e o primeiro-ministro será inocentando de qualquer comportamento menos ético que possa ter tido — o PS tem chamado a este cálculo uma estratégia “trumpista“.
Independentemente disso, nesta entrevista à TVI, Montenegro expôs esse mesmo raciocínio. “Não faz sentido retirar a moção de confiança”, começou por dizer. “Só vale a pena estar aqui com a legitimidade da vontade popular. Fui o único candidato na última campanha que disse olhos nos olhos aos portugueses que só seria primeiro-ministro se vencesse as eleições. E assim será novamente”. A moção de confiança é um meio para atingir esse fim.
O risco de correr mal
Nas entrevistas, os dois foram confrontados com o que farão em caso de derrota — e, em relação a Montenegro, no caso de ser constituído arguido entretanto — mas nenhum quis dar esse sinal de fraqueza. A palavra derrota está afastada do vocabulário que os dois pretendem usar nos próximos dois meses e, por agora, aproveitam a aparente paz interna — nos respetivos partidos não há movimentações e aguarda-se para ler os resultados eleitorais — para pôr já a campanha em marcha.
Luís Montenegro teve de dar garantias nas duas frentes, a partidária e a nacional. No caso interno, com alguns sociais-democratas a suspirar pelo antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, Montenegro deixou claro que só quer “estar à frente do PSD se o PSD quiser“, mas lá foi dizendo, acusando o toque, que “não há ninguém no PSD a levantar a questão da liderança” — uma dica para os que não dão a cara pelas conspirações que se vão fazendo.
Quanto ao país, Montenegro teve de explicar o que fará se for aberto um inquérito — a Procuradoria Geral da República está a avaliar — e disse que isso não o demoverá de continuar na corrida eleitoral. “Tenho a convicção plena de que não cometi nenhum crime. Avanço [como candidato a primeiro-ministro] com certeza. Não violei nenhuma regra.”
Para Pedro Nuno Santos, a garantia não tem de ser dupla, mas nem por isso deixa de ser menos desconfortável: se perder as eleições legislativas, sai da liderança do PS? É a pergunta a que não quer responder e que finta com as habituais garantias de que o único cenário que tem em mente é o da vitória. Assumir outra coisa era sinal de fraqueza e forçaria Pedro Nuno e todo o PS a um sem número de cálculos que querem manter afastados.
Os dois já não se ouvem
Antes da entrevista de Pedro Nuno Santos à SIC, Luís Montenegro enviou as respostas às perguntas colocadas formalmente pelo Bloco de Esquerda e pelo Chega via Parlamento. Era uma forma de o primeiro-ministro tentar destrunfar o adversário e forçar a tese de que já esclareceu o essencial que tinha para esclarecer e que a insistência de Pedro Nuno mais não é do que uma manobra deliberada de atirar o país e o Governo para a lama.
Ora, as respostas não convenceram e continuam sem convencer os socialistas — e demais oposição. “Neste momento já não há resposta escrita ou oral que resolva a suspeita que só é resolvida se tivermos acesso aos documentos que provam que o trabalho foi realizado e o preço pago foi justo”, disse o socialista na entrevista à SIC.
O PS quer ir para a comissão parlamentar de inquérito explorar quem prestou os serviços na Spinumviva, mas também quem beneficiou deles e aproveitou a entrevista para semear mais dúvidas. Pedro Nuno Santos chegou a dizer que “a suspeita que existe” é de que “os serviços não foram prestados ou foram pagos por um preço muito superior aos que são cobrados” normalmente por serviços similares. “Temos um primeiro-ministro que não é livre”, conclui sobre este ponto.
Este posicionamento socialista é aproveitado por Montenegro para alimentar a narrativa de um primeiro-ministro que o PS quer deitar abaixo seja por que motivo for. “Tive ocasião de tentar esclarecer na medida das minhas possibilidades. Compreendo que a oposição coloque questões, mas tenho vindo a perceber que os esclarecimentos nunca são suficientes”, disse na entrevista.
O objetivo que perseguiu ao longo de uma hora de entrevista foi o de garantir que não tirou vantagens da situação empresarial, não enquanto primeiro-ministro. O cumprimento da exclusividade de funções tem sido uma via explorada pelo PS e Montenegro quis garantir que não escondia potenciais “interesses comerciais” e que pediu “escusa sempre que foi necessário pedir escusa”. “Não faço, não fiz, nem vou fazer fretes a ninguém. Não tirei benefício desta empresa desde que me tornei líder do PSD”, assegurou Montenegro. Com um grande grau de certeza, serão os eleitores a decidir quem tem os argumentos mais convincentes.