Nova Iorque, 1986, 3h da manhã. Donald Trump entra numa loja de sandes numa pausa de negociações tardias sobre um negócio imobiliário e apercebe-se que não trouxe dinheiro consigo. Outro homem, envolvido no mesmo negócio, entra na loja para levar comida para o resto da equipa e compra ao magnata uma “sandes de fiambre e queijo suíço”. Quatro décadas mais tarde, na passada quinta-feira, esse mesmo homem foi recebido pelo Presidente russo Vladimir Putin no Kremlin.

O seu nome é Steve Witkoff e o seu cargo é o de enviado de Trump ao Médio Oriente, um posto que não teve de ser aprovado pelo Senado e onde rapidamente acumulou vitórias para o Presidente. De tal forma que as suas competências acabaram alargadas e passou a representar também os Estados Unidos em negociações com a Rússia.

Witkoff cumpre 68 anos este sábado, mas este é apenas o primeiro cargo que ocupa numa administração norte-americana. Antes disso, trabalhava no ramo imobiliário, o mesmo de Donald Trump: a ligação entre os dois vai, portanto, mais longe que uma sandes de queijo e fiambre. Depois desse encontro, os dois homens tornaram-se amigos próximos e Witkoff contribuiu, com trabalho e milhões de dólares para as campanhas do republicano à Casa Branca.

Parceiro do golfe, colega de negócios, financiador da campanha

Witkoff nasceu e cresceu em Nova Iorque e começou a trabalhar como advogado na área do imobiliário. Foi durante uma negociação que se prolongou noite dentro — e em que Trump também estava envolvido — que os dois protagonizaram o “incidente da sandes”. Os seus caminhos só voltaram a cruzar-se anos mais tarde. Trump recordou o episódio e a amizade começou. A descrição de como a relação entre os dois homens começou foi feita por Witkoff durante o julgamento de Trump por fraude em 2023, recorda o The Guardian.

Nos anos 90, Witkoff foi convencido por Trump a deixar a advocacia e a continuar no ramo do imobiliário como empresário e investidor. Em 1997, fundou a sua própria empresa, a Witkoff Group, e consolidou a sua fortuna. Foi nesta altura que começou a viver entre Nova Iorque e a Flórida — outra característica que partilha com o Presidente.

Além disso, os dois homens partilham o gosto pelo golfe e é frequente jogarem juntos. Foi durante um deste jogos que Witkoff testemunhou a segunda tentativa de assassinato contra o então candidato a Presidente. O empresário recordou os eventos numa entrevista à CBS. À data, o canal identificava-o apenas como “parceiro de golfe” e “amigo” de Trump.

Mas a relação entre os dois ia além da esfera pessoal. Para além de doações de milhões de dólares às campanhas eleitorais do republicano, Witkoff colaborou na criação da iniciativa de empréstimo de criptomoeda da família Trump, a World Liberty Financial e emprestou o seu avião privado durante a campanha.

O empresário também discursou a favor de Trump em dois eventos. O primeiro foi na Convenção Nacional Republicana, em que descreveu o apoio do amigo quando o seu filho, Andrew, morreu de overdose em 2011. A segunda vez foi no comício de outubro de 2024, em Madison Square Garden, onde argumentou que Trump era a única pessoa que podia “reparar” Nova Iorque, elenca a Associated Press.

[Terapia de Casal é o podcast que pode acabar com o casamento do Guilherme Fonseca e da Rita da Nova. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Um homem de negócios em encontros com Netanyahu e Putin

Esta não é a primeira vez que Trump “oferece” um cargo a Witkoff. Na sua primeira administração, o amigo e empresário ocupou um cargo na administração do Centro Kennedy para as Artes Performativas. Mas este papel parece insignificante quando comparado com o posto que agora assume.

Witkoff não aceitou imediatamente o cargo de enviado para o Médio Oriente. Teve de ser o genro de Donald Trump, Jared Kushner, a convencer o empresário — Kushner também é empresário imobiliário e representou o Presidente na região durante a sua primeira passagem pela Casa Branca.

O primeiro sucesso de Witkoff surgiu depois de uma reunião “tensa” com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, em que o terá pressionado a assinar o acordo de cessar-fogo para Gaza. Dias depois, a trégua foi anunciada, ainda antes de Trump ter chegado à Casa. O segundo sucesso já não foi no Médio Oriente, mas em Moscovo, quando negociou a libertação do professor norte-americano Marc Fogel, que estava preso na Rússia.

O cargo de enviado para a Rússia e a Ucrânia tinha sido entregue ao general Keith Kellogg, mas, neste momento, o seu papel limita-se às negociações com Kiev e com os aliados europeus. Para falar com o Kremlin, Trump tem enviado Witkoff — uma escolha que não foi justificada oficialmente mas que poderá estar relacionada com o discurso mais moderado de Kellogg.

A escolha de Witkoff para negociar com Vladimir Putin divide os especialistas ouvidos pelo New York Times. Por um lado, o empresário não tem qualquer experiência diplomática, o que pode prejudicar Washington. Por outro lado, a tradicional diplomacia norte-americana não tem resultado na relação com Moscovo e a sua abordagem — mais de homem de negócios e menos de embaixador — pode ser uma vantagem.