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Myanmar situa-se numa zona sísmica muito ativa, mas para um sismo tão violento como o da manhã desta sexta-feira é preciso recuar até 1946, em que se registou também um terramoto de 7,7. O último que causou mais estragos aconteceu em 2012, com magnitude de 6,8. E o maior de que há registos é quase tão antigo como o de Lisboa: teve lugar em 1762 e mudou toda a região.

A culpa é da Falha de Sagaing que se estende ao longo de 1.200 quilómetros atravessando a Birmânia. A Sagaing é na verdade a fronteira tectónica entre a Placa Indiana, a oeste, e a Placa Euroasiática, a leste. A Placa Indiana está a mover-se para norte ao longo da falha em relação à Placa Euroasiática, pelo que a Falha de Sagaing é uma falha transformante, em que as placas deslizam lateralmente uma em relação à outra: a velocidade neste momento será de 11 mm a 18 mm por ano, o que leva à acumulação de stress geológico ao longo do tempo, que se liberta através de sismos. Quanto maior é o movimento (e 18 mm é bastante em geologia), maior pode ser o sismo, como acabou por acontecer esta manhã de sexta-feira.

Como há uma colisão de placas constante, isso provoca uma enorme complexidade geológica na região e aumenta a possibilidade de sismos. A Falha de Sagaing é a maior, resultante desta colisão de placas, mas há muitas outras, mais pequenas.

Sismo de magnitude 7,7 na escala de Richter atinge Myanmar e Tailândia. Há registo de dezenas de mortos e feridos

O sismo da manhã desta sexta sentiu-se quer na Tailândia quer na China porque a rutura na falha, além de ter sido bastante à superfície (10 quilómetros), ter-se-á propagado na direção destes países. Tratando-se de terras pantanosas, a propagação é muito mais fácil.

Já se registaram vários outros sismos na região devido a este deslizamento lateral de placas: desde 1900, seis deles tiveram magnitudes iguais ou superiores a 7.

À Rádio Observador, o sismólogo João Duarte, professor do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), explicou que “as próximas horas são perigosas.” Refere que o primeiro sismo teve um epicentro a pouca profundidade — dez quilómetros — e uma magnitude muito elevada, na ordem 7,7 na escala de Richter. Diz ainda que a este abalo se seguiu um segundo, de magnitude 6,4. “Neste caso não falamos numa réplica, falamos de dois sismos seguidos. Normalmente, as replicas são mais baixas e vão descende de grau”, aponta.

O número de vítimas ainda não é conhecido, mas o sismólogo refere que deverá ser bastante significativo. “As agências internacionais inicialmente estimaram entre mil e dez mil e neste momento já está na ordem dos dez mil a 100 mil”.

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Em 12 de setembro de 1946, a região de Sagaing foi abalada igualmente por dois sismos de grande magnitude num intervalo de apenas três minutos e quase à mesma hora dos desta sexta-feira. O primeiro ocorreu às 15h17, com uma magnitude de 7,3, seguido por um segundo abalo às 15h20, com a mesma magnitude do deste dia 28: 7,7. Ambos os sismos tiveram uma profundidade de aproximadamente 15 km (estamos agora perante 10 km).

Embora estes sismos estejam entre os mais fortes registados em Myanmar desde o terramoto de Arakan em 1762 , os registos históricos não fornecem informações detalhadas sobre o número de vítimas ou a extensão dos danos causados. A escassez de dados deve-se, em parte, à limitada capacidade de monitorização e comunicação da época.

Mais recentemente, a 11 de novembro de 2012, um sismo de magnitude 6,8 atingiu o centro de Myanmar, com epicentro próximo da cidade de Shwebo, cerca de 120 km a norte de Mandalay. O abalo ocorreu às 7h42, hora local, a uma profundidade de aproximadamente 10 km, sendo sentido em várias regiões e, tal como agora, também em países vizinhos como a Tailândia. ​Registaram-se 12 mortos e dezenas de feridos. ​Uma ponte em construção sobre o rio Irrawaddy, perto de Shwebo, colapsou. Além disso, edifícios, incluindo mosteiros e pagodes, sofreram danos significativos nas áreas próximas ao epicentro

O maior sismo na região, e essencial para compreender toda a sismologia local, é o de 1762. Aconteceu quase há 263 anos (quase o mesmo tempo do grande sismo de Lisboa), por volta das 17h00, com epicentro ao longo da costa entre Chittagong (atualmente no Bangladesh) e Arakan (atualmente no Myanmar). Teve uma magnitude estimada entre 8,5 e 8,8 na escala de magnitude e uma intensidade máxima estimada de XI (extrema) na escala de Mercalli. O abalo desencadeou um tsunami local no Golfo de Bengala, a ilha de São Martinho foi elevada entre 2 e 2,5 metros, o curso do rio Brahmaputra, mudou-se para 150 km a oeste de onde antes passava e nasceram novas elevações no terreno, com fissuras e vulcões.

Em Chittagong, segundo os relatos históricos, nenhum edifício ou muro escapou à destruição ou a danos graves. A famosa fábrica da Companhia das Índias Orientais, sofreu danos tão severos que deixou de poder funcionar. Uma área de aproximadamente 160 km² afundou permanentemente sob o mar ao longo da costa. Em Bar Chara, o terreno afundou, matando 200 pessoas.

A compreensão do sismo de 1762 é crucial para avaliar os riscos sísmicos atuais na região, dada a sua localização numa zona de elevada atividade tectónica e a possibilidade de ocorrência de eventos semelhantes no futuro.