A Agência Nacional do Crime britânica descreve-a como uma ameaça “sem precedentes”. Uma rede online de gangues “sádicos e violentos” conhecida como “Com” — abreviatura de Community, em inglês — está a preocupar as autoridades, avisou na terça-feira este organismo que lidera a luta no Reino Unido contra a criminalidade grave e organizada.
“Estas comunidades ou fóruns”, formadas na sua maioria por rapazes, têm como alvo raparigas e não só “colaboram, como competem para causar danos num amplo espetro de criminalidade — tanto online quanto offline — incluindo cibernética, fraude, extremismo, violência grave e abuso sexual infantil”, avisou a NCA (do inglês National Crime Agency) no seu relatório anual.
Os membros, continua a agência, “usam ‘coerção extrema’ para manipular as vítimas, que muitas vezes são crianças e incluem raparigas de apenas 11 anos, levando-as à automutilação ou a abusar de si mesmas, dos seus irmãos ou animais de estimação”, frisa a NCA.
O cenário agrava-se ainda com o facto de estas “redes Com” estarem a crescer: aumentaram seis vezes entre 2022 e 2024, com milhares de utilizadores e vítimas, denunciou a agência.
“A última coisa foi pedir fotografias nua”
Jo (de nome fictício) contou à SkyNews — que teve acesso exclusivo às investigações da NCA sobre a rede, incluindo provas visuais de conversas online —, que a filha foi pressionada pelo grupo a enviar vídeos em que se estava a automutilar. Tudo começou quando Jo se apercebeu que a filha Mary (nome fictício) não dormia, isolava-se dos amigos, perdeu peso e o corpo estava cheio de cicatrizes. Quando foi questionada sobre o porquê de passar tanto tempo em frente aos ecrãs, Mary dizia que estava a ver vídeos no YouTube. Na realidade, estava a comunicar com membros da “Com”.
Jo relatou que quando retirava os dispositivos eletrónicos a Mary, ela ficava “angustiada e ameaçava suicidar-se”. Perante este discurso, Jo acabava por ceder e entregava-os novamente à filha.
Depois de descobrir a verdade, a mãe de Mary quis alertar todos os pais para os riscos da organização. “O Com ataca crianças vulneráveis que são fáceis de manipular. Começa a ameaçá-las e a exigir conteúdo mais extremo”, afirma Jo, que acrescenta que a filha tinha de estar 24 horas em contacto com a rede para não sofrer represálias.
O caso está agora a ser investigado pela polícia, mas Jo ainda ainda não está sossegada. O melhor conselho que dá aos pais é atrasar e controlar o máximo possível o acesso dos filhos à internet.
A estação televisiva recolheu ainda o testemunho de uma outra mãe, com o nome fictício de Sally. No início, a filha não se auto-mutilou mas gradualmente as mensagens pioraram e chegaram a pedir-lhe fotografias dela nua. Sally confessou que a filha, de 12 anos, ainda “está a sofrer algum nível de trauma e muita vergonha”.
[Já saiu o segundo episódio de “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio]
Community, o grupo que partilha “conteúdo sádico, niilista ou misógino”
A “Com” não tem um líder ao comando, explica James Babbage, diretor da NCA à Sky News, descrevendo-a como “uma série de redes diferentes sobrepostas” de adolescentes do sexo masculino que partilham “conteúdo sádico, niilista ou misógino” e não têm vida social offline.
Nos últimos dois anos, os relatos de crimes relacionados com a “Com” aumentaram e a agência está agora a convocar pais, professores e profissionais médicos para ajudar a combater estes crimes. “Estamos num mundo em rápida mudança, mas podemos ter conversas com as crianças sobre a forma como elas vivem o mundo online“, sublinhou Babbage no comunicado difundido pela NCA..
A rede é internacional, mas tem membros baseados no Reino Unido. Um deles é Cameron Finnigan, de 19 anos, detido em janeiro pelo seu envolvimento no que a polícia descreveu como “uma rede de terror satanista” que visava crianças para chantagem sexual. Numa busca à sua casa em março do ano passado a polícia encontrou suásticas, símbolos satânicos e facas, bem como material de abuso infantil extremo e um guia sobre como levar a cabo um ataque terrorista com vítimas em massa. Finnigan foi condenado a seis anos de prisão por auxílio ao suicídio, posse de um “manual de terror” e de fotografias indecorosas de crianças.
Na terça-feira, a NCA identificou Finnigan como fazendo parte de uma tendência “profundamente preocupante” de jovens que participam nestes grupos.
No mês passado, Richard Ehiemere “foi condenado por fraude e por imagens indecentes de crianças, crimes cometidos quando tinha apenas 17 anos e ligados a um prolífico grupo de crimes online”.
Estes grupos “não estão à espreita na dark web, existem no mesmo mundo online e nas mesmas plataformas que os jovens utilizam diariamente”, avisou Graeme Bigger, diretor-geral da NCA, no comunicado, aconselhando os pais e os encarregados de educação a falarem com os seus filhos sobre o que estão a fazer online.
James Babbage, diretor-geral da secção de Ameacas da NCA, compara as redes “Com” como “o equivalente online a um gang urbano de rua que comete crimes para ganhar dinheiro, causar medo e fazer mal aos outros e ganhar fama”.
As provas recolhidas “sugerem que os criminosos são motivados pela conquista de notoriedade e estatuto, que podem ser alcançados com base nas agressões e danos que infligem e na depravação dos conteúdos que partilham”, adianta a NCA.
“A gratificação sexual também pode ser um fator de motivação e, em alguns casos, os criminosos encontram oportunidades de lucrar com os seus atos diretamente ou através da venda de material a terceiros”, explica a agência.
Uma das investigadoras de crimes cibernéticos que está envolvida neste caso, de nome fictício Keeley, confessou à Sky News que o pior “é ler os chats: conseguimos imaginar o que está a acontecer”.
Os grupos atuam principalmente no Telegram. A estação televisiva descobriu um utilizador que era membro de 14 grupos abertos da “Com” nesta plataforma. Dez desses grupos foram apagados ou desativados pelos moderadores da aplicação, uma vez que os tópicos discutidos centravam-se na automutilação, abuso de animais e violência. Um desses membros até publicou uma imagem de um rato crucificado ao lado do nome do grupo escrito com o sangue do animal.
A empresa disse, na altura, que “removeu todos os grupos e canais vinculados ao ‘Com’ quando foram descobertos, em fevereiro de 2024”, diz a Sky News. O Telegram acrescentou que “controlou a aplicação ao longo do último ano para garantir que as comunidades vinculadas ao ‘Com’ não pudessem ressurgir — o que resultou na remoção de centenas de grupos”.
No Discord, outro exemplo, um grupo ligado ao “Com” chegou a ter mais de dois mil membros que se incentivavam a enviar fotografias íntimas e se envolviam em atividades sexuais.