O vice-Presidente norte-americano, JD Vance, visitou esta sexta-feira a Base Espacial de Pituffik, na Gronelândia, acompanhado da mulher e de uma comitiva de altos funcionários norte-americanos. O plano inicial da viagem previa uma visita de Usha Vance a vários pontos culturais da ilha, mas face à reação fria dos gronelandeses e dos dinamarqueses, os norte-americanos não saíram da base, a mais a norte do Departamento de Defesa.
O casal Vance contou com a companhia do conselheiro de Segurança Nacional, Michael Waltz, o secretário da Energia, Chris Wright, e o senador republicano, Mike Lee. Os cinco visitantes de Washington almoçaram com os militares no refeitório da base, estiveram reunidos com alguns oficiais e depois os quatro homens discursaram.
Nas suas breves intervenções Waltz, Wright e Lee deixaram agradecimentos aos militares, fizeram referências ao frio e à importância do Ártico. Mas o objetivo geopolítico da visita transpareceu mais no discurso do vice-Presidente. Depois de também ele ter deixado um longo agradecimento, foi direto ao assunto: por que importa a Gronelândia. Vance reiterou as declarações de Waltz sobre as rotas de comércio, a energia, a monitorização espacial e militar que marcam a região e acrescentou: “Acho que as pessoas não percebiam a importância do Ártico antes de Trump falar sobre ele”.
O discurso virou depois para as críticas à Dinamarca, reino do qual a Gronelândia faz parte. “A Dinamarca não fez um bom trabalho a manter a Gronelândia segura. Não há quantidade de bullying e confusão que [alterem] a nossa mensagem muito simples: não investiram o suficiente nas pessoas da Gronelândia e na arquitetura de segurança desta terra linda“, acusou.
Primeira Ministra dinamarquesa considera visita dos EUA à Gronelândia como pressão inaceitável
As críticas de “bullying” surgem depois de Copenhaga ter classificado a visita sem convite dos norte-americanos como um “desrespeito” e uma “pressão inaceitável”. Vance continuou, declarando: “Respeitamos a autodeterminação dos gronelandeses. A nossa discussão é com a liderança da Dinamarca”. Questionado pelos jornalistas sobre as declarações em que o Presidente Trump contemplou a utilização da força para ocupar a Gronelândia, Vance recusou incoerência por parte da administração.
“Quando o Presidente diz ‘temos de ter a Gronelândia’, ele quer dizer que esta ilha não está a salvo. Os EUA querem saber da segurança da ilha e das pessoas da ilha”, justificou. “Esperamos que [os gronelandeses] escolham a parceria com os EUA, porque somos o único país do mundo que respeita a sua autodeterminação e a sua segurança”, rematou. Recusou ainda acusações de que Washington esteja a aproveitar-se dos recursos económicos da ilha, retorquindo que essa é a “mentalidade” dos “outros países”.
Com Michael Waltz ao seu lado, Vance respondeu ainda a questões sobre política nacional e o Signalgate e reiterou a posição que Trump apresentou: a de que ninguém vai ser despedido por um jornalista ter sido adicionado a um grupo em que se discutiram planos de ataque aos houthis no Iémen.
Apesar de Vance ter focado o seu discurso na ideia de que a Gronelândia estaria melhor se se afastasse da Dinamarca para se aproximar dos EUA, mais a sul, na capital Nuuk, os gronelandeses alinharam com a leitura crítica do governo de Copenhaga. Isso ficou visível no facto de as autoridades não terem recebido a comitiva norte-americana.
Gronelândia forma governo de coligação alargada sem ultranacionalistas
Também esta sexta-feira, um governo de coligação alargada tomou posse e o novo primeiro-ministro, Jens-Frederik Nielsen, apelou à “união” e prometeu “fazer frente às fortes pressões externas”. Os gronelandeses fizeram-se ouvir ainda antes de os Vance terem aterrado na ilha. O plano inicial para a visita de Usha Vance incluía uma visita a Nuuk e a vários pontos de interesse da capital e a participação numa tradicional corrida de trenós puxados por cães.
O plano teve de ser alterado — para um em que não saíram da base espacial –, pois os gronelandeses planearam protestos contra a segunda dama dos EUA e chegaram mesmo a negar ter enviado qualquer convite a Usha Vance para participar nas atividades culturais da ilha, declarações contrariadas pela sua porta-voz.
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