O número de grupos de extrema-direta está a aumentar na Suécia e o recrutamento de novos membros online é feito em crianças a partir dos 10 anos. Numa realidade em rápida evolução, pequenos grupos extremistas têm surgido com uma forte presença em plataformas digitais, aliciando jovens membros em redes sociais como o Tik Tok, antes de passarem a outras para grupos de conversa privada. Numa notícia do The Guardian, o sociólogo sueco Lars Stiernelöf que tem monitorizado fenómenos de violência e extremismo no país alerta para os perigos do envolvimento dos jovens: “É uma mensagem violenta e pode ser um caso muito sério se eles forem atraídos para ela”.
O número de grupos de extrema-direita ativos na Suécia é atualmente o maior desde 2008, de acordo com um relatório do Instituto Sueco anti-racismo (Expo). Contrariando uma recente tendência decrescente, registou-se, no ano de 2024l um aumento de grupos que está a “atrair a nova geração de homens que perdeu fé na democracia”. Nestes coletivos, a violência faz parte da lógica “tanto ao nível retórico como em atos de violência física”.
Manifestações dessa retórica têm-se feito notar entre os mais pequenos, segundo Stiernelöf. O sociólogo, que trabalha em projetos para contrariar ameaças de extremismo violento, assinala que têm sido relatados vários casos de jovens rapazes que fazem saudações nazis em escolas. Ainda que o comportamento não seja adotado por uma quantidade grande de crianças, Stiernelöf vê razões para lhe dar atenção.
“Eles não o fazem como uma homenagem a Hitler. Eles fazem-no porque Musk o fez”, diz Lars Stiernelof, sociólogo que trabalha para contrariar ameaças de extremismo violento. O movimento do CEO da Tesla, realizado a seguir à eleição de Trump motivando muito debate sobre se seria realmente uma saudação nazi, é visto por alguns rapazes como “bastante fixe”, conta.
A renovação da extrema-direita na Suécia estimulada por Trump
No parlamento nacional, os Democratas Suecos de extrema-direita ficaram em segundo lugar nas últimas legislativas em 2022, fazendo campanha com uma retórica de culpar os imigrantes pelo aumento da criminalidade na imigração e expressando simpatia à teoria da grande substituição racial.
Contrariamente à evolução do panorama nacional, o maior grupo neo-nazi na Suécia, o Movimento da Resistência Nórdica (NMR, na sigla sueca), tem vindo ultimamente a perder seguidores. No ano passado, entrou para a lista de grupos terrorista dos EUA, sendo banido do sistema financeiro norte-americano e ficando com os bens que tinha no país congelados. Com problemas ao nível da liderança, o NMR tem tido dificuldade em recrutar novos membros jovens e tem visto o conjunto dos seus apoiantes a envelhecer.
No entanto, na sua sombra, cria-se espaço para o aparecimento de vários novos pequenos grupos que têm surgido com uma forte presença em plataformas digitais. Estes movimentos nascidos no digital são compostos por “homens jovens brancos que falam muito sobre o ‘genocídio branco’, ‘white lives matter’, identificando ameaças ao poder dos homens brancos”, segundo Stiernelöf. Só que não se ficam pelo digital e há relatos de grupos que organizam ações presenciais, nomeadamente realizando treinos físicos para prepararem uma guerra racial que pensam estar próxima.
Trump é a principal razão para os grupos de extrema-direita se “sentirem mais próximos da normalidade agora”, defende Jonathan Leman, investigador do Instituto Sueco Anti-racismo (Expo). “A anterior administração norte-americana via o movimento mundial de extremismo de extrema-direita como uma ameaça”. Por outro lado, a administração republicana “mostrou apoio pela ideologia essencial da extrema-direita”, defende. Um sinal disso é que o NMR já demonstrou publicamente que espera que os EUA retirem o seu nome da lista de grupos terroristas.
No mais recente relatório anual da segurança interna da Suécia (Säpo), regista-se que os grupos terroristas utilizam plataformas digitais e infiltram-se em comunidades de videojogos para recrutar jovens rapazes. “O serviço de segurança menciona casos que envolvem crianças que ainda não chegaram à adolescência”, assinalando que estas crianças são “frequentemente atraídas pela violência como uma ideologia”.
“Para além do problema online, os grupos ativos no panorama do extremismo de direita também são um problema crescente na Europa que atrai principalmente jovens”, concluiu o relatório. O perigo reside em grande medida na normalização de comportamentos que se tornam menos marginais: “Maior polarização na Suécia pode significar maior aceitação de ameaças, ódio e violência, criando um ninho para o extremismo violento”.
O jornal Observer falou com um jovem que tinha abandonado recentemente com um destes movimentos, após se ter envolvido inicialmente quando tinha 13 anos. Terá sido atraído por um sentimento de “comunidade próxima” que achava “porreiro”. Agora, faz um diagnóstico de como as coisas têm evoluído recentemente. “Atualmente, o movimento é muito fluído, não assim tão aberto, mas com muita propaganda online para outros. É muito organizado, muito coeso e unido. Porém, quem está de fora não percebe o que se passa lá dentro, como se reage e quem são os protagonistas.