“31 de março de 2025 é um dia fatídico para a nossa democracia e o nosso país”. A declaração foi feita por Marine Le Pen esta segunda-feira à noite, horas depois de ter sido condenada por desvio de fundos europeus e condenada a quatro anos de pena de prisão e uma proibição de se candidatar a cargos públicos durante cinco anos. A inelegibilidade significa que a líder da União Nacional (UN, Rassemblement National em francês) não se poderá candidatar às eleições presidenciais de 2027, mas Le Pen recusou “de forma alguma” abandonar a vida política ativa.

A reação à sentença foi feita na primeira pessoa numa entrevista no telejornal do canal TF1, em que Marine Le Pen seguiu um plano: insistir na inocência e mostrar-se como uma vítima de perseguição política. O guião ficou claro desde a primeira resposta, depois de ter sido questionada por que motivo abandonou a sala de audiência ainda antes de a leitura da sentença ter chegado ao fim.

“Porque compreendi logo perfeitamente: foi uma decisão política”, respondeu. “A magistrada assumiu muito claramente que estava a aplicar a execução provisória de inelegibilidade para me impedir de candidatar às eleições presidenciais“, elaborou, acusando ainda a juíza de ter violado o Estado de Direito e o princípio da presunção de inocência. Mais à frente na entrevista declarou que esta “perceção” — de que se tratava de um caso político — a acompanhou “desde as primeiras horas do processo”.

A “guilhotina judicial” decapitou Marine Le Pen. E agora?

Confrontada com o facto de a aplicação deste instrumento jurídico da execução provisória ser apoiado pela UN, Marine Le Pen foi perentória: “Não se aplica neste caso“. A deputada de extrema-direita argumentou ainda que o coletivo de juízes, liderado por Bénédicte de Perthuis, aplicou o espírito da lei de forma pesada, além de incorreta.

“Milhões de franceses estão indignados com o facto de ter sido aplicada uma prática reservada aos regimes autoritários“, declarou. Esta não foi a única referência ao povo francês e à vasta base eleitoral da UN. “Milhões de franceses vão ser privados, por um tribunal de primeira instância sem recurso possível, da candidata que era dada como favorita da eleição presidencial. Isso devia escandalizar todos os que prezam a democracia e o Estado de Direito!”, argumentou logo a seguir.

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Com Marine Le Pen a pôr todo o ênfase na aplicação da execução provisória, surgiu a questão sobre se também ia recorrer do veredito de culpa. Resposta afirmativa. “Sou inocente, somos todos inocentes! Se existe na nossa lei a hipótese de recurso é porque um juiz de primeira instância se pode enganar”, justificou.

A questão seguinte encontrou a líder da UN num equilíbrio delicado: como pode ter tanta confiança na ilibação numa instância superior, mas assumir que não será candidata presidencial? Le Pen destacou os tempos de espera da justiça francesa, apontando que “daqui a dois anos, será demasiado tarde“, mas recusou que as suas críticas sejam uma admissão de derrota e repetiu as palavras que o seu advogado já tinha deixado durante a tarde: é “combativa” e vai procurar aproveitar ao máximo “o estreito caminho legal” que ainda lhe permite ser candidata.

Cinco perguntas e respostas sobre a condenação de Marine Le Pen e a candidatura à presidência

O espírito “combativo” fez com que Marine Le Pen não tenha atirado — pelo menos para já — Jordan Bardella para a corrida presidencial. Classificou o presidente da UN como um jovem “formidável” e com capacidades para chegar a Presidente mas também considerou que é “demasiado cedo” para assumir esse plano.

Ainda de olhos postos no futuro, a deputada recusou ser primeira-ministra, em alternativa a Presidente. E deu duas justificações para essa preferência: “Não estou nesse estado de espírito” e “Não me quero submeter”.

A conversa ainda voltou ao tema da sua inocência no caso dos desvios de fundos europeus, que Le Pen classificou como “um desacordo administrativo” entre o Parlamento Europeu e os deputados eleitos. O Le Monde destaca, contudo, que as regulamentação europeias são bastante claras neste aspeto e que outros arguidos do caso chegaram mesmo a trocar mensagens levantando obstáculos à aplicação deste “sistema”, como classificaram.

A entrevista manteve o tom do que os membros da UN tiveram ao longo desta segunda-feira: Marine Le Pen é vítima de uma perseguição política, que procura impedi-la de ser a próxima Presidente francesa. Mas a líder da extrema-direita deixou claro que vai procurar combater a condenação. Foi com essa mesma promessa que rematou a entrevista: “Vim aqui dizer-vos: não se preocupem, não estou desmoralizada, estou escandalizada, indignada como vocês, mas essa indignação e esses sentimentos de injustiça são um motor suplementar ao combate que eu faço por vocês“.