Quem os tinha visto há um ano, apostados em deixar portas escancaradas para futuros entendimentos, não os reconheceu esta noite. O debate entre Pedro Nuno Santos e Mariana Mortágua foi um duelo pelo domínio da esquerda e, ao mesmo tempo, um claro flirt do socialista com o centro-esquerda — mesmo que tudo isso possa custar (por agora e nas aparências) um corte entre velhos parceiros.

A última frase que Pedro Nuno Santos deixou no debate fez a síntese da estratégia: “Sem Governo do PS, não há política de esquerda”. Para governar o socialista diz saber que terá de ficar à frente da AD (não há maioria à esquerda para contrapor à direita) e, por isso, não teve pudor no apelo ao voto útil da esquerda, avisando que foi a “dispersão” de há um ano pôs a AD no poder e afastando o BE de “responsabilidades governativas”. Já Mariana Mortágua acusou-o de estar “à espera de governar com a viabilização de Montenegro, com um programa sem nenhuma medida diferente da que foi tentada até agora.”

Mas antes de chegar aos apelos finais ao voto da esquerda, o líder do PS já tinha passado boa parte do debate a fazer a mancha ao centro — onde se decidem eleições — aproveitando o contraponto com a líder do BE para vincar moderação. Chegou mesmo a apelidar de “ideia romântica” a do mundo sem armas, advogada por Mortágua, quando se falou no reforço do investimento na defesa na UE. E jurou que um Governo do PS não ficará à margem “do esforço europeu” para esse aumento, desde que ele não ponha em causa o estado social. Já Mortágua criticou essa linha.

Na habitação, nomeadamente na questão das rendas, novo afastamento (e nova tentativa de moderação do socialista). Enquanto Mariana Mortágua dizia que “só baixamos os preços da habitação controlando as rendas”, Pedro Nuno recusava “tabelar rendas” (diz que isso pode retirar casas do mercado de arrendamento) e preferia apostar na oferta pública de habitação, em apoios às rendas e no Porta 65. Aqui Mortágua acusou-o mesmo de abandonar a esquerda, por preferir “pôr todos os contribuintes a pagar subsídios às rendas a preços especulativos” e por dizer que “os princípios de esquerda são impossíveis”.

A dança repetiu-se na imigração, com Mortágua a defender a manifestação de interesses para quem entra em Portugal e a acusar o PS de estar “a abdicar desse princípio”. Garantiu que ao acabar com este mecanismo haverá intermediários e angariadores privados, assim como máfias, que trarão trabalhadores — “é o pior que podemos fazer do ponto de vista dos princípios”. Já o socialista, chegava-se novamente ao centro, assumindo até que esse era solo onde poderiam ser “construídas pontes” com a AD.

A manifestação de interesses é passado para o PS que hoje o considera “um mecanismo desajustado”. Neste ponto, Pedro Nuno atacou o Governo mas por estar com um “discurso sectário numa matéria onde é possível construir pontes”. “O PS defende a imigração regulada”, disse, assumindo que está mais próximo da AD nesta matéria.

Na geringonça foi clara a proximidade entre os dois líderes de esquerda, quando Pedro Nuno foi o pivot, entre 2015 e 20019 como ministro dos Assuntos Parlamentares, da estrutura onde António Costa apoiava o seu Governo. Há um ano era um caminho que ambos assumiam querer repetir. Mas agora, a tática eleitoral deixou essa relação suspensa. Mariana e Pedro Nuno só se encontraram na defesa da aposta na industrialização do país para fazer face à guerra das tarifas dos EUA. Mesmo assim só Mortágua não se coibiu de marcar essa proximidade: “Ambos temos mais a dizer sobre isto do que Luís Montenegro disse até agora”. Pedro Nuno Santos estava mais empenhado na disputa de eleitorado com o líder da AD.

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Diálogo revelador

Pedro Nuno Santos (PNS) — Só haverá alternativa à AD se o PS vencer estas eleições. Já no ano passado o Presidente da República convidou o partido mais votado. Por isso, precisamos de vencer e quero pedir ao povo português e aos eleitores que votam à esquerda para não desperdiçarem votos, porque hoje podíamos ter um Governo do PS e não ter a AD a governar se não tivesse havido a dispersão de votos que tivemos há um ano. O PS perdeu por apenas 50 mil votos, o BE teve 280 mil votos, e é muito importante que a dispersão não aconteça. Quero pedir o voto no PS para que possamos construir o futuro a partir de já.

Mariana Mortágua (MM) — Pedro Nuno Santos acabou de fazer um apelo para ficar à frente do PSD. Sabemos que o primeiro lugar não determina nada. Tivemos maioria absoluta e o Governo acabou, há um ano.

PNS — Peço desculpa, não me leves a mal com este parênteses, mas é importante e depois respondes logo…

MM — Eu respondo logo, mas não aceito interrupções. O PSD ficou à frente e isso não impediu instabilidade. O que Pedro Nuno Santos está a dizer quando espera uma viabilização do PSD é que tem uma bala de prata, que é Luís Montenegro. Está à espera de governar com o apoio, ou pelo menos a viabilização de Luís Montenegro; está à espera de governar para resolver a crise da Habitação com um programa sem nenhuma medida diferente; e está à espera que Montenegro, que diz todos os dias que não é confiável, lhe dê confiança. A estabilidade faz-se dizendo a verdade: só baixamos preços da Habitação com tectos nas rendas e são os deputados do BE que conseguem fazer isso. (…) Há sempre [disponibilidade para acordos].

PNS — Quem formou Governo foi a AD, apesar de a esquerda ter mais votos do que a AD. É por isso que não podemos correr o risco desta vez. O BE consegue mais facilmente influenciar um governo do PS do que da AD. Sem o PS não há cá políticas de esquerda.

MM — Quem fica à frente não resolve.

PNS — Foi assim há um ano. A esquerda teve mais votos do que a AD. Não podemos correr esse risco.