De uma certeza — “ninguém pode dar a garantia de que não há défice” — a uma garantia assertiva e contraditória: “Não vai haver défice, isso é claríssimo“. Foi assim, num espaço temporal de poucos minutos e com sinais mudos dados pelo primeiro-ministro pelo meio, que mudou e foi corrigida a reação do ministro da Economia, Pedro Reis, à projeção do Conselho de Finanças Públicas, que prevê que no próximo ano se registe um défice de 1% em Portugal.

O episódio confuso aconteceu na sala da lareira, em São Bento, onde o Governo costuma fazer as mais importantes declarações ao país e onde Luís Montenegro e Pedro Reis reagiram à crise das tarifas aberta pelos Estados Unidos. Mas depois de anunciar o pacote de 10 mil milhões de ajuda à economia e a antecipação da meta de 2% em investimento no PIB, Luís Montenegro deixou o microfone para o ministro da Economia e foi só este que respondeu a perguntas — incluindo as que os jornalistas queriam dirigir ao primeiro-ministro.

Foi também Pedro Reis que foi apanhado à frente do microfone quando os jornalistas começaram a perguntar pelas previsões do Conselho de Finanças Públicas, que prevê, menos otimista do que o Governo, que este ano o saldo das contas públicas seja neutro e que entre 2026 e 2029 seja sempre negativo, na ordem dos 0,6%.

E foi neste momento que Pedro Reis começou a dar uma série de respostas diferentes, que culminaram na garantia de que afinal não haverá défice nenhum em 2026 — tudo depois de ter parecido receber uma série de sinais de Luís Montenegro, que estava sentado na sala ao lado do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, e que tentou comunicar com o seu ministro, mostrando-lhe inclusivamente um papel antes de este corrigir as suas respostas. Pelos 43:10 minutos no vídeo da conferência de imprensa é possível ver o momento em que Pedro Reis começa a estar atento aos sinais que Montenegro lhe parece dar e, nessa sequência, vai tomando notas enquanto responde aos jornalistas.

A primeira reação do responsável pela Economia não inclui resposta direta ao número avançado pelo CFP: Pedro Reis focou-se nas qualidades do programa de apoio à economia, sublinhando que este vai “blindar a sustentabilidade e proteger o crescimento” e que só ficaria preocupado se Portugal não tivesse capacidade para “apresentar um programa desta magnitude e mitigar as ameaças”.

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Com um jornalista a insistir na pergunta, Pedro Reis atirou mesmo que “ninguém pode dar a garantia de que não há défice”, mas assegurou que o Governo “tudo faz” para evitar que este exista. Frisando que estava a ser “completamente realista”, o ministro analisou o contexto atual e as decisões dos Estados Unidos, lembrando que o protecionismo prejudica o investimento e que a evolução da economia se alimenta de previsibilidade. E voltou a insistir que estaria muito mais preocupado se não existisse um programa de apoio como o que foi anunciado, e que este servirá quer haja aumento das tarifas — é uma “rede de segurança” — ou quer a suspensão se mantenha — porque dará “novas asas” à economia.

Seguiram-se perguntas dos jornalistas que já não tinham a ver com o assunto, e que se focavam na meta de 2% do PIB em Defesa ou nos ataques políticos subliminares que Luís Montenegro deixou contra Pedro Nuno Santos. Foi o próprio ministro, já depois de ter comunicado discretamente com o primeiro-ministro, que fez questão de se corrigir, dizendo por sua iniciativa que “fecharia” as respostas com nova conclusão: “Não vai haver défice em Portugal, isso é claríssimo”.

“Poder afirmar que não vai haver défice numa fase de volatilidade mundial, de instabilidade, quer dizer que algum trabalho de casa terá sido feito para segurar a nossa economia”, disparou, afinal, frisando que a economia portuguesa está cada vez mais internacionalizada e que em Portugal — “isto é claro”, repetiu — “não está em causa o défice, mas o quanto conseguimos mitigar para crescer mais ou um pouco menos”. Acabada a conferência de imprensa, o Governo garantia, afinal, que a dúvida não é se haverá défice ou não — apenas qual o grau de crescimento que poderá registar-se em 2026.