“Sem preconceitos, sem receios e sem fantasmas”. É desta forma que o antigo ministro Miguel Relvas espera que o PSD assuma as rédeas da governação após as eleições legislativas antecipadas de 18 de maio, com ou sem vitória eleitoral e face a uma anunciada maioria de direita prevista por todas as sondagens realizadas até ao momento.
“Nós precisamos de governabilidade. E a governabilidade deve ser dita com transparência aos portugueses. E o PSD tem de saber que não governa à direita neste momento sem o apoio da IL e sem o apoio parlamentar do Chega. Defendo um acordo de incidência parlamentar. É isso que tem de ser feito e tem acontecido noutros países”, disse o ex-governante, em entrevista ao Público, na qual relativizou o ‘Não é não’ declarado por Luís Montenegro em relação a acordos com o Chega: “A verdade é que o “não é não” deu só uma vitória por 50 mil votos. E deu ao outro partido 18%“.
Para Miguel Relvas, um hipotético segundo lugar dos sociais-democratas com a existência de uma maioria de direita deve levar o PSD a “assumir as responsabilidades”. Isso, nas palavras do antigo ministro adjunto de Passos Coelho, significa rejeitar o apelo à reciprocidade já formulado por vozes do PS a um governo minoritário do adversário, seguindo o exemplo traçado em 2015 pela ‘geringonça’.
“António Costa iniciou um ciclo novo em Portugal que era o espaço da direita e o do espaço da esquerda. Sou totalmente adverso a que haja um processo de reciprocidade. O PSD tem de liderar de forma clara todo o espaço que esteja à direita da esquerda”, vincou, acrescentando que o PSD não pode entregar o poder “a uma esquerda folclórica”.
Relvas. PSD tem de contar com Chega, “se portugueses quiserem”
Nesse sentido, Miguel Relvas declarou que Portugal deve saber interpretar os sinais que se verificam noutros países europeus, que indiciam um crescimento do eleitorado mais à direita e que descreveu como “um tempo de nacionalismos e populismos” em termos políticos.
“Não quero compartilhar esses valores, mas tenho de olhar para eles com atenção. Tenho de saber retirar as ilações. Não advêm de vontades de minorias, mas já de largas maiorias. O que se está a passar em França, o que se está a passar na Alemanha. Nós temos de saber ler aquilo que se está a passar no mundo. Não podemos ler aquilo que nós queremos”, resumiu.
Críticas e avisos a Luís Montenegro
Na entrevista ao jornal Público, Miguel Relvas reiterou diversas vezes o voto no PSD e em Luís Montenegro no próximo dia 18 de maio. Porém, tal não o coibiu de tecer várias críticas ao primeiro-ministro, nomeadamente a fidelidade a um ‘não é não’ ao Chega.
“Ele tem de saber adaptar-se a cada uma das circunstâncias. Não vai para a oposição. A política a este nível não pode ser feita de birras. O líder do PSD tem de saber ler os resultados. Quem vota são os portugueses. Na política, temos de saber ler os resultados”, alertou.
Considerando que o PSD “tem de ser capaz de atingir aqueles eleitorados que hoje vão para outras forças políticas”, o antigo dirigente social-democrata sublinhou que o Chega “não é um partido de extrema-direita”, mas sim um “partido de oportunistas”. Manifestou ainda receio de um crescimento da abstenção que possa vir a travar a subida na votação do PSD, referindo-se sempre ao partido em termos individuais e não no seio da coligação da AD, que analisou como uma aliança entre “a formiga [CDS] e o elefante [PSD]”.
Além das questões de índole governativa, Miguel Relvas responsabilizou também o primeiro-ministro por levar o país para eleições antecipadas, mais por motivações políticas de curto prazo do que pelas consequências do caso Spinumviva.
“Não consigo perceber porque é que o Governo queria estas eleições. Só há uma interpretação. O primeiro-ministro sentia-se fraco e quis reforçar-se com estas eleições. É ou não é bom para o país? Vamos saber no dia 18 de Maio. O primeiro-ministro devia ter encerrado a empresa, mas não cometeu nada de ilegal”, observou.
O ex-ministro defendeu que o Governo podia ter continuado em funções, mesmo sem uma maioria parlamentar, pois tinha conseguido acordos com o PS em diversas matérias, e sentenciou com nova crítica a Luís Montenegro: “Não foi pela política, foi por um reforço individual do primeiro-ministro, que sentiu que este momento era melhor do que daqui a um ano. Essa é a única interpretação possível”.
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