A tinta nas ruas de Paris não tem dificuldade em arranjar telas. Os graffiters da capital francesa desenham em paredes, transportes públicos, bancos, canteiros, portas, caixas de correio e também em património de mais valor como fachadas de prédios com mais de 200 anos ou mesmo as estátuas do monumento no centro da famosa Praça da República, conta o Le Parisien.
A ubiquidade dos grafittis no espaço público está para muitos parisienses a ultrapassar os limites aceitáveis da liberdade de expressão e já se fala numa renovada campanha contra o grafitti, em Paris. E quem a está a liderar, como noticia o The Guardian é a presidente da prefeitura de Paris, Ariel Weil. No entanto, este é um movimento que partiu da indignação dos habitantes da capital francesa e uma aplicação digital ajuda a compreender a quantificar esse descontentamento.
A “Dans ma rue” é uma aplicação para o telemóvel que permite aos parisienses participarem online ocorrências numa plataforma pública. Na análise aos dados referentes a 2024, é possível verificar que 30% das queixas encaixavam na categoria “graffitis, tags, cartazes e autocolantes”. Num ano, foram 290 mil participações deste género em mais de um milhão de ocorrências registadas pelos cidadãos.
“As provas são contundentes, todos sabem quem são os autores, mas há uma total inércia por parte das autoridades públicas”, lamenta o presidente da associação de utilizadores desta aplicação, François Louis. O líder deste movimento afirma que há um grupo de 50 graffiters em série que são responsáveis por sensivelmente metade dos graffitis da cidade.
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François Louis critica a cultura de “impunidade” para os autores dos graffitis: “Alguns dos graffitters em série são detidos, libertados e no dia seguinte já voltaram a graffitar”. O líder da associação revolta-se contra o facto de que alguns destes cidadãos “filmam os seus feitos impunemente e gabam-se abertamente nas redes sociais para ganhar publicidade” e “conseguem até ganhar dinheiro ao criar marcas de roupa, enquanto causam quase um milhão de euros em prejuízos.”
Os custos da limpeza do espaço público acabam por recair tendencialmente nos bolsos dos contribuintes. A Direction de la propreté et de l’eau de Paris é uma das entidades que tem como uma das suas “prioridades” apagar os graffitis na metrópole e a dimensão do empreendimento é notável: 7.500 funcionários apagam diariamente uma média de 650 metros quadrados de tinta com custo anual de 6 milhões de euros.
Ainda assim, esta soma avultada não está a conseguir corresponder às exigências dos parisienses. A intervenção pública na limpeza das ruas só é feita se os graffitis se localizarem na via pública e se estiverem a uma altura máxima de quatro metros. Acima dessa medida, a responsabilidade de limpar as fachadas recai sobre os próprios proprietários, sendo que esses custos podem atingir as centenas de milhares de euros. Além disso, receia-se que os químicos utilizados para restaurar monumentos, edifícios e árvores lhes possam causar danos permanentes.
Os casos de contraordenações relacionadas com graffiti que a polícia municipal parisiense acompanhou aumentaram 51% nos últimos dois anos, passando de 317 ocorrências, em 2022, para 479, em 2024. Quando os processos chegam aos tribunais e acabam em condenações, os culpados estão sujeitos a uma pena máxima de dois anos de prisão e multas que podem ascender aos 30 mil euros.
A líder do município de Paris, Ariel Weil, quer que as autoridades sejam mais severas para combater estas ocorrências. “Pedi à polícia para usar câmaras e, em cada caso, vou utilizar a via legal de modo a chegarmos a uma conclusão de qual é o custo para cidade”, anunciou. E lança um repto para esta campanha: “Toda a gente tem de trabalhar em conjunto: o município, a polícia e os tribunais. As pessoas têm de saber que danificar um edifício público não é nada”.
Apesar das punições estarem previstas, até agora apenas se verificou uma condenação por danos à propriedade causados por graffiters, em Paris. Foi em 2022, quando um cidadão conhecido como Six Sax foi condenado a dois meses de prisão e ao pagamento de uma multa de 17 mil euros. Sobre este caso, Weil diz: “Temos de continuar a fazê-lo. Desde as grandes assinaturas como Six Sax aos pequenos ativistas que graffitam em manifestação. Mas o facto de termos mobilizado o município, a polícia e o ministério público já é uma conquista”.
Ainda que a principal autarca da cidade queira uma solução para o problema não significa que defenda uma abordagem repressiva. Weil considera este fenómeno “um problema complexo que junta questões de segurança, estética urbana e liberdade de expressão”. Um antigo vice-presidente parisiense explica que as autoridades estão a criar ficheiros para alguns dos maiores grafitters em série para terem uma base sólida de provas para os casos serem levados a tribunal.
“Muitos dos graffiters não são anónimos, operam com os seus próprios nomes, gozando de uma uma sensação de impunidade”, disse Emmanuel Grégoire. “São como cães a urinar contra a parede para marcar o território deles”, acusou o também candidato às próximas eleições para a prefeitura de Paris. “Dá uma muito má impressão. As pessoas têm uma certa imagem da cidade nas suas cabeças e chegam cá e vêm os bairros todos sujos com os graffitis”.
François Louis, o líder da associação dos utilizadores da “Dans ma rue” coloca uma questão no mesmo sentido: “Conseguem imaginar se o Notre Dame fosse graffitado? Se quando os coletes amarelos graffitaram o Arco do Triunfo foi notícia de primeira página, porque é que estamos a deixar vandalizar um monumento histórico na Praça da República”.