O percurso, os feitos, as posições e as frases do Papa Francisco são os grandes temas do momento no mundo católico — e não só —, mas não são os únicos. Com a morte do líder da Igreja Católica, dá-se a necessidade de escolher um sucessor e, assim, volta para cima da mesa a discussão dos potenciais candidatos — algo que, de resto, já tinha sido iniciado com a grave crise de saúde que abalou Francisco em março.
Mesmo durante as fases em que os papados correm sem grandes problemas, os especialistas vão continuamente analisando quais os principais candidatos à sucessão — tendo como nome papabili. É, por exemplo, o que faz o Cardinalium Collegi, uma plataforma online mantida por um conjunto de jornalistas e investigadores católicos e que colige uma lista de 22 cardeais considerados como tendo condições para chegar a Papa.
Esta, porém, não é uma lista definitiva, já que nem todos os Papas foram considerados papabili quando eram cardeais e há nomes a serem discutidos que não constam desses 22. Outros foram papabili mas não eram tidos como escolhas prováveis — Francisco, à época Jorge Mario Bergoglio, foi o caso, em 2013. A imprevisibilidade é a única constante junto dos cardeais — tanto é que fez nascer o ditado “quem entra Papa no conclave sai cardeal”.
Pietro Parolin
Um dos candidatos mais fortes à sucessão de Francisco, o cardeal Pietro Parolin, de 70 anos, foi o seu braço direito durante todo o seu papado, tendo sido por si escolhido para Secretário de Estado da Santa Sé em 2013 — o que, para efeitos práticos, fez de si uma espécie de primeiro-ministro do Vaticano.
A vasta experiência que acumula como diplomata é um dos seus principais trunfos, conhecendo os meandros da Cúria Romana e tendo sido a figura presente da Igreja Católica em todo o tipo de negociações em vários países no Médio Oriente ou até na China, onde foi instrumental no polémico desfecho de negociar com Pequim a ordenação conjunta de bispos junto do governo comunista.
A beneficiar a sua candidatura está também o facto de ser italiano — seria assim um regresso do papado ao país após João Paulo II (polaco), Bento XVI (alemão) e Francisco (argentino) — e de ser visto como uma opção de compromisso entre progressistas e conservadores, afirmando-se como um candidato da continuidade, de trato fácil e gentil.
Se, por um lado, é visto como um teólogo moderado capaz de continuar algumas das reformas do sucessor e de manter o Vaticano como garante de estabilidade num mundo cada vez mais polarizado, por outro, posiciona-se timidamente na esfera mais conservadora da Igreja no que toca às questões do casamento homossexual — tendo já considerado a sua legalização “uma derrota para a humanidade” — e do aborto, apesar de não ser uma voz muito ruidosa nesse aspeto.
Contra si joga o facto de ter pouco experiência pastoral e da sua postura moderada e pragmática não apelar aos defensores de uma liderança mais doutrinária, sendo caracterizado pelos seus críticos como um burocrata demasiado conservador ou demasiado progressivo, dependendo de a quem se fizer a pergunta, como escreve o Politico. Não obstante, é tido pela imprensa generalizada e especializada — e até pelos especialistas das apostas — como o mais provável a suceder.
Luis Antonio Tagle
Cardeal oriundo das Filipinas, Tagle é outro dos grandes favoritos — aliás, já há vários anos, tendo sido papabile em 2013 — e, tornando-se Pontífice, seria o primeiro de sempre proveniente do continente asiático. É, também, com 67 anos, um dos mais jovens candidatos à sucessão de Francisco, com quem é frequentemente comparado dada a modéstia com que tem levado a sua vida e um foco semelhante a temas de justiça social — foi, por exemplo, um crítico vocal do ex-presidente Rodrigo Duterte.
Como lembra a Reuters, Tagle tem décadas de experiência pastoral, tendo sido ordenado sacerdote em 1982, seguindo-se depois períodos como bispo de Imus e como arcebispo de Manila. Bento XVI fez de si cardeal em 2012, e Francisco deu continuidade à sua carreira em 2019, fazendo de si um dos líderes do braço evangelizador da Igreja Católica a nível mundial, algo auxiliado por ser fluente em inglês e italiano.
O facto de ser proveniente das Filipinas joga a seu favor, já que o país é um dos que mais crentes católicos tem gerado na Ásia, tal como o facto de ser carismático e com sentido de humor. Além disso, é uma escolha fácil para quem apoia a postura mais progressista de Francisco, tendo ficado ao seu lado em questões como a comunhão para os divorciados ou a relação com os homossexuais no seio da Igreja, e tendo chegado mesmo a sugerir a autorização de padres casados ajudaria a resolver o problema da falta de clérigos nas Filipinas, como recorda o The Times.
No entanto, não só essa faceta mais à esquerda da Igreja também gera anticorpos, como há outros fatores a dificultar a vida a Tagle. O facto de ser muito novo, por exemplo, pode levar vários cardeais a não elegê-lo por temer que o seu papado seja tão longo que inviabilize as suas próprias ambições no Vaticano. Além disso, tem uma mancha no currículo que fez com que a sua possível sucessão perdesse alguma força nos últimos anos, ao ter sido afastado do cargo de presidente da instituição de caridade católica Caritas por Francisco, na sequência de denúncias de má gestão, apesar do seu papel ser sobretudo nominal.
Luis Antonio Tagle (à esquerda), e Peter Appiah Turkson (à direita) durante a Missa Pro Eligendo Romano Pontifice na Basílica de São Pedro, antes de entrarem no conclave para decidir o sucessor de Bento XVI, a 12 de março de 2013, na Cidade do Vaticano.
Peter Erdö
No outro oposto, Peter Erdö, cardeal de 72 anos da Hungria, é um dos mais fortes candidatos da esfera mais tradicional da Igreja Católica à sucessão, representando um potencial regresso ao conservadorismo de João Paulo II e Bento XVI.
Primaz da Hungria fruto do facto de ser Arcebispo de Esztergom-Budapeste, Erdö é tido como um gigante intelectual, sendo especialista em direito eclesiástico e tendo ascendido meteoricamente no seio da Igreja Católica, tornando-se bispo aos 40 anos e cardeal em 2003, com apenas 51 anos. É também conhecido pela sua abertura não só a outras religiões — como a judaica —, como a outras correntes no seio do cristianismos, sendo um fervoroso defensor do diálogo com os cristãos ortodoxos — saber falar sete línguas, incluindo russo, é prova dessa abertura.
O seu perfil público, no entanto, foi construído como grande promotor de uma abordagem tradicional à doutrina e aos ensinamentos católicos. Como tal, esse conservadorismo levantou ondas, por exemplo, ao opôr-se ao plano de permitir que os católicos divorciados e recasados recebam a comunhão, ou ao reafirmar a Europa como continente de matriz cristã.
Mais polémico, contudo, foi o seu aparente alinhamento com o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, durante a crise migratória de 2015, rejeitando a ideia de que a Igreja deveria acolher refugiados, afirmando que isso equivaleria a tráfico de seres humanos. Além disso, foi criticado por não se manifestar mais vezes quanto às tendências autoritárias de Orban. No entanto, tem a particularidade de nunca ter colidido frontal e publicamente com Francisco, ao contrário de outros dos seus correligionários mais tradicionais.
Figura austera, joga contra si a falta de carisma ou dotes de oratória, mas, como aponta a Reuters, “se este facto já foi visto como uma séria desvantagem, pode ser visto como uma vantagem desta vez, se os cardeais quiserem um papado calmo” pós-Francisco, sendo que Erdö também já tinha sido equacionado em 2013.
Peter Appiah Turkson
Um dos mais influentes cardeais de África, Peter Turkson é desde há vários anos considerado o principal candidato a tornar-se o primeiro papa negro da Igreja Católica — mas não o primeiro do continente, que já deu três sumos pontífices ao Vaticano, nenhum deles, porém, da região subsariana.
O quarto de 10 irmãos de uma família modesta de Wassaw Nsuta, quando o Gana ainda era uma colónia britânica, Turkson fez um percurso exemplar em seminários, sendo ordenado em 1975. João Paulo II foi o responsável pela sua ascensão, tornando-o arcebispo de Cape Coast em 1992 e fazendo de si o primeiro cardeal ganês da história em 2003.
Hoje, com 76 anos, é Chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, depois de já ter liderado o importante Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, sendo que a sua saída foi vista como fruto de jogos de poder já sob a égide de Francisco.
Tem como grandes trunfos a sua experiência no Vaticano e o facto de vir de uma região do mundo onde o cristianismo continua em crescimento face à tendência secularizante no Norte Global. Além disso, é visto como um comunicador nato.
É conotado com a vertente progressista da Igreja, pronunciando-se sobre questões como a crise climática, a pobreza e a justiça económica — chegando até a ir em representação do Vaticano ao Fórum Económico Mundial em Davos. No entanto, de acordo com o The Guardian, Turkson mantém algumas posições tradicionais quanto ao sacerdócio, ao casamento e à homossexualidade — sendo que, todavia, terá reconsiderado as suas opiniões quanto a este tema, afirmando que as leis anti-LGBT em muitos países africanos são demasiado severas.
José Tolentino de Mendonça em 2021, quando era arquivista e bibliotecário da Santa Sé.
José Tolentino de Mendonça
Há quatro portugueses entre os 136 cardeais que vão reunir-se em congregação para escolher o próximo Papa. Apenas um deles, porém, tem reais possibilidades de vir a suceder Francisco — o homem que o impressionou pela sua capacidade intelectual e conhecimento teológico, José Tolentino de Mendonça.
O madeirense de 59 anos não consta entre os mais favoritos à posição, mas é uma figura em clara disputa — consta da lista de 22 papabili acima referida —, até pelo perfil que tem construído no seio do Vaticano desde que Francisco fez de si cardeal em 2019. Padre, teólogo e poeta, é conhecido por fazer essa ponte entre a Igreja e a Cultura secular, sendo desde 2022 prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação.
O seu percurso fez-se paulatinamente como padre no Funchal e em Lisboa — primeiro como capelão da Universidade Católica Portuguesa, onde fez todo o percurso académico até ao doutoramento em Teologia Bíblica, lecionou e assumiu cargos de direção; depois, na Capela do Rato. A escolha de Francisco em tê-lo como pregador do retiro anual do Papa e dos membros da Cúria Romana carimbou a sua ida para o Vaticano, onde foi feito arcebispo, arquivista e bibliotecário da Santa Sé.
Além da pasta que comanda, foi também feito membro do Dicastério para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos em 2023 e do Dicastério para a Doutrina da Fé em 2024. Os meios internacionais descrevem-no como devedor à faceta progressista da Igreja Católica, ou seja, alguém na senda de Francisco. “Tem suscitado controvérsia por simpatizar com pontos de vista tolerantes sobre as relações entre pessoas do mesmo sexo e por se aliar a uma irmã beneditina feminista que favorece a ordenação de mulheres e é pró-escolha. Era próximo de Francisco na maioria das questões e defende que a Igreja deve dialogar com a cultura moderna”, escreve o The Guardian.
A confirmar-se, Tolentino de Mendonça seria o segundo Papa português da história: o primeiro e, até agora, único foi João XXI, lisboeta nascido em 1215 e que teve um curto papado de 242 dias entre 1276 e 1277, ano em que morreu.
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Os outros candidatos
Além dos papabile acima descritos, há outros em consideração e que cujos nomes têm sido avançados como hipóteses para alcançar a liderança da Santa Sé nas próximas semanas.
Um deles é o de Jean-Marc Aveline, o arcebispo de Marselha, recentemente eleito presidente da Conferência Episcopal Francesa, que pode tornar-se o primeiro Papa francês desde o século XIV. Nascido na Argélia numa família de “pieds-noirs”, é um sacerdote que defende o diálogo interreligioso — especialmente com o mundo islâmico — e a defesa dos migrantes, facetas que combina com a de intelectual religioso, com um doutoramento em teologia e uma licenciatura em filosofia.
No extremo oposto está Robert Sarah, da Guiné, outro candidato que, a par de Turkson, pode ser o primeiro Papa negro da história. No entanto, ao contrário do cardeal ganês, o guineense é muito mais conservador, apresentando-se abertamente como crítico à ideologia de género e fazendo discursos contra o radicalismo islâmico, tendo sido um opositor frontal à política mais conciliatória de Francisco.
Entre os dois está Mario Grech, bispo de Gozo, a segunda maior ilha de Malta. O seu nome ganhou dimensão como secretário-geral durante o sínodo dos Bispos convocado em 2024 para discutir o futuro da Igreja no âmbito de temas como o papel das mulheres e dos divorciados que voltariam a casar-se. Aí, conseguiu equilibrar as suas posições mais conservadoras com as reformas de Francisco, afirmando-se como um conciliador.
Há ainda a ter em conta Matteo Maria Zuppi, arcebispo de Bolonha e Conferência Episcopal Italiana. Com um perfil parecido com o de Parolin, também conta com longa experiência diplomática ao serviço da Igreja, tendo, por exemplo, atuado como mediador de paz em Moçambique em 1992. Mais recentemente, foi enviado especial de Francisco para a paz na Ucrânia. No entanto, ao contrário do Secretário de Estado da Santa Sé, Zuppi é muito mais conotado com a corrente progressista, gozando de grande popularidade em Itália pelo seu trabalho com os mais desfavorecidos e defendendo a aceitação de migrantes e fiéis homossexuais.
Por fim, destaca-se o nome de Pierbattista Pizzaballa, italiano que é desde 2020 o patriarca latino de Jerusalém, mas que já trabalha na Terra Santa desde 1999 em prol da minoria cristã aí residente. Em setembro de 2023, tornou-se o primeiro patriarca de Jerusalém em exercício — a mais alta autoridade católica no Oriente — a ser feito cardeal, sendo que desde então tem tido um importante papel de mediação no conflito entre Israel e o Hamas.