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Tolentino Mendonça tornou-se o segundo cardeal mais novo da Igreja Católica

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Tolentino Mendonça tornou-se o segundo cardeal mais novo da Igreja Católica

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Tolentino Mendonça. De Angola à Madeira até aos arquivos secretos do Vaticano, a vida do padre-poeta que se tornou cardeal /premium

Em menos de dois anos, Tolentino Mendonça foi de padre a cardeal. Quem o conhece assume que é reconhecimento do seu intelecto extraordinário. Mas ele continua a dizer-se um simples padre.

No início da década de 90, pouco depois de ter sido ordenado padre e de ter concluído um mestrado em Roma, José Tolentino Mendonça regressou a Lisboa e foi nomeado capelão da Universidade Católica, onde começou a dar aulas. Foi lá que Pedro Mexia, na altura estudante de Direito, conheceu o jovem sacerdote. Ele e os colegas descobriram um padre diferente do habitual. “Lembro-me de as pessoas ficarem muito cativadas com o estilo dele. Houve até pessoas que passaram a ir à missa para o ouvir”, recorda o poeta português, 25 anos depois. “Nós dizíamos uns aos outros que achávamos que aquele tipo ia longe. Agora, o Papa também acha.

Em janeiro de 2018, o L’Osservatore Romano, jornal oficial do Vaticano, anunciava que o padre português tinha sido escolhido para orientar o retiro anual de Quaresma do Papa Francisco e dos restantes membros da Cúria Romana (o órgão de governo da Igreja Católica). “Teólogo e poeta, é uma das vozes mais autorizadas da cultura do seu país“, lê-se no artigo, que anunciava que Tolentino Mendonça iria passar uma semana na Casa do Divino Mestre, nos arredores de Roma, a orientar o Papa nas dez meditações do retiro, dedicadas ao “elogio da sede”.

Menos de meio ano depois — e na sequência de um retiro avaliado como muito positivo pelo Papa Francisco —, era elevado a arcebispo e nomeado para dirigir o Arquivo Secreto do Vaticano e a biblioteca apostólica. Agora, no mais recente desenvolvimento de uma escalada em flecha na hierarquia católica, o padre Tolentino vai ser cardeal — o segundo mais novo de todo o colégio de eleitores do Papa.

"Nós dizíamos uns aos outros que achávamos que aquele tipo ia longe. Agora, o Papa também acha"
Pedro Mexia

A origem desta nomeação — que dá a Portugal uns inéditos três votos num eventual conclave para a eleição do próximo Papa que aconteça nos próximos anos — aconteceu num telefonema no final de 2017. “O convite para fazer este retiro começou exatamente com o telefonema do Papa, que num dia de manhã, possivelmente a seguir à missa em Santa Marta, ligou e tivemos uma conversa em que ele me convidou para fazer o retiro. Naturalmente, o processo para chegar a este convite certamente passou pelo contacto com as coisas que escrevo. Tenho, nos últimos anos, editado um conjunto dos meus livros em língua italiana. No ano passado escrevi no [jornal italiano] Avvenire uma coluna diária durante três meses. Tudo isso também contribuiu para que o meu nome e o meu pensamento teológico fossem conhecidos em Itália, e naturalmente alguém sugeriu isso ao Papa Francisco”, contou Tolentino Mendonça numa entrevista ao Observador em abril do ano passado.

Aceitou de imediato, “com muita humildade”, o desafio de se tornar no primeiro português a orientar a reflexão do Papa. “Sou um simples padre, e acolho [o pedido] com um sentido de serviço à Igreja e ao Santo Padre”, disse na altura ao portal Vatican News. “De facto, eu disse isso ao Papa: ‘Olhe, mas está a convidar um pobre padre português para pregar o retiro, não sou um grande teólogo, não sou um pensador ao nível da Cúria Romana. Sou um pobre padre.’ E ele disse: ‘Mas é bom. É isso que quero, quero um padre a pregar-me o retiro'”, acrescentaria depois Tolentino Mendonça sobre a conversa com Francisco na entrevista ao Observador.

D. José Tolentino Mendonça fotografado na biblioteca da Universidade Católica (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Aceitada a responsabilidade, Tolentino Mendonça teve três meses para preparar o retiro, sempre em segredo: “Não podia dizer a ninguém. Isso era interessante, porque a dada altura, no meio da preparação tão intensa, não sabia se de facto tinha sonhado, se era verdade que estava a acontecer. Era uma coisa, ao mesmo tempo, muito solitária, uma preparação para alguma coisa que não era pública nem era imediatamente partilhável”.

Tolentino Mendonça: “Achava que tinha sonhado que o Papa me tinha convidado para orientar o retiro”

As crónicas que assina semanalmente na revista do Expresso e a sua vasta obra literária levam à conclusão de que Tolentino Mendonça não é só um simples e pobre padre. É um professor, poeta e ensaísta dono de perspetivas muito próprias sobre a fé, que podem surpreender os mais distraídos.

“Quando ele escreve um texto no Expresso sobre Bruce Springsteen como se estivesse a falar de São Francisco de Assis, a primeira reação é de perplexidade. De facto, não há razão nenhuma para essa perplexidade. Ele consegue encontrar pontos de contacto com a dimensão religiosa, mesmo naquilo que, numa cultura, podia parecer hostil ou alheado dessas questões. São fórmulas inesperadas“, resume Pedro Mexia ao Observador.

As fórmulas que usa na sua obra literária são as mesmas a que recorre nas salas da Universidade Católica, de que foi vice-reitor até ser levado pelo Papa Francisco para o Vaticano. O padre Miguel Vasconcelos, jovem sacerdote que não esconde a alegria de hoje ser sucessor de Tolentino Mendonça no cargo de capelão daquela universidade, lembra as aulas com o poeta. “Uma das coisas que marcam a ação dele é a capacidade de olhar para os Evangelhos com a sensibilidade dos artistas. É uma teologia contemplativa, com a lupa da estética. E isso é próprio dele, por ele ser poeta, não é uma fabricação”, conta o sacerdote.

De facto, foi esta análise da fé pelos olhos da arte que marcou a semana do retiro do Papa orientado por Tolentino Mendonça — e que convenceu Francisco de que tinha à sua frente o homem certo para dirigir os destinos do Arquivo Secreto do Vaticano e da biblioteca apostólica, o maior tesouro cultural da Igreja Católica a nível global, e um dos arquivos mais relevantes para o estudo da História. Logo na primeira meditação, que dedicou ao tema “Aprendizes do espanto”, o português colocou a literatura ao lado da Bíblia, para sugerir ao Papa Francisco e aos participantes dos exercícios espirituais uma leitura do episódio da Samaritana, do Evangelho de João, a partir de citações de Fernando Pessoa e de Lev Tolstoi.

"Uma das coisas que marcam a ação dele é a capacidade de olhar para os Evangelhos com a sensibilidade dos artistas. É uma teologia contemplativa, com a lupa da estética. E isso é próprio dele, por ele ser poeta, não é uma fabricação"
P. Miguel Vasconcelos, capelão da Universidade Católica

Para Tolentino Mendonça, não há dúvidas sobre o contributo essencial que a literatura secular pode dar para o entendimento das escrituras sagradas dos cristãos. “A Bíblia é palavra sagrada. É sagrada, por um lado, e nesse sentido aquela palavra tem um estatuto singular, mas não deixa de ser palavra. A Bíblia não deixa de ser uma biblioteca, não deixa de ser um conjunto de poemas, um conjunto de cartas, um conjunto de Evangelhos, um conjunto de apocalipses, de textos de corte, de textos amorosos, de narrativas epopeicas, e por isso o conhecimento que a teoria da literatura, mas também a ciência ou o cinema, nos oferecem sobre o que é uma narrativa ou uma história, o impacto desta palavra no leitor, é absolutamente decisivo para adensar a interpretação e a pertinência da leitura que nós podemos fazer.”

Eu digo sempre aos meus alunos que um estudioso da Bíblia, ou um padre, tem de ver muito cinema, tem de ouvir muita música, tem de contactar muito com o mundo das artes, tem de conhecer psicanálise, tem de ler antropologia. Isso vai enriquecer a compreensão do humano”, resumiu ao Observador.

Escolheu a sede como tema central da pregação que apresentou ao Papa Francisco, porque diz que “a sede é uma experiência fundamental para entender a fé”. “A fé não é um estado de saciedade, a fé é um estado de sede, porque é uma pergunta”, assegura o padre-poeta. Mais: “Ter as certezas é o contrário da fé“.

Não há uma distinção clara entre o padre e o poeta“, explica o crítico literário João Pedro Vala, admirador da obra de Tolentino Mendonça. “Quando se ouve um sermão do padre Tolentino, ou se lê um poema ou uma crónica, não existe uma distinção. Os sermões são poéticos, e os poemas, não sendo pregações, vêm da mesma pessoa, têm a mesma doçura. Trata o leitor como um membro da sua paróquia.” Por isso foi escolhido como pregador para o Papa, assume sem dúvidas quem o conhece.

“Há uma música bíblica em toda a poesia que escrevi, sendo mesmo uma poesia terrena. Não escrevo uma poesia religiosa, escrevo poesia, ponto final”, explicava Tolentino Mendonça ao Observador. “O tema do religioso certamente está presente, porque é um tema absolutamente central na minha vida e naturalmente respira na poesia. Mas eu, como poeta, não sou um poeta religioso. Sou um poeta. O Ruy Cinatti dizia isso, que não há uma poesia religiosa, ou não há uma poesia cristã. Há cristãos que escrevem poesia. Nesse sentido, sou um cristão que escreve poesia.”

"O tema do religioso certamente está presente, porque é um tema absolutamente central na minha vida e naturalmente respira na poesia. Mas eu, como poeta, não sou um poeta religioso. Sou um poeta"
D. José Tolentino Mendonça

Em todas as dimensões da sua vida — poeta, escritor, professor e padre especialista em estudos bíblicos — as palavras ocupam um lugar de destaque. “A palavra é o grande lugar para o conhecimento que faço de mim próprio“, disse Tolentino Mendonça numa entrevista à RTP. A paixão pelas palavras nasceu durante a infância passada entre a ilha da Madeira, onde nasceu e para onde regressou aos nove anos, e Angola, para onde se mudou com a família ainda bebé e onde viveu os primeiros anos da sua vida.

Madeira, Angola, a avó e o amor a Herberto Hélder

José Tolentino Mendonça nasceu em Machico, na Madeira, a 15 de dezembro de 1965. Com apenas um ano de idade, deixou a ilha para se mudar para o Lobito, em Angola, onde o seu pai e os seus tios, uma família de pescadores, já viviam. Numa longa entrevista que deu ao Público em 2012, Tolentino Mendonça recordava esses momentos. “Lembro-me de uma viagem que fiz com o meu pai. Na minha cabeça ia também pescar. Dei comigo, para lá dos enjoos típicos de um iniciante pelo mar fora, na borda do barco, a olhar as paisagens. Praias que ainda não tinham sido exploradas, rochedos, o azul do mar, o fundo do mar”, contava.

“Essa contemplação despertava em mim uma emoção enorme, enorme. Ficava boquiaberto. Como se aquela vida intacta, da paisagem do mundo, tivesse em mim um impacto que não sabia expressa”, continuava o padre, lembrando que foi na infância que as portas da literatura se abriram para si. Particularmente no difícil regresso à Madeira, depois do 25 de Abril, que viveu com nove anos. A melhor palavra talvez nem seja regresso, uma vez que Tolentino Mendonça tinha vivido toda a sua infância, até ali, em Angola.

Em Angola, lembraria depois em entrevista ao Observador, teve uma “vida normalíssima”, marcada pela “sorte” de ter a pesca artesanal nas suas raízes. “Penso que tive muita sorte de vir de um mundo ainda ligado às profissões artesanais, porque há um contacto com a natureza, com os elementos, há uma disponibilidade quase contemplativa. Lembro-me de, pequeno, nas férias escolares, ir com o meu pai e com a companhia do barco, e lembro-me de estar sentado na proa a olhar o fundo do mar, a olhar mais distante, a paisagem da terra que se ia avistando, e isso de certa forma também deu uma largueza ao meu olhar“, dizia.

O padre Tolentino Mendonça orientou o retiro quaresmal do Papa Francisco e da Cúria Romana em 2018. Dali ao cardinalato foi um ano e meio (Vatican News)

Ao mesmo tempo, África “tem uma dimensão do espaço” que foi fundamental para o seu crescimento. “Todas as coisas têm espaço. As ruas são maiores, as casas são maiores, o espaço aberto é maior. A experiência de África, em grande medida, pelo menos na minha perceção de miúdo, era o espaço. Haver um campo de futebol entre a minha casa e a casa dos meus tios, haver uma extensão a perder de vista de território e de árvores, haver a praia ao nosso alcance. Essa relação com o espaço disponível, aberto, não construído, é alguma coisa muito interessante, porque dá uma liberdade de movimentos e uma agilidade interior que sem dúvida marcam“.

A mudança de vida aquando do regresso à Madeira, lembrava o sacerdote ao Público, “teve um dramatismo mais literário do que literal”. “Senti que me estava a despedir daqueles lugares. Fui com o meu cão, sozinho. Digo que foi literário porque quis chorar, abraçado ao cão, sentindo que era a última vez que estava ali“, contou, detalhando como encarou aquele momento como “uma aventura no porão de um barco, numa cidade desconhecida”.

Com apenas nove anos, viveu o regresso à Madeira de forma diferente dos seus pais, que sofreram uma “ansiedade enorme” com a mudança de vida. “A Madeira, como os lugares da infância, não são lugares de desencantamento. Uma pequena ilha, a terra dos meus pais, dos meus avós, em condições muito difíceis. Mas a infância não sofreu uma fractura, nem sobressaltos. Essa capacidade de transformar as dificuldades em possibilidades — no fundo, uma enorme capacidade de sobrevivência que a vida da infância tem — protegeu-me. Quando penso na infância nem por uma vez me lembro de medo, de ansiedade”, disse na entrevista ao Público.

Também a dimensão do espaço, que em Angola lhe tinha sido fundamental, se alterou por completo na Madeira. “No microcosmos insular, tudo é muito concentrado, está lá tudo. Mas tudo numa dimensão muito pequena, minúscula. O que é uma outra experiência do espaço e uma outra experiência do tempo”, acrescentou ao Observador.

"A Madeira, como os lugares da infância, não são lugares de desencantamento. Uma pequena ilha, a terra dos meus pais, dos meus avós, em condições muito difíceis. Mas a infância não sofreu uma fractura, nem sobressaltos. Essa capacidade de transformar as dificuldades em possibilidades — no fundo, uma enorme capacidade de sobrevivência que a vida da infância tem — protegeu-me"
D. José Tolentino Mendonça

Pela primeira vez, confrontou-se com a existência de quatro estações no ano, em vez de apenas duas, como em Angola. E aprendeu com isso. “Cheguei por altura do verão e no primeiro outono lembro-me de que a professora — era o quarto ano — propôs um exercício que era irmos até a um parque à procura do outono, de sinais do outono. Eu não sabia o que era o outono. Em África há duas estações, o verão e o inverno, e não tinha aquela experiência, e lembro-me perfeitamente que foi das coisas que marcaram a vida daquele miúdo, andar à procura do outono e a tentar descobrir, na tonalidade das folhas, alguma sabedoria do tempo que eu ainda não tinha apreendido.”

“Descobri o que o tempo pode ser. No fundo, pelos cheiros, pelo sinais, descobri que o tempo pode ser muitas coisas. De repente, passar de duas estações para quatro é valorizar os estados intermédios, e isso é um saber importante na vida“, resumiu.

Da vida na Madeira, Tolentino Mendonça recorda sobretudo a relação com a natureza e com o mar. “Vivia no Machico, num mundo ainda rural, muito próximo do mar, com grandes espaços em que dava para me deitar na terra e olhar as estrelas. Tinha um caderno em que apontava os barcos que passavam, observava as árvores. O meu pai, que era pescador, quando ia às Ilhas Selvagens trazia-me de presente uma cagarra. É um mundo próximo da natureza, tutelado pelas profissões artesanais, atravessado pela poesia, pelos elementos”, lembrava, numa entrevista ao Sol, em 2013.

Com 11 anos, entrou no seminário. “A questão vocacional colocou-se muito cedo. Era uma questão relevante para mim desde miúdo”, recordou na mesma entrevista, destacando o papel da família crente na descoberta da fé. Personagem fundamental na definição do seu percurso foi João Henrique Silva, até 2015 diretor regional dos Assuntos Culturais na Madeira, que na altura era professor no seminário. “Era um homem que gostava muito de cinema. Mostrou-me que era possível viver a fé e escolher uma vocação religiosa em relação com o mundo da cultura.”

Entrar no seminário foi também a oportunidade de entrar numa biblioteca pela primeira vez. Antes, o seu contacto com a literatura era exclusivamente através da sua avó materna. “A minha avó foi a minha primeira biblioteca“, dizia na entrevista ao Público, lembrando que a senhora, que não sabia ler nem escrever, conhecia vários romances e histórias orais de cor. “Numa recolha recente que se fez do romanceiro oral da Madeira uma das pessoas que está lá é a minha avó”, contou Tolentino Mendonça, dizendo-se comovido com essa recordação da avó.

D. José Tolentino Mendonça na Universidade Católica de Lisboa (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Um outro episódio marcou a sua entrada no mundo literário: uma senhora, também ela analfabeta, zeladora da igreja que frequentava, citava muitas vezes de cor o Cântico dos Cânticos. “Uma vez disse-me aquele poema e fiquei aturdido, extasiado, aquelas palavras apoderaram-se de mim”, contou o padre, garantindo que “há um antes e um depois daquele momento“. Viria a estudá-lo e a traduzi-lo para português durante os seus estudos teológicos.

Fiquei num estado de fascínio por aquele poema, de que não sabia a proveniência, e depois descobri que era um poema que afinal estava escrito. Acho que na formação de uma pessoa — cada uma tem a sua formação — podemos valorizar vidas muito simples, vidas que vêm de outro mundo. Penso, por exemplo, nesta transformação que Portugal tem vivido nestas últimas décadas. No fundo, é a transição apressada de mundos. No meu mundo, no mundo da minha infância, havia ainda muitas pessoas analfabetas ou com uma formação escolar muito básica. O que não quer dizer que elas não fossem transportadoras de uma sabedoria”, disse ao Observador.

Finalmente, aos 16 anos, escreveu o primeiro poema, A Infância de Herberto Hélder, poeta com quem partilhava a naturalidade madeirense e que admirava profundamente. “Aos 16 anos não sabia nada. Só sabia que amava o Herberto Hélder”, admitiu ao Público, lembrando que aquele poema era sobre a sua própria infância, “uma infância que podia ter sido a de Herberto Hélder“, também “no contexto insular”. Logo no primeiro verso do primeiro poema, Tolentino Mendonça definiu com clareza aquilo que viria a ser o seu percurso literário: “No princípio era a ilha“. Um verso que dizia estar “embebido da palavra divina” ao mesmo tempo que representa o seu “princípio biográfico”, antevendo uma obra em que fé e poesia se confundem.

Em 1982 começou a estudar teologia e em 1990 foi ordenado padre — no mesmo ano em que lançou o primeiro livro de poemas, Os Dias Contados. Depois da ordenação, mudou-se para Roma para fazer um mestrado em Ciências Bíblicas, formação que viria a completar com um doutoramento em Teologia Bíblica, em Portugal, na Universidade Católica de Lisboa. Tornou-se capelão da universidade, professor na Faculdade de Teologia e continuou a publicar com frequência livros de poesia — até hoje publicou mais de três dezenas.

Padre ou poeta?

Pintado numa grande fachada de um prédio em Machico, o poema “Caminho do Forte, Machico“, publicado em 2006 na colectânea A Noite Abre Meus Olhos, é a homenagem daquele município madeirense ao poeta da terra. O poema não é propriamente um texto religioso — mas também não é esse o ponto fundamental da obra de Tolentino Mendonça. O crítico literário João Pedro Vala destaca que, mesmo havendo cada vez mais padres católicos com preocupações literárias, poéticas, “a grande novidade do padre Tolentino é que ele não parece obcecado ou centrado na necessidade de usar a literatura para passar uma mensagem religiosa“. “Não me parece que ele procure fazer da literatura um palco para os seus sermões e isso é diferente de muitos outros padres que também são poetas, que usam a literatura para passar a mensagem do Cristianismo”, diz o crítico ao Observador.

"Não me parece que ele procure fazer da literatura um palco para os seus sermões, e isso é diferente de muitos outros padres que também são poetas, que usam a literatura para passar a mensagem do Cristianismo"
João Pedro Vala, crítico literário

Também Francisco José Viegas, o diretor da editora Quetzal, que publicou o mais recente livro do poeta, sublinha que o âmbito da obra de Tolentino Mendonça extravasa os limites da mensagem religiosa. “Ele é um omnívoro, como costumo dizer. Um homem que lê tudo, que cita vários autores, de origem muito diversa. Isso é uma coisa nova no discurso de alguém da hierarquia da Igreja. Deixa contaminar o discurso religioso com uma marca poética“, afirma o editor.

Um dia antes de ser elevado a Cardeal, Tolentino Mendonça lança novo livro

Para o poeta Pedro Mexia, a dimensão literária e a dimensão religiosa de Tolentino Mendonça não devem ser encaradas “como se fossem facetas diferentes ou opostas”. Mexia destaca a “capacidade de chegar às pessoas” do padre Tolentino Mendonça, que “sempre se interessou pelas coisas mais diversas, até ao ponto de as pessoas poderem ficar um bocadinho perplexas”.

“As pessoas estão à espera de que um padre tenha um certo tipo de referências e ele às vezes tem referências muito diferentes”, continua Pedro Mexia, sublinhando como Tolentino Mendonça, padre e poeta, mas também cronista, tem “vontade de procurar a linguagem do nosso tempo, porque a linguagem religiosa tem uma dimensão que não é do nosso tempo“.

Francisco José Viegas considera que esta “contaminação” positiva entre a linguagem artística e a linguagem religiosa “era algo que fazia falta à Igreja Católica”. “Uma das coisas que mais me fascinam no Tolentino Mendonça é a forma como ele pode trazer alguma beleza ao discurso da Igreja”, explica o editor.

“A Igreja procura um novo discurso, um discurso que diga mais às pessoas do nosso tempo, que possa absorver um pouco mais das sensibilidades contemporâneas, mas, mais do que isso, que fale para as pessoas do nosso tempo. As pessoas estão muito recetivas a um discurso que venha contaminado pela beleza, em vez de ser um discurso mais seco, mais tradicional“, destaca Francisco José Viegas, acrescentando que é essa a novidade que Tolentino Mendonça representa.

"Durante muito tempo faltou à Igreja a capacidade de falar para o mundo dos intelectuais. No caso do Tolentino Mendonça, há esta mistura de perspetivas"
Francisco José Viegas, editor

Acho que hoje nós não temos a noção do que é um intelectual católico, porque os católicos perderam muitos dos seus intelectuais. Houve um tempo em que a Igreja produzia intelectuais, como George Bernanos, de que assinalamos agora os 120 anos do nascimento, mas também nomes como Alçada Baptista ou Moreira das Neves. Durante muito tempo faltou à Igreja a capacidade de falar para o mundo dos intelectuais. No caso do Tolentino Mendonça, há esta mistura de perspetivas”, defende Francisco José Viegas.

Exemplo deste discurso “contaminado pela beleza” é a forma como vê a Bíblia Sagrada. Biblista de formação, Tolentino Mendonça olha para os escritos fundamentais da Igreja como uma obra de arte. “A Bíblia é um grande poema. Tem uma dimensão literária. Isso também lhe dá uma grande carga revelatória. Torna-a um livro intemporal. A Bíblia não é um catecismo”, defendia Tolentino Mendonça na entrevista ao Público. “Não acho que se deva entender literalmente a Bíblia. A Bíblia precisa de interpretação.

A esta reconhecida capacidade artística, junta-se um “enorme conhecimento dos estudos bíblicos que faz dele um ótimo professor”, diz o padre Miguel Vasconcelos, que não só foi aluno de Tolentino Mendonça em três cadeiras do seu curso de teologia — Evangelhos Sinópticos, Escritos de São Paulo, e Estética e Teologia — como foi seu colaborador na edição portuguesa de uma coletânea de poemas da poetisa brasileira Adélia Prado.

“Ele tem uma capacidade de traduzir a Tradição da Igreja para a linguagem atual, para que a possamos entender hoje, que poucos têm. Ou seja, o conteúdo da Tradição é a verdade que a Igreja acredita ter sido revelada por Deus. Mas a formulação não pode ser sempre igual, muda consoante o destinatário, e o padre Tolentino é um fator de tradução importante, diz as coisas de sempre numa linguagem que é a nossa. E para isso é preciso ter uma vontade de se dedicar ao diálogo, de conhecer os seus destinatários e de estar diante do resto do mundo“, diz o capelão da Universidade Católica de Lisboa.

Esta abertura ao resto do mundo é outra das característica fundamentais de Tolentino Mendonça, que tem um discurso fundamentalmente dedicado aos não crentes. “Interessa-me a religião expressa de forma não-religiosa. Aprendo muito com os não-religiosos, ateus e indiferentes, pois os que não creem fazem perguntas aos que creem e é importante que estes as escutem e aprendam”, dizia o padre numa entrevista ao Diário de Notícias em 2017.

"Sempre foi claro que Tolentino Mendonça era uma pessoa particularmente cativante, que congregava pessoas que não eram muito obviamente interessadas em questões religiosas lato sensu, e que com ele as ouviam de outra maneira"
Pedro Mexia

“Acredito que a crença é um laboratório de descrença e que dentro de um crente há sempre um não crente. Mesmo quem vê Deus por todo o lado faz a experiência de que Ele não está em sítio algum e o contrário também é verdade”, afirmava na mesma entrevista. Antes, na entrevista ao Público, tinha mesmo assumido: “Não tenho um discurso para crentes“.

O poeta Pedro Mexia destaca esta dimensão do sacerdote, notando que “sempre foi claro que Tolentino Mendonça era uma pessoa particularmente cativante, que congregava pessoas que não eram muito obviamente interessadas em questões religiosas lato sensu, e que com ele as ouviam de outra maneira”. “Já tive oportunidade de apresentar dois livros dele e nas apresentações vi gente de todas as estirpes, do ponto de vista social e político“, recorda Mexia.

Na dicotomia padre-poeta, nenhuma das dimensões tem o protagonismo, apesar de uma não viver sem a outra. Segundo conta quem o conhece, nem o sacerdócio de Tolentino Mendonça pode ser entendido sem a poesia, nem os seus escritos podem ser lidos sem ser à luz da sua vocação de padre. João Pedro Vala destaca a dimensão pessoal da sua poesia e das suas crónicas. “Uma pessoa, quando lê as crónicas do padre Tolentino, sente-se sempre em contacto com ele. Sente que está a conhecer uma pessoa boa, é isso que me fascina”, explica o crítico. A posição é partilhada por Pedro Mexia, que sublinha que o padre “está muito atento à vida das pessoas e nos seus poemas aparece muito a relação com a intimidade, com as pessoas e com o segredo”.

Da literatura no retiro do Papa à biblioteca do Vaticano

Precisamente por ser um teólogo diferente, um biblista experiente e um poeta contemporâneo, o Papa Francisco acabou por convidá-lo para orientar as meditações do retiro anual que faz com os membros da Cúria Romana, no início da Quaresma. “Quando o Santo Padre quis falar comigo para que colaborasse nos Exercícios da Quaresma, disse-lhe: sou apenas um pobre padre, e é a verdade. Ele encorajou-me a partilhar da minha pobreza. Veio então à minha mente propor um ciclo de meditações muito simples sobre a sede, intitulado ‘Elogio da Sede'”, contou Tolentino Mendonça num artigo publicado no jornal italiano Avvenire, aqui numa tradução para português do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

“Não tenho dúvidas de que as suas qualidades artísticas, além das teológicas, contribuíram para a escolha do Papa”, diz Francisco José Viegas, garantindo que “ele é uma pessoa em ascensão na hierarquia da Igreja, a quem a hierarquia presta cada vez mais atenção”. “Ele arrasta multidões. Durante o processo de lançamento do livro anterior, que já saiu na Quetzal, percebi o interesse com que as pessoas o ouvem. O discurso dele é inovador para muita gente que não é católica, nem sequer cristã”, conta o editor.

A hierarquia da Igreja já tem, na verdade, Tolentino Mendonça debaixo de olho há vários anos. O sacerdote, que hoje é o capelão da Capela do Rato, em Lisboa, foi o primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, um organismo da Conferência Episcopal Portuguesa criado em 2004, destinado a promover o diálogo entre a Igreja e a esfera cultural. Pelo meio, em 2011, foi nomeado consultor do Conselho Pontifício da Cultura, um órgão da Cúria Romana destinado a fazer a ponte entre o Papa e o mundo da cultura — nomeação que viria a ser renovada em 2016.

D. José Tolentino Mendonça durante a ordenação episcopal, no Mosteiro dos Jerónimos (MIGUEL A.LOPES/LUSA)

MIGUEL A.LOPES/LUSA

A nomeação mais surpreendente surgiu no início de 2018, para orientar o retiro do Papa Francisco e da Cúria. “Não posso imaginar os critérios que levaram à escolha do padre Tolentino, mas sei que ele é conselheiro do Conselho Pontifício para a Cultura, portanto é levado muito a sério por quem organiza estas coisas. Certamente, o percurso biográfico e teológico, em termos de estudos bíblicos, faz dele capaz do que lhe foi pedido”, diz o padre Miguel Vasconcelos.

Durante aquela semana de fevereiro de 2018, Tolentino Mendonça presidiu a meditações diárias — uma de manhã e uma à tarde — perante o Papa e os seus colaboradores mais próximos. Nessas meditações, a literatura e a poesia estiveram sempre em cima da mesa. Logo na primeira, citou Fernando Pessoa e Lev Tolstoi para pedir aos participantes que “aprendam a desaprender”. Na segunda meditação, citou Clarice Lispector e Simone Weil para sublinhar a importância de não descurar os escritores e poetas no estudo da teologia.

Na sexta-feira, último dia do retiro, o Papa Francisco agradeceu a Tolentino Mendonça pelas meditações diferentes das tradicionais. “Obrigado, padre, por nos falar da Igreja, este pequeno rebanho. E também por nos ter avisado para não nos encolhermos no nosso mundanismo burocrático”, disse o Papa. “Obrigado por nos lembrar que a Igreja não é uma gaiola para o Espírito Santo, que o Espírito também voa e trabalha fora dela”, acrescentou, terminando: “Com as citações e com as coisas que nos contou, mostrou-nos como ele [o Espírito Santo] trabalha nos não crentes, nos pagãos e em pessoas de outras confissões religiosas: é universal, é o Espírito de Deus, e é para todos.”

Em junho de 2018, apenas quatro meses após o retiro, o Vaticano anunciou que o padre Tolentino Mendonça havia sido nomeado pelo Papa Francisco para os cargos de arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e de bibliotecário da Santa Sé, substituindo naquele lugar de topo da Cúria Romana o arcebispo francês Jean-Louis Bruguès. Com a nomeação — que deu ao português a tutela da mais antiga biblioteca do mundo — veio a elevação à dignidade eclesiástica de arcebispo e já a perspetiva de, um dia, chegar ao cardinalato.

Na celebração em que recebeu a ordenação episcopal pelo cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, no Mosteiro dos Jerónimos, ouviu-se uma mensagem do Papa Francisco sobre a tarefa que o esperava: “Zelar pelos escritos e testemunhos que os tempos nos legaram“, cuidando de uma “instituição de grande relevância” para a Igreja e para o mundo. O padre Tolentino, agora D. José Tolentino Mendonça, reconheceu que teria de “aprender” a ser bispo e destacou como principal prioridade “ir além da ficção que romanceou o arquivo do Vaticano”.

Explicando que o arquivo, de secreto, só tem o nome, Tolentino Mendonça prometeu mantê-lo como um “instrumento de diálogo e de aproximação entre a Igreja e a Cultura”. “O arquivo está muito aberto à sociedade. Há mais de 2 mil investigadores creditados junto do arquivo do Vaticano. É preciso ir além de uma certa ficção que romanceou muito aquele arquivo”, afirmou na altura, acrescentando que pretendia “preservar aquele repositório, que é um grande tesouro da Igreja e da Humanidade, e ao mesmo tempo pô-lo a dialogar com a contemporaneidade”. E prometeu que continuará a ser poeta.

Desde que assumiu a tutela do Arquivo Secreto do Vaticano, D. José Tolentino Mendonça já esteve envolvido numa decisão do Papa Francisco de antecipar a abertura da parte do arquivo relativa ao pontificado de Pio XII (em vez de esperar os habituais 70 anos após a morte do papa), marcado pela II Guerra Mundial e pelo Holocausto. O pontífice, que reinou entre 1939 e 1958, tem sido acusado pela comunidade judaica de ter permanecido em silêncio e de ter sido cúmplice dos crimes do nazis. A abertura dos arquivos, prevista para março de 2020, deverá iluminar os detalhes da ação do Vaticano ao longo daquele período histórico.

"O arquivo está muito aberto à sociedade. Há mais de 2 mil investigadores creditados junto do arquivo do Vaticano. É preciso ir além de uma certa ficção que romanceou muito aquele arquivo"
D. José Tolentino Mendonça

Numa recente entrevista à Agência Ecclesia na qual falou da sua atividade à frente do arquivo e da biblioteca, Tolentino Mendonça explicou que Pio XII “teve um longo pontificado, num dos períodos cruciais da história contemporânea” e que, devido à importância do período em questão, a equipa do arquivo está há 13 anos a trabalhar na catalogação dos documentos. “Eles serão abertos, tornados acessíveis, as pessoas poderão ler e tirar as suas conclusões”, explicou Tolentino Mendonça, acrescentando que a documentação mostrará “a grande ajuda do Papa e da Santa Sé aos prisioneiros de guerra” e também “a dimensão da caridade” de Pio XII, que atendeu discretamente os pedidos de “milhares e milhares e milhares de pessoas que escreviam ao Papa, a pedir uma ajuda”.

Após pouco mais de um ano como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, e no seguimento de uma longa tradição da Igreja Católica apenas quebrada no caso do antecessor francês, o Papa Francisco vai entregar o barrete vermelho a D. Tolentino Mendonça, tornando-o no sexto português a ser elevado ao cardinalato no século XXI e, com 53 anos de idade, no segundo cardeal mais novo da Igreja Católica. Se o próximo conclave ocorrer nos próximos oito anos — ou seja, antes de os cardeais D. Manuel Clemente e D. António Marto atingirem o limite de 80 anos —, Portugal contará com três cardeais eleitores na escolha do próximo Papa.

Nota: Uma primeira versão deste perfil foi publicada em 24 de fevereiro de 2018, altura em que o então padre José Tolentino Mendonça orientou o retiro quaresmal do Papa Francisco e da Cúria Romana. O texto foi agora atualizado, aumentado e republicado a propósito da elevação de Tolentino Mendonça ao cardinalato.

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