Sergio Alfieri operou o Papa Francisco pela primeira vez em 2021 na unidade que o médico coordenava no Hospital Policlínico de Gemelli, em Roma. Agora, depois da morte do Pontífice, falou pela primeira vez sobre a relação de “estima e afeto” que cresceu ao longo dos anos e revelou detalhes sobre os últimos momentos da vida do Pontífice.

Após a alta de Francisco em março deste ano, depois de  mais  de cinco semanas hospitalizado com problemas respiratórios, Alfieri prescreveu-lhe 60 dias de convalescença, mas não o aconselhou a evitar o trabalho, porque “ele é o Papa”. “Voltar ao trabalho fazia parte da terapia e nunca se expôs ao perigo. É como se, ao aproximar-se do final [da vida], tenha decidido fazer o que tinha que fazer. Como fez no domingo [de Páscoa], quando aceitou a proposta do seu assistente pessoal Massimiliano Strappetti para dar a volta à praça diante da multidão”, explicou o médico pessoal de Francisco, lembrando a reunião que protagonizou há alguns dias.

“Pediu-me para organizar uma reunião com todas as pessoas que o trataram em Gemelli. Disse-lhe que eram 70 pessoas e que, por isso, seria melhor fazer a reunião depois da Semana Santa, cumpridos os dois meses da recuperação. A resposta foi clara: ‘Vou reunir-me com eles na quarta-feira’. Hoje tenho clara a sensação de que ele sentia que tinha que fazer uma série de coisas antes de morrer“, disse ao Corriere della Sera.

Uma multidão em silêncio no velório de Francisco. Horas na fila para breves segundos junto ao Papa

Papa queria morrer em casa

Alfieri relata que, na segunda-feira em que morreu o Papa, recebeu uma chamada às 5h30. “O Santo Padre está muito doente, temos de regressar ao Gemelli”, disse-lhe, por telefone, o enfermeiro, Massimiliano Strappetti. Rapidamente, o médico avisou a sua equipa e, em 20 minutos, chegou à residência de Francisco, em Santa Marta.

“Parecia difícil pensar que a hospitalização fosse necessária. Entrei e [o Papa] tinha os olhos abertos. Comprovei que não tinha problemas respiratórios e tentei chamá-lo, mas não respondia. Não respondia aos estímulos, nem sequer aos dolorosos. Nesse momento percebi que não podia fazer mais nada. Estava em coma”, descreveu.

Antes da morte, Alfieri tinha combinado encontrar-se com o Papa nessa segunda-feira. Estiveram juntos no sábado anterior e o médico encontrou Francisco “muito bem”, como o próprio defendeu: “Estou muito bem, voltei a trabalhar e tenho muita vontade [de o fazer]”, confessou o Papa na conversa com o médico.

“Levei-lhe um bolo como ele gosta e falámos um pouco. (…) Ficámos de conversar na segunda-feira”, acrescentou.

Correndo o risco de que o Papa não sobrevivesse no caminho para o hospital, e conscientes de que Francisco queria morrer em casa, deixaram-no ali, onde morreu umas horas depois, às 7h35. O relatório médico refere um acidente vascular cerebral, que conduziu a um coma e a uma paragem cardíaca irreversível.

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Os profissionais de saúde que se deslocaram ao quarto do Pontífice permaneceram no local após o óbito, quando começaram a chegar mais responsáveis do Vaticano. “O cardeal [Pietro] Parolin pediu-nos para rezarmos e rezámos o rosário com ele. Senti-me um privilegiado e agora posso assumir que fui. Nessa manhã dei-lhe um afago como último adeus”, confidenciou.

O encontro de 2018, a bênção das mãos e a pizza na mesma mesa

Os dois conheceram-se em 2018, quando o cirurgião de 58 anos trabalhava na Santa Sé e foi convidado pelo Papa a assistir a uma missa em Santa Marta. “Era como um pároco. Dava o sermão e depois, no final da celebração, saía da igreja e saudava as pessoas individualmente”, recorda.

“Dois anos depois começou a sentir-se mal do estômago, tinha dores abdominais muito fortes e a sua qualidade de vida, com todo o trabalho que tinha, não era a ideal. Fez exames e ouviu vários médicos. Tinha uma doença grave”.

As complicações de saúde levaram o pessoal médico que apoiava o Papa a procurar Alfieri, especialista em cancro colorretal. “Decidi ser operado e escolhi-te a ti”, disse-lhe Francisco. Consciente da responsabilidade, o cirurgião oncológico disse que queria operá-lo no Hospital Gemelli, que recebe habitualmente os Papas.

Dentro da basílica do século V onde Francisco vai ser sepultado. “Para nós, é uma grande responsabilidade preparar esta última viagem”

Francisco aceitou, mas antes colocou outra condição: “Chegarei [ao hospital] no domingo, depois do Angelus. Ninguém pode saber. Se souberem não serei operado”.

O médico conseguiu, o segredo foi mantido, deu-se a explicação de que havia uma visita de um líder de um Estado que queria o máximo de confidencialidade e, a poucos minutos da operação, Alfieri ainda foi chamado pelo Papa. Queria abençoar as mãos que iriam liderar o procedimento médico. “Quis dizer-me para usar as mãos para trabalhar, mas para usar as mãos com o coração nos próximos anos. Como se tivesse dito: ‘És católico, mas agora tens algo mais'”. Comprometeram-se os três, ele, o Papa e Strapetti, a guardar segredo daquele momento, por isso só agora o médico o revela.

“Pode dizer-se que estávamos unidos por uma estima profunda. Naquela ocasião isolámo-nos por uma semana. Houve complicações, mas ao terceiro dia decidiu oferecer-nos pizza. Comer com ele à mesa foi outro privilégio que me deu a vida”, desabafou.

Até à morte do Papa, ainda haveria outra cirurgia, igualmente mantida em segredo. Na última hospitalização, em fevereiro, Alfieri admite que, uma noite, achou que o Pontífice ia morrer no hospital. “Temíamos o pior, mas surpreendeu-nos a todos. Sabíamos que queria voltar a casa para ser Papa até ao fim. Não nos desiludiu”, rematou.