Dentro da Basílica de São Pedro, no Vaticano, a primeira imagem é de inversão. O corredor central, que leva o visitante da entrada principal ao altar, não é a habitual faixa vazia que divide uma multidão ao meio. Numa igreja despida, o corredor central, que o Papa Francisco tantas vezes percorreu no início das celebrações, converteu-se num imenso e compacto rio de gente, andando lenta e silenciosamente, rumo ao altar, onde está desde a manhã desta quarta-feira exposto à veneração do público o corpo do Papa Francisco.
Pouco mais de 48 horas depois da morte do Papa argentino, anunciada às primeiras horas da manhã de segunda-feira pelo Vaticano, a cidade de Roma começou esta quarta-feira a encher-se de milhares de católicos, vindos de todo o mundo, para prestarem homenagem ao pontífice argentino, que morreu aos 88 anos vítima de um AVC, após um pontificado de doze anos marcado por amplas reformas na Igreja Católica.
Na manhã desta quarta-feira, o corpo de Francisco foi trasladado da capela da Casa de Santa Marta, onde foi inicialmente velado pelos cardeais, para a Basílica de São Pedro, onde estará exposto ao público até às 20h da próxima sexta-feira. Nessa altura, o cardeal americano Kevin Farrell, o camerlengo, presidirá à celebração ritual na qual será fechado o caixão do Papa — para que tudo esteja pronto para o funeral, marcado para a manhã do próximo sábado. Até lá, espera-se que milhares de peregrinos passem pela cidade de Roma para cumprirem uma longa tradição da Igreja: verem, com os próprios olhos, o corpo do Papa morto, e rezarem junto dele.
Fila de 100 mil para a despedida de Francisco
Desde tempos antigos, mais dados a hipóteses conspirativas, golpes e enganos, que esta é uma prioridade para a Igreja Católica: garantir que todos têm a certeza de que o Papa morreu, que a sé apostólica está vaga e que estão reunidas as condições para o longo e complexo processo de sucessão que se segue. Por isso, o primeiro rito depois da morte do Papa é justamente o da constatação da morte, uma celebração que ocorreu na tarde de segunda-feira sob orientação do camerlengo (que por estes dias tem a incumbência de assegurar a gestão corrente do Vaticano) e com a presença de vários cardeais e dos responsáveis médicos do Vaticano. Agora, também o público tem essa oportunidade de olhar uma última vez para Francisco antes do funeral e da sepultura na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma.
Esta quarta-feira, as autoridades italianas davam conta de que pelo menos 100 mil pessoas se encontravam na fila para entrar na Basílica de São Pedro — o que até já levou o Vaticano a admitir estender os horários do velório para lá da meia-noite, hora a que está previsto encerrar a basílica.
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O imenso rio de gente que desagua no altar central de São Pedro começa muito, muito antes, ainda em Itália, para lá das fronteiras do Vaticano. Fora dos muros, há longas filas para passar pelos detetores de metais; dentro da Praça de São Pedro, uma longa fila serpenteia pela praça até alcançar a porta da basílica. Não é difícil perceber que muitos dos peregrinos que estão na fila estavam em Roma com outro objetivo: são grandes grupos de jovens com t-shirts alusivas ao jubileu dos adolescentes, que tinham viajado até ao Vaticano para estarem presentes na canonização do beato Carlo Acutis, um jovem italiano que será o primeiro santo da geração digital. A morte do Papa Francisco obrigou ao adiamento da canonização, quando uma boa parte destes grupos de peregrinos já estavam na cidade.
Se, no exterior, há animação entre os peregrinos que esperam horas ao sol pela sua vez de entrar na basílica, no interior o ambiente muda. Num dia normal, a experiência de entrar na Basílica de São Pedro já é assombrosa, pela dimensão da igreja, pela beleza da arquitetura ou pelo encontro imediato com a Pietà, de Miguel Ângelo. Por estes dias, é ainda mais. É possível escutar o silêncio no interior da basílica esmagadora: o burburinho ligeiro de uma multidão que se move lentamente, entrecortado com o som do órgão e do coro durante os momentos em que decorrem missas nas capelas da basílica. Numa visita à basílica, na tarde desta quarta-feira, o Observador pôde testemunhar a solenidade dos peregrinos no interior da igreja e, especialmente, no brevíssimo momento em que passam (sem parar, por ordem dos funcionários e da polícia) junto do Papa.
Funeral simples e com segurança apertada
Há quem chore abertamente, há quem se ajoelhe em oração, há quem se agarre com devoção às pequenas pagelas com a cara de Francisco que ali são distribuídas. Alguns levam ramos de flores, outros fazem videochamadas para mostrar o momento a quem está longe. Nos últimos metros da fila, é possível ver dezenas de telemóveis erguidos, nas mãos de peregrinos que procuram tirar uma última fotografia ao corpo do Papa, preservado com compostos químicos para adiar artificialmente o processo de decomposição e permitir o velório durante vários dias — segundo as normas da Igreja, o funeral do pontífice deve acontecer entre o quarto e o sexto dia depois da morte.
Francisco nunca escondeu que pretendia um funeral tão simples quanto possível. Muitos dos elementos tradicionais, como a exposição do corpo num catafalco, foram abandonados: Francisco quis ser velado já dentro de um caixão, como as restantes pessoas. Também não será sepultado dentro de três caixões, como habitualmente, mas apenas num caixão de madeira simples. Apesar da simplicidade, porém, o velório de Francisco decorre com a pompa própria do cargo que desempenhava. Em torno do caixão, quatro elementos da Guarda Suíça, em sentido, de uniforme de cerimónia, cumprem a missão de proteger o Papa até ao último momento.
No exterior, enquanto a fila continua a avançar lentamente, decorrem já os trabalhos de preparação para o funeral, com a montagem da estrutura onde estará o altar e da plataforma onde será colocado o caixão de Francisco durante a missa exequial, presidida pelo decano do Colégio Cardinalício, o cardeal italiano Giovanni Battista Re. As autoridades italianas estimam que poderão estar presentes cerca de 200 mil pessoas no funeral, que contará também com a presença de mais de 150 delegações internacionais, incluindo Donald Trump, Volodymyr Zelensky ou o príncipe William.
A imprensa italiana dá conta de que a operação de segurança que está a ser montada pela polícia e pelo exército inclui sistemas de defesa área, drones, aviões de patrulha, uma zona de interdição aérea, milhares de agentes nas ruas e a mobilização de equipas anti-terrorismo.