Ainda que a Índia garanta que a ação militar levada a cabo contra “alvos terroristas” esta terça-feira “não é propícia à escalada” de tensão na região, a confirmação de que as forças armadas de Nova Deli atacaram nove locais no Paquistão e em Jamu e Caxemira, territórios ocupados pelos paquistaneses, representa um novo capítulo nos mais recentes problemas entre ambos os países, duas potências nucleares. A “Operação Sindoor”, assim foi batizada, tem origem num atentado que matou 26 pessoas a tiro, a 22 de abril, na cidade turística de Pahalgam, na Caxemira indiana.
Esta terça-feira, pelo menos oito paquistaneses terão sido mortos nesta ação militar, que fez ainda 25 feridos e 2 desaparecidos, informou o porta-voz militar do Paquistão, citado pela Reuters.
Em retaliação, a força aérea paquistanesa terá já abatido dois aviões e um drone indianos, disse à mesma agência o ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Muhammad Asif, que declarou ainda que todos os alvos atingidos pelo país vizinho são locais civis e que a alegação da Índia de que “apontou a campos de terroristas” é falsa.
O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, escreveu no X que “está a ser dada uma resposta vigorosa” depois de o “inimigo astuto ter levado a cabo ataques cobardes em cinco locais no Paquistão”. O Comité de Segurança Nacional do Paquistão, um órgão convocado apenas para situações extremas, reúne-se esta quarta-feira manhã (06h00 em Lisboa).
The treacherous enemy has launched a cowardly attack on five locations within Pakistan. This heinous act of aggression will not go unpunished.
Pakistan reserves the absolute right to respond decisively to this unprovoked Indian attack — a resolute response is already underway.…— Shehbaz Sharif (@CMShehbaz) May 6, 2025
“A nação paquistanesa e as forças armadas paquistanesas sabem como lidar com o inimigo. Nunca permitiremos que o inimigo tenha êxito nos seus objetivos nefastos”, acrescentou Sharif.
Além disso, o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Paquistão afirmou, citado pela Reuters, que a força aérea indiana “violou a soberania do Paquistão ao usar armas de ataque à distância”.
▲ Militares isolam uma rua perto do local de um ataque em Muzaffarabad, a capital da Caxemira administrada pelo Paquistão
AFP via Getty Images
Logo após o ataque, em comunicado, citado pelo The Guardian, as forças militares de Nova Deli confirmaram ter atacado as “infraestruturas terroristas” onde consideram terem sido “planeados e de onde partiram ataques terroristas contra a Índia”. “As nossas ações têm sido orientadas, ponderadas e não propícias à escalada. A Índia demonstrou considerável moderação na seleção de alvos e métodos de execução”, lê-se no mesmo comunicado, no qual se sublinha que “não foram visadas quaisquer instalações militares paquistanesas”.
BREAKING:
First video of Indian missiles striking Pakistan.
This missile struck a mosque in Bahawalpur belonging to Maulana Masood Azhar
He’s the founder & leader of the Islamist terrorist organization Jaish-e-Mohammed (JeM) which is mainly focused on attacks in Indian Kashmir pic.twitter.com/IC7iJTXHEq
— Visegrád 24 (@visegrad24) May 6, 2025
Já na rede social X, as forças militares indianas anunciaram o sucesso da operação, escrevendo que “foi feita justiça” e que a Índia vencerá. Os oficiais da Defesa indiana afirmaram, entretanto, que ativaram todas as unidades de defesa aérea ao longo da fronteira Índia-Paquistão para fazer face a qualquer eventualidade após os ataques indianos no Paquistão. Já os aeroportos de Lahore e Sialkot, no Paquistão, foram fechados pelas próximas 48 horas, avança o India Today.
Justice is Served.
Jai Hind! pic.twitter.com/Aruatj6OfA
— ADG PI – INDIAN ARMY (@adgpi) May 6, 2025
O conselheiro de segurança nacional da Índia, Ajit Doval, informou o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, logo após os ataques de Nova Deli ao Paquistão, revelou a embaixada indiana em Washington.
“As ações da Índia foram direcionadas e precisas”, garantiu a embaixada em comunicado, acrescentando que Marco Rubio, também conselheiro interino de segurança nacional, foi informado “sobre as ações tomadas”.
Reporter: Any reaction to the attacks between India and Pakistan?
Trump: It's a shame. We just heard about it as we were walking in the doors of the oval. Just heard about it. I guess people knew something was going to happen based on a little bit of the past. They've been… pic.twitter.com/lGfWsEZNuL
— Acyn (@Acyn) May 6, 2025
O presidente dos EUA, Donald Trump, já reagiu à ação militar. “É uma pena. Acabámos de saber quando entrámos pela porta da Sala Oval. Acabámos de saber”, disse Trump quando lhe foi pedido que comentasse a operação militar lançada pela Índia no Paquistão, citado pelo Times of India. “Acho que as pessoas sabiam que algo ia acontecer, com base no passado”, acrescentou o presidente norte-americano.
“Eles [Índia e Paquistão] têm lutado por um longo período de tempo, por décadas, por séculos na verdade. Espero que tudo termine muito rapidamente”, apelou.
▲ Residentes saem das suas casas em Muzaffarabad
AFP via Getty Images
“Mundo não consegue suportar um confronto militar entre a Índia e o Paquistão”, avisa Guterres
O secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, confessou estar “muito preocupado” com as operações militares da Índia na fronteira com o Paquistão e apelou à máxima contenção de ambos os países.
“O secretário-geral está muito preocupado com as operações militares indianas na Linha de Controlo e na fronteira internacional”, indicou aos jornalistas o porta-voz de Guterres, Stéphane Dujarric.
Pesado ataque indiano com mísseis contra a cidade de Bahawalpur, no Paquistão. pic.twitter.com/BTFf0bubDk
— Hoje no Mundo Militar (@hoje_no) May 6, 2025
“O mundo não consegue suportar um confronto militar entre a Índia e o Paquistão”, concluiu em comunicado Guterres. Na segunda-feira, o secretário-geral já tinha oferecido à Índia e ao Paquistão os seus “bons ofícios ao serviço da paz” e garantiu que as Nações Unidas estavam prontas para apoiar qualquer iniciativa para reduzir as tensões entre os dois países. “É essencial – especialmente nesta hora crítica – que a Índia e o Paquistão evitem um confronto militar que poderia facilmente ficar fora de controlo”, escreveu no X.
Tensions between India and Pakistan are at their highest in years.
I strongly condemn the awful terror attack in Pahalgam on 22 April.
It is essential – especially at this critical hour – that India and Pakistan avoid a military confrontation that could easily spin out of…
— António Guterres (@antonioguterres) May 5, 2025
“Agora é o momento de máxima contenção e de recuar do abismo. Essa tem sido a minha mensagem no contacto contínuo que tenho mantido com ambos os países”, afirmou ainda líder na ONU na segunda-feira, numa declaração à imprensa, em Nova Iorque.
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O atentado de 22 de abril e a responsabilidade negada
A tensão entre os dois países voltou a disparar desde o ataque de 22 de abril — apesar de o atentado não ter sido reivindicado, Nova Deli acusou da sua autoria Islamabad, que o negou categoricamente. Este ataque foi o mais mortífero contra civis desde há mais de 20 anos na parte indiana daquela região de maioria muçulmana.
A polícia indiana diz estar à procura de pelo menos dois cidadãos paquistaneses entre os atacantes e os seus cúmplices, e diz que estão ligados ao LeT, o movimento jihadista Lashkar-e-Taiba, sediado no Paquistão, já suspeito dos ataques que mataram 166 pessoas em Bombaim em 2008.
Um dos locais visados durante a noite pelo exército indiano foi a Mesquita Subhan, em Bahawalpur, no Punjab paquistanês, que, de acordo com os serviços de informação indianos, está ligada a grupos próximos do LeT, principalmente o Jaish-e-Mohammed (JeM).
No final de abril, a Índia suspendeu o tratado de distribuição de água entre os dois países e o Paquistão encerrou o seu espaço aéreo a companhias aéreas indianas. Antes disso a Índia já tinha ordenado a saída do país de todos os paquistaneses até 29 de abril. Há mais de uma semana que se regista fogo cruzado de artilharia ligeira entre soldados indianos e paquistaneses durante a noite, ao longo da fronteira que separa os dois países.
Esta terça-feira, horas antes do ataque, o Paquistão acusou a Índia de alterar o caudal do rio Chenab, um dos três rios sob o controlo de Islamabad ao abrigo do tratado de 1960. “Notámos alterações no Chenab que nada têm de natural (…) o caudal do rio, que é normal, foi consideravelmente reduzido de um dia para o outro”, declarou o ministro da Irrigação do Punjab, Kazim Pirzada.
O primeiro-ministro indiano assumiu então que o seu país vai “cortar a água” dos rios que correm do seu território para o Paquistão. “A água pertencente à Índia costumava fluir para o exterior, mas agora será cortada para servir os interesses da Índia e será utilizada para o país“, anunciou Modi num discurso público.