Mais de metade da lição estava aprendida. Depois de uma temporada em que voltou a ganhar tudo no plano nacional, como poderá acontecer de novo esta época em caso de triunfo na final da Taça de França diante do Reims, o PSG centrou atenções na Liga dos Campeões. Não teve uma fase de grupos fácil, com o apuramento a chegar apenas na derradeira jornada e numa posição que deixava a equipa à mercê das principais equipas, não falhou na altura das eliminatórias. Mais do que isso, corrigiu o que fizera mal em 2023/24, da eficácia que faltou em Dortmund na primeira mão das meias-finais à capacidade de gerir os vários momentos do jogo como não aconteceu na segunda partida em Paris. Agora, estava apenas a 90 minutos da decisão.

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Ainda na ressaca de mais um hino ao futebol em Milão, com o Inter a afastar o Barcelona num encontro épico com sete golos e duas reviravoltas que só foi decidido no prolongamento, PSG e Arsenal procuravam chegar a mais uma final europeia para tentarem inscrever pela primeira vez o nome nos vencedores da Champions. O mais “difícil” estava feito: os franceses eliminaram o Brest, o Liverpool (perdendo em casa na primeira mão) e o Aston Villa, os ingleses afastaram o PSV e o todo poderoso Real Madrid. Era quase como se chegar a esta fase da competição de nada valesse perante os obstáculos já contornados caso não significassem no final uma ida à decisão. No entanto, apenas um de dois treinadores espanhóis poderia alcançar esse objetivo.

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“Tudo é relativamente simples. Hoje falámos sobre coisas em que podíamos melhorar no ataque e na defesa e pudemos treinar essas áreas. Estamos aqui graças a todo o trabalho que foi feito e vamos tentar aproveitar o que aconteceu antes, durante e depois do jogo. Estamos aqui porque merecemos estar, vencemos o primeiro jogo. Há muitas chaves possíveis mas penso que temos de demonstrar a confiança que os adeptos nos têm dado, em termos de esforço e inteligência emocional. Vai haver detalhes que podemos controlar e vamos ter de nos manter fiéis às ideias que tivemos até agora. Objetivos? Todos os treinadores têm impacto nos jogadores e equipas. Em cada clube, tento trazer qualidades técnicas e individuais. Desde a última época que a equipa tem recebido muitos elogios e essa era uma das minhas metas: oferecer aos adeptos uma forma atrativa de jogar, como se fossem ao cinema ou a um espetáculo”, comentara Luis Enrique antes do jogo.

“No futebol vamos ser recordados por estes momentos. As fases mais importantes são aquelas em que a equipa e o clube precisam, para proporcionar esses momentos e jogar com essa mentalidade. Este tipo de jogo é, na minha opinião, o mais correto, e foi esse o trabalho que fizemos nos últimos dias. Há enorme entusiasmo e energia. Estamos numa das cidades mais bonitas do mundo contra um grande adversário, não há nada melhor do que isso. Estamos aqui para fazer história. Temos uma grande oportunidade para o fazer. Precisamos de fazer muitas das coisas que fizemos na primeira mão em Londres mas melhor e de forma mais consistente. Somos mais do que capazes”, destacara Mikel Arteta, longe de dar a eliminatória como definida. Em parte, tinha razão. No entanto, e à semelhança do que tinha acontecido na primeira mão, o Arsenal não soube materializar os períodos em que foi melhor, acabando por ceder frente a um coletivo melhor e que teve em João Neves o expoente máximo na noite em que o médio se tornou o jogador com mais tackles numa só edição da Liga dos Campeões (57) desde Gennaro Gattuso na longínqua temporada de 2007/08 (59).

Os gunners entraram com tudo mas a pólvora foi sempre seca, fosse pela mira desafinada, fosse pelo mérito de um guardião que consegue ganhar jogos sozinho por intervenções impossíveis. O encontro tinha apenas Arsenal em campo, com o PSG perdido sem bola e a ver Declan Rice deixar a primeira ameaça de cabeça na área logo no terceiro minuto antes da intervenção monstruosa de Donnarumma a desviar in extremis um remate de Ödegaard para canto (8′). Mikel Arteta aplaudia a interpretação tática que os jogadores faziam da partida no Parque dos Príncipes mas, de forma paulatina, os franceses começavam a ter mais jogo a passar pelos pés de Vitinha de João Neves, o que serenou os ânimos e recolocou o foco naquilo que mais convinha aos seus interesses como acontecera em Londres. Estava dado o mote para uma viragem completa na partida.

Khvicha Kvaratskhelia, em mais uma arrancada a justificar todo o investimento feito no mercado de inverno, criou a primeira grande oportunidade para o PSG, vendo o remate bater no poste da baliza de David Raya (17′). O Arsenal acusava essa falta de eficácia nos 15 minutos iniciais e começava a deixar mais espaços para o georgiano, Doué e Barcola explorarem a profundidade nas costas da defesa, como voltou a acontecer pouco depois numa jogada em que Doué rematou fraco em boa posição (23′). Os franceses estavam por cima e chegaram mesmo ao golo inaugural por Fabián Ruíz, numa “bomba” de pé esquerdo sem hipóteses para o guarda-redes dos londrinos (27′). A vantagem estava ainda mais reforçada e, com os erros defensivos dos visitantes a multiplicarem-se, o 2-0 esteve por mais do que uma vez à vista, com Raya a segurar a equipa.

A segunda parte manteve a mesma toada, com Vitinha a ter um momento de show como se estivesse na rua a jogar com amigos onde fintou três adversários na área em cima da linha antes do cruzamento que não teve depois conclusão (56′). Ainda assim, e como era esperado, o Arsenal foi subindo linhas para procurar algo mais da partida e da eliminatória, ficando mais exposto às transições mas tendo mais presença em zonas de finalização, como aconteceu num lance em que Donnarumma fez outra parada impossível a remate de Saka (63′) antes de o VAR chamar o árbitro Felix Zwayer para assinalar uma mão de Timber na área. Vitinha, com a maior calma do mundo, agarrou na bola, olhou para David Raya mas permitiu a defesa (68′).

Mesmo não dando golo, esse foi o momento que mostrou e definiu o que é este PSG: sem qualquer sinal de quebra anímica pelo penálti falhado, os franceses mantiveram a concentração sem bola, continuaram a tentar fazer saídas rápidas para aproveitar o maior balanceamento dos ingleses e chegaram mesmo ao 2-0 por Hakimi, com Dembélé a assistir o lateral na área após cruzamento de Kvaratskhelia para o remate de pé esquerdo sem hipóteses para Raya (72′). Tudo parecia terminado, tudo voltaria a ganhar outra vida depois do golo de Saka logo a seguir (76′) que por pouco não chegou com o empate em mais uma grande oportunidade falhada pelo inglês (79′), tudo terminaria com o PSG a chegar pela segunda vez à final da Liga dos Campeões naquele que é o maior prémio à melhor construção coletiva do técnico espanhol Luis Enrique num clube.