Representantes da administração de Donald Trump estiveram reunidos com membros do atual Executivo de Lula da Silva esta terça-feira, mas não antes de se terem encontrado com o antigo Presidente Jair Bolsonaro. Destas discussões terão surgido vários temas, mas o mais marcante foi o levantamento da hipótese de acrescentar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), as maiores organizações criminosas do Brasil, à lista de grupos terroristas dos Estados Unidos da América (EUA). O governo brasileiro diz que não, mas o governante anterior, com uma maior proximidade aos elementos da Casa Branca, poderá ter uma opinião diferente.
O conselheiro do Departamento de Estado dos EUA para o Hemisfério Sul, Ricardo Pita, esteve com Bolsonaro durante “quase duas horas” esta segunda-feira, numa conversa “bastante reservada”, como relata o ex-líder do governo brasileiro. “O que eu sinto e sempre senti no governo Trump, quando éramos presidentes juntos, é que ele não queria que o Brasil trilhasse o caminho da Venezuela, mas não é isso que está acontecendo. E ele sabe hoje em dia o que acontece no Brasil, ele sabe do meu processo”, afirmou Bolsonaro, citado pela CNN Brasil.
A comparação com a Venezuela não surge unicamente pela proximidade geográfica. Nos EUA, Donald Trump assinou, logo nos seus primeiros momentos de volta a Washington, assinou uma ordem executiva para acrescentar os gangues MS-13 (El Salvador) e Tren de Aragua (Venezuela) à lista de organizações terroristas estrangeiras. É a primeira vez que grupos de crime organizado, sem um objetivo religioso ou político associado, são acrescentados a esta lista.
A presença no registo de organizações terroristas estrangeiras, segundo os critérios dos EUA, apesar de não conceder o direito de levar a cabo operações militares nos respetivos países para mitigar a sua presença, poderá significar um aumento dos recursos disponíveis, tanto ao nível da Defesa como dos Serviços Secretos, para combater a sua propagação em solo americano. Ao mesmo tempo, com uma maior atenção dedicada às interações com membros destes coletivos, uma pessoa que tenha prestado qualquer tipo de apoio a uma organização selecionada passa a ser considerada um “apoiante de terrorismo”, facilitando um potencial processo de deportação ou detenção.
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Assim, esta discussão em torno do Comando Vermelho e do PCC, proposta pela delegação norte-americana mas rejeitada pelo Ministério da Justiça brasileiro esta quarta-feira, surge, também, na sequência do encontro com Jair e Flávio Bolsonaro, no dia anterior. De acordo com a CNN Brasil, o senador e filho do antigo Presidente terá entregue aos oficiais dos EUA um “dossier que relaciona a atividade do CV e PCC ao terrorismo”.
No entanto, segundo a mesma fonte, os brasileiros explicaram que a atividade destes mesmos grupos não “envolve crime de ódio ou religioso”, mas sim a “obtenção de lucro por meio do tráfico de armas e drogas”, não cumprindo os requisitos necessários para se enquadrar no conceito de organização terrorista definido pela legislação do Brasil. Com esta rejeição, muito dificilmente o Pentágono tem a possibilidade de iniciar uma ofensiva militar para tentar acabar com as operações destas duas organizações criminosas. Contudo, Trump e a restante administração norte-americana não precisam do consentimento de Lula para as acrescentar à sua própria lista de organizações terroristas estrangeiras.