Na missa inaugural do seu pontificado, perante uma Praça de São Pedro com 250 mil fiéis e líderes mundiais como JD Vance e Volodymyr Zelensky, o Papa Leão XIV pediu este domingo que a Igreja Católica esteja “unida” e, dessa forma, possa ser “fermento para um mundo reconciliado”.

“No nosso tempo, ainda vemos demasiada discórdia, demasiadas feridas causadas pelo ódio, a violência, os preconceitos, o medo do diferente, por um paradigma económico que explora os recursos da Terra e marginaliza os mais pobres. E nós queremos ser, dentro desta massa, um pequeno fermento de unidade, comunhão e fraternidade”, afirmou Leão XIV na homilia da missa, durante a qual recebeu das mãos dos cardeais que o elegeram o anel do pescador e o pálio, dois elementos que simbolizam a jurisdição do Papa sobre toda a Igreja.

Leão XIV fez da “unidade” o grande tema da homilia, intervenção que era bastante aguardada por quem queria perceber as principais linhas programáticas do que virá a ser pontificado de Robert Francis Prevost, o primeiro Papa oriundo dos Estados Unidos, eleito no dia 8 de maio para suceder ao Papa Francisco na liderança da Igreja Católica.

Depois do pontificado de Francisco, marcado por um forte ímpeto reformista que, em alguns momentos, expôs alguma polarização dentro da Igreja Católica — entre a ala que apoiou as reformas de Francisco (comummente classificada como progressista) e a ala que lhes resistiu, sobretudo nos momentos em que o pontífice tocou em assuntos como a moral sexual e familiar —, Leão XIV herdou uma Igreja dividida que é também reflexo do mundo de hoje, marcado pelo acumular de conflitos armados, pelo aumento da pobreza e pelo crescimento do autoritarismo.

Durante os dias que antecederam o conclave que elegeu o sucessor de Francisco, a “unidade” foi um dos temas centrais, sobretudo entre os elementos da ala habitualmente classificada como conservadora, que viram no pontificado de Francisco — que quis uma Igreja aberta a todos, que trouxe os leigos para os processos de tomada de decisão que habitualmente eram território do clero e que abriu debates sobre temas tabu como a ordenação de mulheres ou a relação da Igreja com as pessoas LGBT — um motor da desunião dentro da Igreja.

Desde o momento em que foi eleito, o Papa Leão XIV afirmou-se como um pacificador. A paz foi a sua primeira palavra na varanda da Basílica de São Pedro, no momento da eleição. No encontro que teve com os cardeais no dia seguinte, assumiu-se como um continuador do pontificado do Papa Francisco, mas também de toda a linha da Igreja do século XX, iniciada com o Concílio Vaticano II (1962-1965). A escolha do seu nome, em memória de Leão XIII, considerado o pai da Doutrina Social da Igreja, carregou consigo também um programa: a necessidade de uma proposta social atualizada para o mundo de hoje, que passa agora por transformações tão radicais como as da viragem do século XIX para o século XX.

Este domingo, Leão XIV vincou claramente o seu programa para a Igreja Católica dos próximos anos: só uma Igreja unida poderá contribuir com o seu exemplo para pacificar um mundo desunido.

“Este é o espírito missionário que nos deve animar, sem nos fecharmos no nosso pequeno grupo nem nos sentirmos superiores ao mundo; somos chamados a oferecer a todos o amor de Deus, para que se realize aquela unidade que não anula as diferenças, mas valoriza a história pessoal de cada um e a cultura social e religiosa de cada povo”, disse o Papa, logo após sublinhar que a Igreja tem de “dizer ao mundo, com humildade e alegria”, que olhe para o exemplo de Jesus Cristo e que contribua para construir “um mundo novo onde reine a paz”.

Três grandes referências estiveram presentes na intervenção de Leão XIV: o Papa Francisco (cuja memória arrancou um fortíssimo aplauso à multidão presente em Roma), Santo Agostinho (Leão XIV é o primeiro frade agostinho a tornar-se Papa) e o Papa Leão XIII (inspirador do nome escolhido pelo novo Papa).

Leão XIV citou até a encíclica Rerum Novarum, encíclica publicada por Leão XIII em 1891, sobre a condição dos operários, um documento amplamente considerado como fundacional para a Doutrina Social da Igreja e para a proposta da Igreja Católica para o mundo do trabalho — sobretudo marcado pelas fortes transformações da revolução industrial e do início do século XX: “Irmãos, irmãs, esta é a hora do amor! A caridade de Deus, que faz de nós irmãos, é o coração do Evangelho e, com o meu predecessor Leão XIII, podemos hoje perguntar-nos: ‘Não se veria em breve prazo estabelecer-se a pacificação, se estes ensinamentos pudessem vir a prevalecer nas sociedades?'”

“Com a luz e a força do Espírito Santo, construamos uma Igreja fundada no amor de Deus e sinal de unidade, uma Igreja missionária, que abre os braços ao mundo, que anuncia a Palavra, que se deixa inquietar pela história e que se torna fermento de concórdia para a humanidade”, disse Leão XIV. A Rerum Novarum, já várias vezes evocada nos últimos dias, será seguramente uma importante chave de leitura para compreender o pontificado de Leão XIV e a sua abordagem às transformações dos dias de hoje: num encontro com os cardeais, o Papa alertava para a necessidade de não esquecer os desafios e as potencialidades da inteligência artificial, por exemplo. Esta semana, o portal de notícias do Vaticano projetava a possibilidade de uma “Rerum Digitalium“, um pensamento social para as transformações do mundo digital.

“Ir ao encontro das interrogações, das inquietações e dos desafios de hoje”

Logo no início da homilia, Leão XIV começou por recordar os “tempos particularmente intensos” que se viveram no Vaticano nos últimos dias. “A morte do Papa Francisco encheu os nossos corações de tristeza e, naquelas horas difíceis, sentimo-nos como as multidões que o Evangelho diz serem ‘como ovelhas sem pastor'”, disse o Papa, perante os fortes aplausos dos fiéis ao nome do pontífice argentino.

“No entanto, precisamente no dia de Páscoa, recebemos a sua última bênção e, à luz da ressurreição, enfrentámos este momento na certeza de que o Senhor nunca abandona o seu povo, mas congrega-o quando se dispersa e guarda-o ‘como o pastor ao seu rebanho'”, afirmou Leão XIV.

“Neste espírito de fé, o Colégio Cardinalício reuniu-se para o Conclave”, lembrou. “Chegando com histórias diferentes e a partir de caminhos diversos, colocámos nas mãos de Deus o desejo de eleger o novo sucessor de Pedro, o Bispo de Roma, um pastor capaz de guardar o rico património da fé cristã e, ao mesmo tempo, de olhar para longe, para ir ao encontro das interrogações, das inquietações e dos desafios de hoje. Acompanhados pela vossa oração, sentimos a ação do Espírito Santo, que soube harmonizar os diferentes instrumentos musicais e fez vibrar as cordas do nosso coração numa única melodia.”

Com esta frase, Leão XIV voltou a sublinhar a sua intenção de construir pontes numa Igreja dividida, falando tanto aos que colocam o enfoque no “guardar o rico património da fé cristã” como aos que pedem insistentemente que a Igreja olhe “para longe” e para os “desafios de hoje”.

“Fui escolhido sem qualquer mérito e, com temor e tremor, venho até vós como um irmão que deseja fazer-se servo da vossa fé e da vossa alegria, percorrendo convosco o caminho do amor de Deus, que nos quer a todos unidos numa única família”, disse Leão XIV, lembrando que o “amor” e a “unidade” são “as duas dimensões da missão que Jesus confiou a Pedro”.

A partir das leituras ouvidas na missa inaugural, todas sobre a figura do apóstolo São Pedro — o primeiro Papa da Igreja —, Leão XIV lembrou como o pescador Pedro e outros discípulos foram chamados por Jesus para se tornarem  “pescadores de homens”.

“Agora, a ressurreição, cabe-lhes precisamente a eles levar em frente esta missão, lançar sempre e novamente a rede imergindo nas águas do mundo a esperança do Evangelho, e navegar no mar da vida para que todos se possam reencontrar no abraço de Deus”, disse Leão XIV. “Como pode Pedro levar adiante essa tarefa? O Evangelho diz-nos que isso só é possível porque ele experimentou na própria vida o amor infinito e incondicional de Deus, mesmo na hora do fracasso e da negação. Por isso, quando Jesus se dirige a Pedro, o Evangelho usa o verbo grego agapao, que se refere ao amor que Deus tem por nós, à sua entrega sem reservas nem cálculos, diferente do usado na resposta de Pedro, que descreve o amor de amizade que cultivamos entre nós.”

“A Pedro, portanto, é confiada a tarefa de ‘amar mais’ e dar a sua vida pelo rebanho. O ministério de Pedro é marcado precisamente por este amor oblativo, porque a Igreja de Roma preside na caridade e a sua verdadeira autoridade é a caridade de Cristo. Não se trata nunca de capturar os outros com a prepotência, com a propaganda religiosa ou com os meios do poder, mas trata-se sempre e apenas de amar como fez Jesus”, acrescentou ainda Leão XIV, que citou Santo Agostinho duas vezes, incluindo para dizer que “a Igreja é constituída por todos aqueles que mantêm a concórdia com os irmãos e que amam o próximo”.

Papa recebeu pálio e anel do pescador

A missa deste domingo inaugurou formalmente o pontificado de Leão XIV — e, nesse sentido, foi uma celebração carregada de simbolismo. Apesar de ter decorrido na Praça de São Pedro, a celebração começou dentro da basílica, concretamente junto ao túmulo de São Pedro, onde Leão XIV e os patriarcas das igrejas católicas orientais rezaram em silêncio.

Dali, a procissão seguiu para a Praça de São Pedro, com dois elementos em grande destaque: o anel do pescador e o pálio, que foram entregues a Leão XIV no decorrer da celebração.

O anel episcopal é uma das insígnias centrais usadas pelos bispos de todo o mundo, representando a sua jurisdição como sucessor dos apóstolos. No caso do Papa, bispo de Roma, este anel tem um sentido particular: é o anel do pescador, lembrando o apóstolo São Pedro, pescador que deixou tudo para seguir Jesus Cristo. O anel de Leão XIV tem a imagem de São Pedro, as chaves e a rede de pesca.

Já o pálio, uma faixa de lã branca com várias cruzes, é um dos mais significativos símbolos da jurisdição papal. Simboliza o bispo de Roma como “bom pastor”, com o cordeiro aos ombros, mas representa também Jesus Cristo como o cordeiro de Deus, sacrificado para a salvação da humanidade. A lã aos ombros do Papa representa a ovelha perdida, doente ou fraca que o pastor carrega em ombros.

O pálio é usado pelos arcebispos metropolitas. Até Bento XVI, era comum que o pálio dos arcebispos se distinguisse do pálio do Papa por dois elementos: no caso do Papa, as cruzes eram vermelhas, enquanto no dos arcebispos eram pretas. No pálio do Papa, três chaves estão estão colocadas nas cruzes. Francisco optou por usar um pálio semelhante ao dos arcebispos, com cruzes pretas, algo que Leão XIV vai fazer também.

▲ O anel do pescador e o pálio, em imagens divulgadas pelo Vaticano

Depois da imposição do anel e do pálio, viveu-se um momento simbólico de obediência ao Papa, em que doze pessoas se aproximaram de Leão XIV para lhe jurar obediência em nome de toda a Igreja: os cardeais Frank Leo (Canadá), Jaime Spengler (Brasil) e John Ribat (Papua Nova Guiné), o bispo Luis Alberto Barrera (Callao, Peru), o padre Guillermo Inca Pereda, o diácono Teodoro Mandato, a irmã Oonah O’Shea, presidente da União Internacional das Superioras Gerais, o padre Arturo Sosa, presidente da União Internacional dos Superiores Gerais, o casal Rafael Santa Maria e Ana María Olguín e os jovens Josemaria Diaz e Sheyla Cruz.

Líderes mundiais presentes na celebração

Estiveram este domingo no Vaticano mais de 150 delegações internacionais para testemunharem o início do pontificado de Leão XIV.

Em representação dos Estados Unidos, país de nascimento de Robert Prevost, esteve o vice-presidente JD Vance. O Peru, onde Prevost passou grande parte da sua vida como bispo e missionário, foi representado pela Presidente, Dina Boluarte.

5 fotos

A missa inaugural colocou no mesmo espaço físico representantes de países envolvidos nos principais conflitos armados atualmente em curso. Volodymyr Zelensky, o Presidente da Ucrânia, também esteve presente — e o Vaticano anunciou uma audiência privada entre Leão XIV e Zelensky no final da missa. Por outro lado, a Rússia esteve representada apenas pela ministra da Cultura, Olga Liubimova.

Israel esteve representado ao mais alto nível pelo Presidente, Isaac Herzog, enquanto a Autoridade Palestiniana esteve representada pelos ministros Ramzi Khouri (Assuntos Religiosos) e Varsen Aghabekian (Negócios Estrangeiros). Outras figuras de relevo incluíram o Rei Felipe de Espanha, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o chanceler alemão, Friedrich Merz.

Portugal esteve representado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel.