O Papa Leão XIV, eleito na quinta-feira como sucessor de Francisco na liderança da Igreja Católica, assumiu-se este sábado como continuador da linha reformista que a Igreja tem percorrido nas últimas décadas, iniciada com as transformações implementadas pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e impulsionada nos últimos anos pelo pontificado do Papa Francisco, cuja “herança” Robert Francis Prevost quer acolher e continuar.
Num encontro no Vaticano ao final desta manhã em que quis ouvir conselhos e sugestões dos cardeais (incluindo aqueles que, por terem mais de 80 anos, não votaram no conclave), o primeiro Papa oriundo dos Estados Unidos evocou várias vezes o Papa Francisco, seu antecessor, como uma das grandes referências do pontificado que agora se inicia — chegando mesmo a sintetizar o caminho que quer que a Igreja percorra recorrendo às palavras de Francisco na exortação apostólica Evangelii Gaudium, o grande documento programático publicado pelo pontífice argentino em 2013.
“O Papa, começando por São Pedro até mim, seu indigno Sucessor, é um humilde servo de Deus e dos irmãos, nada mais do que isso. Demonstram-no bem os exemplos de tantos dos meus Predecessores, o último dos quais o próprio Papa Francisco, com o seu estilo de total dedicação ao serviço e sobriedade essencial na vida, de abandono em Deus no tempo da missão e de serena confiança no momento da partida para a Casa do Pai”, afirmou o Papa, nascido Robert Francis Prevost. “Acolhamos esta preciosa herança e retomemos o caminho, animados pela mesma esperança que vem da fé.”
Leão XIV recordou como os últimos dias, simultaneamente tristes e alegres, permitiram aos cardeais “ver a beleza e sentir a força desta imensa comunidade, que com tanto carinho e devoção saudou e chorou o seu Pastor, acompanhando-o com a fé e a oração no momento do seu encontro definitivo com o Senhor”.
A grande afluência de peregrinos a Roma para marcarem presença no funeral de Francisco e para testemunharem a eleição do novo Papa mostrou, disse Leão XIV, “a verdadeira grandeza, que vive na variedade dos seus membros unidos à única Cabeça, que é Cristo”.
Perante os cardeais, incluindo os 133 que o elegeram por uma maioria de dois terços à quarta ronda de votos num conclave de apenas dois dias, Leão XIV revelou as suas ideias para os próximos anos da Igreja. “Gostaria que hoje renovássemos juntos a nossa plena adesão a este caminho, que a Igreja universal percorre há décadas na esteira do Concílio Vaticano II”, assinalou o Papa Prevost, referindo-se ao concílio ecuménico convocado por João XXIII e concluído já no pontificado de Paulo VI, na década de 1960, de onde emergiu grande parte das reformas que deram corpo à Igreja Católica contemporânea.
Segundo Leão XIV, o Papa Francisco “recordou e atualizou magistralmente” os conteúdos do Concílio Vaticano II na exortação epostólica Evangelii Gaudium. O novo Papa sublinhou aqueles que lhes parecem os “pontos fundamentais” desse documento programático de Francisco, incluindo “o regresso ao primado de Cristo no anúncio”, “a conversão missionária de toda a comunidade cristã”, o “crescimento na colegialidade e na sinodalidade”, “a atenção ao sensus fidei, especialmente nas suas formas mais próprias e inclusivas, como a piedade popular”, “o cuidado amoroso com os marginalizados e os excluídos” e ainda “o diálogo corajoso e confiante com o mundo contemporâneo nas suas várias componentes e realidades”.
A referência à sinodalidade é especialmente significativa: o Sínodo dos Bispos, criado na sequência do Concílio Vaticano II por Paulo VI, que quis recuperar a tradição sinodal das primeiras comunidades cristãs, foi fortemente reformado por Francisco na sua última edição, onde o direito de participação e de voto foi alargado aos leigos, incluindo homens e mulheres. Com isto, o Papa Francisco quis dar o exemplo para que todas as estruturas da Igreja, do Vaticano à mais pequena paróquia, funcionassem de forma mais sinodal, mais aberta e menos assente na hierarquia clerical rígida e piramidal. A decisão de Francisco foi amplamente aplaudida, mas também gerou anticorpos em alguns setores da Igreja — que, descontentes com a relativização da autoridade e do poder do clero, prefeririam um Papa que recuasse nesta matéria. A questão da sinodalidade foi mesmo considerada como o grande ponto decisivo no conclave que elegeu o sucessor de Francisco.
Com as suas primeiras intervenções, Leão XIV deixou claro que não vai recuar neste assunto. Logo no primeiro discurso, na varanda da Basílica de São Pedro após o Habemus Papam, o Papa norte-americano afirmou claramente: “Queremos ser uma Igreja sinodal, que caminha, que procura sempre a paz, procura sempre a caridade, estar perto especialmente dos que sofrem.”
Agora, perante os cardeais, Leão XIV voltou a reforçar o seu compromisso com a sinodalidade, alargando o seu desejo de continuidade não só ao pontificado de Francisco, mas a todo um percurso histórico que a Igreja Católica tem feito desde a viragem para o século XX. Os princípios elencados por Francisco na Evangelii Gaudium são, nas palavras de Leão XIV, os “princípios do Evangelho que sempre animaram e inspiraram a vida e o agir da Família de Deus, valores através dos quais o rosto misericordioso do Pai se revelou a continua a revelar-se no Filho feito homem, última esperança de quem procura com sinceridade a verdade, a justiça, a paz e a fraternidade”.
Prevost aproveitou também para pelar aos cardeais que sejam “ouvintes dóceis” da voz de Deus e “ministros fiéis dos seus desígnios de salvação”, lembrando-os de que “Deus gosta de se comunicar, mais do que no estrondo do trovão e do terramoto, no ‘murmúrio de uma brisa suave'”, uma expressão bíblica retirada do Primeiro Livro dos Reis.
O novo Papa explicou ainda a decisão de escolher o nome Leão XIV: “Justamente por me sentir chamado a seguir nessa linha, pensei em adotar o nome de Leão XIV. Na verdade, são várias as razões, mas a principal é porque o Papa Leão XIII, com a histórica encíclica Rerum novarum, abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial.”
De acordo com Leão XIV, o mundo passa hoje por transformações comparáveis a essa revolução industrial, nomeadamente no que diz respeito às tecnologias digitais e à inteligência artificial. Isso exige à Igreja que ofereça “a todos a riqueza da sua doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”.
Num discurso em que também citou os Paulo VI e lembrou ideias de Bento XVI, o novo Papa pediu também aos cardeais que o ajudem na sua nova missão. “Queridos cardeais, vós sois os colaboradores mais próximos do Papa, e isto é de grande conforto para mim, que aceitei um fardo claramente muito superior às minhas forças, assim como o seria para qualquer outra pessoa. A vossa presença recorda-me que o Senhor, tendo-me confiado esta missão, não me deixa sozinho a carregar tal responsabilidade”, afirmou o Papa, que também deixou um agradecimento particular a dois cardeais: Giovanni Battista Re, o decano do colégio cardinalício, que orientou o colégio nestes dias, e Kevin Joseph Farrell, camerlengo, que administrou temporariamente a vida da Santa Sé durante a sede vacante.
O cardeal norte-americano Robert Francis Prevost, nascido em Chicago e com um longo percurso missionário no Peru, foi eleito Papa na quinta-feira, tornando-se não só o primeiro Papa norte-americano, mas também o primeiro oriundo da Ordem de Santo Agostinho. Os próximos dias vão ser preenchidos com vários dos tradicionais ritos inaugurais do pontificado (incluindo a missa de inauguração a 18 de maio, uma audiência ao corpo diplomático dois dias antes, a tomada de posse das várias basílicas papais e a primeira audiência geral a 21 de maio). As intervenções de Leão XIV nessas ocasiões vão ajudar a pintar um retrato cada vez mais claro do rumo que o novo Papa pretende dar à Igreja Católica nos próximos anos.