Depois de uma semana praticamente ininterrupta de testemunho de Casandra Ventura no julgamento de Sean “Diddy” Combs, esta terça-feira, foi a sua mãe, Regina Ventura, que tomou a palavra no Tribunal Federal de Manhattan para contar a sua versão do que sabe sobre a relação que o ex-casal manteve por dez anos.

Revelou que conheceu Combs em 2006, quando Cassie, nome artístico da filha, assinou contrato com a editora discográfica Bad Boy Records detida pelo rapper. As duas distanciaram-se significativamente quando ela começou a namorar com o rapper, que está agora acusado dos os crimes de tráfico sexual, violação e ofensas à integridade física, sendo uma das principais vítimas conhecidas a própria ex-namorada. Quando a filha se mudou para a Califórnia com Combs, as poucas vezes que se viam pessoalmente diminuíram ainda mais, para uma visita anual.

Segundo a CNN, a cobrir o julgamento no tribunal nova-iorquino, Regina Ventura testemunhou que a filha lhe enviou um e-mail, a ela e a outro empregado de Combs, sob um nome falso, dizendo que Combs estava a ameaçar divulgar vídeos de sexo explícito com ela. “Não percebi muita coisa”, confessou a mãe de Cassie, que apontou este como o primeiro sinal de alerta e também a primeira vez que receou pela segurança da filha.

Por volta da mesma altura em que a Cassie lhe teria enviado este e-mail anónimo, Combs contactou Regina Ventura a exigir-lhe 20 mil dólares para “recuperar o dinheiro” que tinha gasto com Cassie, isto porque na altura, e numa das pausas da conturbada relação, Cassie estava com outro homem. Regina Ventura e o marido acabaram então por contrair um empréstimo para aquisição de habitação própria para conseguir pagar ao rapper. Nem uma semana depois, tinham o dinheiro foi devolvido na sua conta — prova dos jogos de poder e da relação tóxica que o casal vivia.

Só alguns anos mais tarde, em 2011, é que Regina Ventura teve a real perceção da violência doméstica de que a sua filha era vítima. Quando viu Cassie com marcas graves de agressão física, pediu-lhe que a deixasse fotografar. “Eu queria ter a certeza de que o estado em que ela estava lhe ficava registado na memória”, recordou em tribunal.

As imagens serviram, esta terça-feira, de prova e foram exibidas aos membros do júri que irão tomar uma decisão em relação à culpa de Sean Combs pelos crimes de que está acusado.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 1.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Antigo assistente de Combs reabastecia stock de “óleo de bebé e preservativos” para “freak-offs”

Outra das testemunhas que foi esta terça-feira ouvida em tribunal foi David James, que trabalhou como assistente de Sean Combs de 2007 a 2009. Disse nunca ter assistido pessoalmente a atos de violência entre os dois membros do casal, mas admitiu que duas das suas funções eram as de reservar quartos de hóteis para os “freak-offs” — nome que “Diddy” dava às suas festas de sexo e droga — e de abastecer os encontros de preservativos, lubrificantes e frascos de óleo de bebé.

Era instruído a não apresentar esses artigos para reembolso através da empresa de Combs, porque eram artigos que o artista “não queria registar”. James testemunhou ainda que viu “Diddy” a tomar drogas e a dá-las aos amigos mais próximos. Muitas vezes era ele próprio que as comprava.

Apesar de nunca ter sofrido violência física, o antigo assistente revelou episódios em que foi sujeito a um teste de deteção de mentiras quando artigos de luxo de Combs desapareceram e ele queria descobrir se algum funcionário o tinha roubado. Classificou estas experiências enquanto “muito intimidantes”.

Nos próximos dias espera-se que continuem a ser ouvidas várias testemunhas arroladas pela acusação que tenham pertencido ao círculo pessoal e profissional de “Diddy” e da sua ex-companheira. A procuradoria norte-americana quer provar que Cassie foi forçada e chantageada a participar nas festas sexuais do então namorado, que traficava trabalhadores sexuais para continuar a alimentar o esquema de orgias prolongadas.