André Ventura, no papel de (quase) líder da oposição, procurou mostrar-se responsável, pronto para governar logo que seja necessário, mas também jurou ser um “farol” de estabilidade e responsabilidade por considerar que, por enquanto, foi esse o papel que lhe foi atribuído nas urnas. Assumiu ainda que este resultado o coloca mais longe de uma candidatura a Belém. Na entrevista à CNN, no rescaldo das eleições legislativas, o presidente do Chega reconheceu que teve uma sensação de envenenamento quando se sentiu mal pela primeira vez, durante um jantar-comício em Tavira.

O líder do Chega assegurou que vai assumir a “responsabilidade” que o povo português lhe deu numas eleições legislativas que mudaram “o panorama político” do país e que assumiram uma “mudança profunda”, sendo que “nunca tinha acontecido que um partido destronasse um dos dois [PS ou PSD]”. Ventura garantiu que o assume com “responsabilidade” e “não com triunfalismo“.

Porém, num cenário em que a AD não tem maioria absoluta, Ventura destacou o facto de ter havido “dois partidos que provocaram a queda do Governo por suspeitas sobre o primeiro-ministro”, o PS e o Chega, sublinhando que “o povo penalizou um e valorizou outro” — uma leitura política que considera que não deve ser menosprezada. Como tal, frisou: “O PS deu a mão no PSD no Orçamento, em vários diplomas legislativos, não ajudou na luta contra a imigração e perdeu. Sem triunfalismo é preciso tirar consequências”, crente de que as pessoas mostraram que PS e PSD devem entender-se num “bloco central e de entendimento” e que “há um novo líder da oposição que tem o dever de ser alternativa”.

Ventura, segundo confirmou, disse ao Presidente da República que o Chega interpretou os resultados como tendo “um mandato para liderar a oposição”. Até porque, sublinhou, o partido arriscou, tendo em conta que, por tradição, quem derruba governos é castigado nas urnas. Contudo, reiterou que o “esteve bem” dado pelos eleitores não significa um “faça o que entender e entre numa espiral de caos”. Aos olhos de Ventura, o recado é para que “seja responsável, mas líder da oposição”. “O terceiro partido tem de perceber se dá a mão ou governo ou não. Eles entendem-se há 50 anos, porque é que não hão de entender-se agora?”, questionou, sublinhando que o Chega será o “farol da oposição” e que terá função de fiscalização.

Mais do que isso, André Ventura reiterou que “o Chega agora não pode ser só o partido que dá voz ao ressentimento“, mas também que está “preparado para governar“, demore “um ano, três anos, quatro anos”. Repetindo uma ideia que já tinha salientado durante a campanha eleitoral, o líder do Chega sublinhou que pretende apostar em “independentes, pessoas da sociedade civil com valor, pessoas com currículo nas áreas da saúde, educação e economia” — “E dizer aos portugueses que quando este Governo cair, porque os governos caem, o Chega não vai fugir à sua responsabilidade e estará cá para ser governo”, explicou, prometendo apresentar nas próximas semanas um “governo sombra“.

“As legislaturas devem demorar o tempo para que são feitas, quatro anos”, realçou, frisando que o partido faz “o que é bom para o país”, nomeadamente aprovando propostas de vários partidos e dando o exemplo das portagens. Questionado sobre o impacto financeiro das promessas eleitorais do Chega, Ventura explicou que o partido tem um cenário macroeconómico que “é o mais próximo das finanças públicas” e que é “conservador”, justificando que é na “fraude e no abuso” que se vai buscar dinheiro. Neste sentido, criticou Luís Montenegro porque “bateu o recorde em número de tachos políticos, nomeações diretas”, apontando esta como “uma das razões” pelas quais o Chega não pode apoiar o atual primeiro-ministro. “Nós temos de cortar em desperdícios”, sublinhou, atacando “o dinheiro para fundações, associações, algumas delas de ideologias de género e do diabo” e o facto de “andar metade do país a trabalhar para a outra metade”.

De resto, Ventura esclareceu: “Farol de estabilidade, sim, não embarcamos em rejeições que não têm alternativa nenhuma, porém o Governo decidiu amanhar-se com o PS toda a vida. Por que é que agora não se amanha com o PS?”, questionou, lembrando que o Chega colocou “várias dimensões” para negociar com o PSD há um ano e que os sociais-democratas não quiseram conversar.

Sobre a revisão constitucional — sugerida pela Iniciativa Liberal e que André Ventura fez questão de sublinhar que já tinha sido proposta pelo Chega — assumiu que está de acordo se implicar diminuição de deputados e reforma da justiça. “Se o PSD tiver de acordo e quiser avançar, teremos revisão constitucional, sem o PS, é preciso que não afrouxem“, realçou, rematando que é preciso “despolitizar o Estado, deixar de ter pessoas nomeadas porque têm o cartão partidário, acabar com este número de recursos ridículos na justiça”. E exemplificou ainda que se matasse uma ou várias pessoas a pena seria a mesma: “Quem comete crimes violentos tem de ser preso para a vida toda.”

Ainda sobre a questão da Spinumviva, o presidente do Chega salientou que as eleições não absolveram Luís Montenegro. “É perigoso criarmos a ideia de que as urnas absolvem ou culpabilizam“, alertou, sublinhando que “juízo tem de ser feito por tribunais”. Acrescentou que ainda não tomou uma decisão sobre uma comissão parlamentar de inquérito ao caso, desde logo depois de o Ministério Público ter pedido mais informações. “Há momentos em que um político tem de saber dizer que fez mal, esconder é que não é boa solução”, vincou o líder do Chega.

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O (ainda) tiro às sondagens

Depois de na noite eleitoral ter falado em ataques e “pactos secretos” que teriam como objetivo diminuir o Chega, André Ventura voltou a destacar as sondagens, apontando que as empresas “nunca têm responsabilidades”. “Eu alertei, a tempo, quem tinha de alertar dizendo que era má fé e tentativa de destruir, quem apresenta essas sondagens é que é responsável, que são as televisões, as rádios e os jornais”, afirmou, sugerindo que os números baixos serviam para “desmobilizar o eleitorado” do Chega.

Confrontado com o facto de o problema de saúde poder ter tido impacto, André Ventura garantiu que “já no ano passado foi a mesma coisa”, considerando impossível o partido subir de 14% para 23% em poucos dias. “Parecia que estavam a querer levar ao colo o PSD e a IL“, vincou o líder do Chega, crente de que hoje em dia “as pessoas já não se deixam enganar”. “Um dia ninguém acredita em sondagens”, atirou, reiterando a necessidade de se pedirem responsabilidades às empresas.

Prosseguiu para recuperar a narrativa de que “perdeu todos os debates”, ironizando ao dizer “o homem é uma nódoa e que vai ser um desastre”, pelo que concluiu: “O povo português saiu de casa para dizer: ou vocês mudam ou nós um dia mudamos por vocês.” Ventura realçou ainda que a comunicação tem de saber se “quer ter pessoas que representam as pessoas ou se querem ter uma bolha de pessoas iluminadas que acham que vivem num mundo qualquer que não é o nosso e não valem nada em termos de representatividade”.

No mesmo sentido, Ventura disse que viu, em televisões, comentadores a “humilhar e gozar com [o seu] estado de saúde e até [com] desvalorização pessoal” — “O meu problema não sou eu, o Chega representa 1 milhão e 300 mil pessoas”, rematou, frisando que as “estratégias mostram tentativa de humilhar e diminuir partido”.

Questionado sobre a postura que teve quando um jornalista estava a relatar o atraso na chegada à audiência com o Presidente da República, André Ventura reconheceu que se “irrita” com o facto de estar a chegar a uma “discussão fundamental sobre o futuro do país” e que o atraso seja o tema. “Houve um problema na estrada, quer que passe por cima da estrada e que voe?”, questionou, sugerindo que o mesmo não seria feito com PS ou PSD — “É o hábito de humilhar o Chega.”

Ventura acreditou que tivesse sido envenenado

Relativamente à abertura de inquérito do Ministério Público por causa de vídeos sobre ciganos, André Ventura recuperou o que se passou durante a campanha eleitoral: “Levei com cuspidelas de ciganos, morteiros que me passaram a centímetros de onde eu estava, ofensas, ataques, provocações, ameaças à minha vida em várias mensagens. Houve ciganos que me disseram ‘pela saúde dos meus filhos hei-de te matar, a ti e à tua família.” Frisou ainda que o partido está a “juntar os elementos todos” e falou com as autoridades, sendo que durante a campanha, onde o Observador comprovou que foram atiradas duas tochas em Braga (não morteiros), André Ventura confirmou que não tinha feito queixa até ao momento, justificando que não pretendia entupir a justiça.

O presidente do Chega realçou que, havendo queixas, tem de “ser feito um inquérito”, frisando que “confia na justiça”. “E estou disponível, lá estarei”, assegurou, sugerindo que essas mesmas associações “não se mexeram um centímetro para aqueles que [o] queriam agredir, matar e ofender”. “Temos 51 anos de democracia, a solução é pormos um político na prisão por não concordarmos com o que ele diz?”

Questionado sobre o primeiro momento em que teve o problema de saúde durante um jantar-comício, André Ventura assumiu, pela primeira vez, que lhe passou pela cabeça que pudesse ter sido envenenado. “Foi um dos momentos mais dramáticos da minha vida. Houve coincidência infeliz que foi ter bebido água e ter sentido enorme sensação de queimadura, não há outra explicação, interna. Naquele momento quando caí perdi o controlo de mim próprio, senti um espasmo enorme e tive a sensação de que tinha sido envenenado. Não fui, segundo tudo indica, mas tive essa sensação porque sei as ameaças que pesam sobre mim”, contou André Ventura. Referiu também que os médicos já tinham visto as imagens e “sabiam o que deviam fazer” e que percebeu imediatamente que não teria sido isso.

Ainda sobre a comunidade cigana, e questionado sobre se retiraria direitos a estes portugueses, o presidente do Chega garantiu que não o pretende fazer, acrescentando que “não faz sentido em despachos oficiais dizer que se estão a construir casas para a etnia cigana”. “Temos de construir casas para toda a gente, sejam ciganos ou não ciganos. Os ciganos não podem ter mais direitos do que os outros, quero que todos tenham os mesmos direitos e deveres. Nada me move contra a etnia cigana”, assegurou, frisando que os municípios, mais do que o poder central, “sobretudo por receio, habituaram-se a dar-lhes tudo”.

Israel ser democracia “não é uma carta branca para a violação dos direitos humanos”

Confrontado com uma imagem de uma criança durante o conflito israelo-palestiniano, em Gaza, André Ventura começou por destacar o facto de ter sido o Hamas a “desencadear” o conflito, dizendo que “houve um ataque terrorista e temos de ter a capacidade de dizer isso”. Porém, realçou que “o Chega defende que em qualquer caso o direito humanitário deve prevalecer”, frisando que quando há crianças e idosos a morrer à fome “tem de haver pressão internacional para que isto acabe”.

“Portugal deve ser claro neste sentido: o seu aliado é a única democracia da região, que não é o Hamas nem o Irão, é Israel, porém ser democracia ou não ser não pode permitir que isto aconteça. E isto diz um aliado de Israel, alguém que vê em Israel uma democracia que é importante que se alargue a todo o Médio Oriente”, explicou, salientando que “ser uma democracia não é uma carta branca para a violação dos direitos humanos, para o genocídio”.

“Por outro lado, na Europa e nos EUA não podemos fazer cedências a movimentos terroristas que maltratam as mulheres, os homossexuais, tudo o que é direitos humanos, aparentando que estamos a defender uma causa, mas na verdade estamos a defender outra”, disse, assumindo ficar “incomodado” quando vê pessoas do Bloco de Esquerda ou do PCP a “defenderem movimentos que tratam as mulheres como objetivos e que decapitam homossexuais”.