Os portugueses obtiveram mais de oito mil milhões de euros em crédito ao consumo no ano de 2024, o que é o valor mais elevado desde, pelo menos, 2010 – o ano que antecedeu a crise financeira e das dívidas soberanas europeias. A conclusão é de um estudo da ASFAC, a Associação de Instituições de Crédito Especializado, divulgado nesta quarta-feira, onde se garante que, apesar da subida do crédito, existe uma “maior disciplina financeira das famílias“.
Depois de algum abrandamento (embora sempre com crescimentos positivos) a partir de 2020, ano em que começou a pandemia de Covid-19, “as novas operações de crédito, em termos absolutos, registaram uma recuperação significativa a partir de 2022” e em 2024 “ultrapassou-se os 8 mil milhões de euros anuais em montantes concedidos – o máximo desde, pelo menos, 2010“, refere o estudo feito por dois professores da Nova SBE, Pedro Brinca e João Duarte.
O estudo, encomendado pela ASFAC, acrescenta que “desde 2015, mais de metade dos novos contratos de crédito ao consumo são concedidos por instituições com atividade especializada”, ou seja, superando a quota de crédito ao consumo concedido pelo setor bancário tradicional. “Esta transição tem vindo a consolidar-se com base num histórico de crescimento expressivo entre 2015 e 2018”, refere o estudo.
O crédito ao consumo representa hoje, em valor concedido, aproximadamente 23% do total de empréstimos concedidos a famílias, uma proporção que tem vindo a aumentar desde 2018, apesar das disrupções observadas entre 2020 e 2023. Este crescimento deve-se também à retoma da confiança económica dos consumidores, após as oscilações durante o período pandémico”, pode ler-se no estudo.
Os investigadores que assinam o estudo concluíram que “foi no período pré pandémico e no último ano que o crédito ao consumo cresceu significativamente mais do que o total de crédito concedido”. “Apesar de um abrandamento entre 2020 e 2023, a trajetória de crescimento foi sustentada, marcada por uma evolução sempre positiva, mesmo considerando as pressões sobre o rendimento disponível das famílias e o aumento gradual dos custos de financiamento”, refere o estudo.
Já depois do período a que o estudo faz referência (até final de 2024), o Banco de Portugal indicou que o crédito ao consumo atingiu em março o montante mais elevado da série (iniciada em 2013), ao superar ligeiramente os 777 milhões de euros só nesse mês. De acordo com os dados (preliminares) divulgados pelo Banco de Portugal, verificou-se um crescimento de 12,9% face ao mesmo mês do ano passado e de 5,4% face ao mês anterior (fevereiro).
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“Melhoria progressiva” na percentagem de devedores com prestações em falta
O estudo, que revela que cerca de 80% do crédito ao consumo em Portugal corresponde a crédito pessoal e crédito automóvel, assinala que a “percentagem de devedores com crédito vencido tem vindo a diminuir de forma consistente desde o pico observado durante a pandemia” – uma realidade que existe tanto no crédito ao consumo como, também, no crédito à habitação.
Esta é uma “tendência [que] é acompanhada por uma redução do rácio de crédito vencido, que pode refletir um comportamento prudente por parte dos mutuários e uma gestão eficaz do risco por parte das instituições financeiras”, diz o estudo, acrescentando que “estes dados sustentam a tese de que a recuperação económica recente tem sido acompanhada por uma maior disciplina financeira das famílias, não obstante o aumento geral dos níveis de endividamento”.
Desde 2018, a dívida total das famílias portuguesas tem vindo a aumentar em termos absolutos, atingindo novos máximos históricos em 2024. No entanto, esta subida tem sido compensada em parte pelo aumento do rendimento disponível, o que permitiu, até 2021, uma redução do rácio dívida sobre rendimento. A partir desse ponto, esse rácio tem vindo a estabilizar, situando-se ainda acima dos 100%, evidenciando um nível de endividamento estruturalmente elevado, mas relativamente sustentável à luz do contexto europeu”, afirma o estudo.
Na análise dos autores deste estudo, “Portugal mantém a tendência que já demonstrava em 2018 de aproximação progressiva à média da União Europeia no que respeita à dívida total das famílias em percentagem do rendimento disponível”, que “está agora em linha com países como Espanha e significativamente abaixo de outros como Finlândia ou Luxemburgo”.
A ASFAC representa as empresas do setor do financiamento especializado ao consumo, contando com 29 membros. Dentro desses 29 membros estão 26 associados, instituições de crédito especializadas no financiamento ao consumo, que no seu conjunto constituem a quase totalidade do mercado, além de outros três membros aderentes.