Quase 60 anos depois, uma réplica de uma estátua em tamanho real de Josef Estaline, antigo líder da União Soviética, voltou a ser exposta na estação de Taganskaya, no metro de Moscovo, tendo sido inaugurada no passado dia 15 de maio. Para a oposição, este regresso simboliza um retrocesso da memória histórica dentro da Rússia de Putin.

A remoção da original em 1966 fez parte da campanha conhecida como “destalinização” iniciada pelo sucessor Nikita Kruschev e que quis limpar a ideologia oficial da URSS da figura e do culto à personalidade de Estaline, que justificou um período de forte repressão até à morte do líder, em 1953.

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Na estátua, o antigo líder soviético está esculpido a baixo-relevo no centro, rodeado por trabalhadores e crianças que o admiram. No comunicado emitido pelo Metro de Moscovo sobre a reinstalação, o monumento “Gratidão do povo para com o líder e o comandante” tem como objetivo homenagear “a vitória na Grande Guerra Patriótica”, que cumpriu o 80.º aniversário este ano.

Para Liliya Medvedeva, uma habitante da cidade que falou ao New York Times enquanto admirava a obra, ver o seu “líder a ser restaurado” deixou-a “muito feliz”.

“Sim, houve muitos erros, mas toda a gente os comete”, acrescentou, depois de contar que estava grata por Estaline não ter mandado o seu pai para um gulag após ter sido preso durante a Segunda Guerra Mundial.

Já Kirill Frolov, que conversou com a CNN, admitiu que o antigo líder não pode ser chamado de “bom”. Porém, para ele, a escultura da estação de metro é uma homenagem a “um homem que fez mais pelo nosso país do que qualquer outra pessoa”.

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“É por isso que eu acho que isto [a escultura] é bom e que devia haver mais… Porque a geração, digamos, dos anos 2000 e posteriores, não compreende de todo quem é este monumento”, acrescentou.

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Oposição critica estátua

O partido da oposição Yabloko criticou fortemente a decisão do governo local da capital, com a secção local a afirmar em comunicado que a capital “deu um passo atrás, ignorando não só a memória histórica mas também os princípios morais de respeito pelas vítimas da repressão”.

“O regresso dos símbolos do estalinismo a Moscovo é uma cuspidela na cara da história, um ato de escárnio contra os descendentes dos reprimidos e uma vergonha” para a cidade, criticou ainda.

Ao New York Times, o militante do Yabloko Lev Shlosberg, refere que existe uma “re-estalinização progressiva” da Rússia, que “é perigosa não só para a sociedade, uma vez que justifica as maiores atrocidades governamentais da história do país, mas também para o Estado“.

Um regresso gradual

De facto, segundo o Moscow Times, este regresso da escultura ao metro não é um caso isolado, apontando que a figure de Estaline tem voltado lentamente à ribalta na Rússia desde que Putin assumiu, pela primeira vez, a Presidência do país em 2000.

O órgão independente russo Podemos Explicar, citado pelo jornal, revela que 105 dos 120 monumentos a Estaline atualmente expostos no país foram instalados durante os últimos 25 anos. Uma estátua, conta o New York Times, foi também colocada este ano na cidade ucraniana de Melitopol, na região ocupada de Zaporíjia.

A posição oficial de Vladimir Putin é ambígua. Num documentário do realizador britânico Oliver Stone, composto por quatro entrevistas feitas ao Presidente da Rússia em 2017, Putin referiu-se a Estaline como uma “figura complexa“. Afirmando reconhecer os “horrores do estalinismo”, o Presidente russo, citado pelo Washington Post, disse que “a diabolização excessiva de Estaline é uma das formas de ataque dos inimigos da Rússia“.

Estaline: um “intelectual” manchado de sangue

O Museu da História dos Gulags, inaugurado em 2001 pelo Município de Moscovo para lembrar as vítimas dos campos de trabalho criados por Estaline, foi encerrado em 2024 pelas autoridades locais, citando infrações de segurança contra incêndios como principal motivo.

Várias fontes do governo local da capital, citadas pelo Moscow Times, referem que o edifício tinha sido inspecionado várias vezes naquele ano e não havia quaisquer infrações, tendo admitido ainda que o museu foi fechado após uma “forte recomendação de altas individualidades do Kremlin e de pessoas do Serviço Federal de Segurança [os serviços secretos da Federação Russa]”.