António José Seguro anunciou esta terça-feira, na TVI, que será candidato nas eleições presidenciais de janeiro de 2026. O ex-líder do PS apresenta-se como alguém que “não vem da política tradicional”, mas apresenta como principal argumento a seu favor o facto de pertencer a uma família política concreta que é diferente daquela que, neste momento, está no poder.
“Portugal ganha quando há equilíbrio entre quem governa e quem vigia. Ganha quando não coloca todos os ovos no mesmo cesto“, diz Seguro no curto vídeo que gravou para anunciar a sua decisão aos portugueses. O anúncio começa, aliás, por uma frase dirigida ao jornalista da CNN Portugal com quem faz o seu programa semanal e onde tinha prometido anunciar em primeira mão a sua decisão (afinal fez de outra forma).
O vídeo foi conhecido na TVI, em horário nobre, e, depois, foi sendo revelado aos poucos, na CNN. Só mais tarde foi enviado ao Observador, num texto corrido onde Seguro usa a sua pertença ao PS — ainda que não saiba se conta com o apoio formal do partido — como trunfo contra a direita (Seguro chama-lhe “conservadores”, para abarcar o almirante) que, a vencer as presidenciais, tomaria Belém e o Parlamento.
É a tese dos “ovos todos no mesmo cesto”, que o antigo Presidente socialista Mário Soares estava convencido que os portugueses preferiam sempre evitar. Agora é Seguro que recorre a ela, na mesma lógica, defendendo “o equilíbrio entre quem governa e quem vigia”. Ou seja: “Não colocar os ovos todos no mesmo cesto”.
Seguro não se coloca no cesto socialista, mas antes como “progressista”, num contraponto com as “candidaturas conservadoras” que já se conhecem. Aponta, desta forma, a Luís Marques Mendes e Henrique Gouveia e Melo, sem os referir: “Represento uma outra visão de Portugal, progressista, diferente das candidaturas conservadoras já anunciadas”.
Aliás, parece mesmo apostado em desvincular-se ao máximo do PS nesta fase, ao declarar-se “livre” e “sem amarras”, negando que vem da “política tradicional”, das promessas vazias e dos jogos partidários. Uma via difícil de fazer vingar por um político que foi tudo num partido tradicional, desde líder da JS a secretário-geral do PS, e que atravessou um longo caminho do deserto, na oposição interna a José Sócrates, altura em que foi trabalhando sempre as estruturas do partido, de forma paralela, para o pós-Sócrates (que acabou por acontecer em 2011).
Ao mesmo tempo apresenta como vantagem essa mesma experiência político-partidária, ao dizer que não precisa de “aprender no cargo”: “Chego preparado”. A tirada pretende acertar no candidato que vem da Marinha e não da política tradicional onde Seguro fez o seu caminho desde jovem (foi líder da JS entre 1990 e 1994). Só tem estado ausente desse palco nos últimos dez anos, depois de ter saído da liderança do PS derrotado por António Costa em eleições primárias.
Regressou ao espaço público recentemente e já apontando a Belém — o então líder do PS, Pedro Nuno Santos, até o posicionou nessa corrida e depois arrependeu-se — e agora surge a defender um país “onde o progresso económico anda de mãos dadas com a justiça social” e “onde o futuro não emigra”, explicando que se candidata por acreditar que o “país precisa de mudança e esperança numa vida melhor”.
Diz também que o seu perfil se adequa ao cargo, já que sabe “ouvir, respeitar todas as opiniões, unir, decidir, agir” e é também “exigente com a ética no exercício de cargos públicos.” Garante mesmo transportar “uma nova cultura política, baseada no diálogo e no compromisso, focada nas soluções para resolver os graves problemas que afetam os portugueses” e, por isso, mais “preparado para promover as conciliações e os compromissos necessários”. Não por acaso escolheu apresentar a candidatura no dia em que o Parlamento toma posse, no começo de “uma nova legislatura que vai exigir muito de todos nós”, como descreve.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]
As questões da ética e da “confiança” na democracia surgem também com especial destaque nesta sua mensagem inicial, onde Seguro defende uma democracia “em que as pessoas acreditam que o seu voto conta, que a justiça é para todos, que os políticos respondem pelo que fazem e que o Estado está presente onde é preciso: com ética, competência e transparência.”
Na passada quinta-feira, no seu espaço de comentário na CNN Portugal, Seguro tinha dito estar a ultimar a sua reflexão sobre a candidatura. “Quero ser candidato? Quero ser candidato. Posso ser candidato? Posso, em termos de condições logísticas e de apoios. Devo? É a dimensão que ainda está em ponderação, porque a situação política exige que um cidadão que se predisponha faça uma avaliação do papel do próximo Presidente”, detalhou nessa altura.
A decisão ficou entretanto fechada e o socialista escolheu torná-la pública no dia em que o Parlamento tomou posse, depois das últimas legislativas. O ex-líder do PS avança antes de saber se contará com o apoio do seu próprio partido que está dividido sobre quem apoiar nas Presidenciais. O nome de Seguro está longe de ser consensual — sendo criticado abertamente sobretudo pelos socialistas mais próximos de António Costa — e há outros nomes apontados, como o de António Vitorino ou o de Augusto Santos Silva.
O PS decidiu, numa reunião da Comissão Nacional em fevereiro, que ia esperar pelo avanço das figuras da sua área política e só depois decidiria sobre o apoio, nos órgãos do partido. E, esta terça-feira, num comentário na CNN Portugal, Carneiro manteve essa orientação, sem querer comprometer-se com qualquer apoio. Disse apenas que a decisão de Seguro “deve ser reconhecida como ato de coragem e cidadania” e, quanto ao que prefere, diz apenas que o seu “dever é salvaguardar a unidade do PS”.
Artigo atualizado com o texto completo da mensagem entretanto disponibilizado pela candidatura de António José Seguro.