No verão quente de 2010, a Portugal Telecom, e depois de um primeiro veto protagonizado pelo Estado num governo comandado por José Sócrates, acabou a vender a posição que tinha na operadora brasileira Vivo à Telefónica por 7,5 mil milhões de euros. O Estado permitiu essa venda só depois de a PT, então liderada por Henrique Granadeiro e Zeinal Bava, garantir que manter-se-ia no Brasil, numa outra aliança.
E foi assim que em julho de 2010, chegou a acordo para comprar uma posição na Oi — 22,38% por 3,65 mil milhões de euros. A Oi tinha nascido da fusão de várias operadoras no Brasil e era, então, a maior operadora fixa na América do Sul.
No âmbito desse acordo, que acabou a ser formalizado uns meses mais tarde, não só a PT se comprometeu a entrar na Oi como a operadora brasileira, reciprocamente, assumiu a intenção de entrar na então Portugal Telecom. E iria fazê-lo até ficar com 10% da empresa portuguesa. O que acabou mesmo por acontecer. Em janeiro de 2011 o acordo, que tinha sido anunciado antes, é passado à forma escrita. A Oi já tinha adquirido ações da Portugal Telecom, os tais 10%. As duas empresas ficavam, também, com poderes de nomeação de administradores de forma cruzada.
Esse acordo foi evoluindo até ao anúncio da fusão entre a Oi e a PT Portugal em 2013. Mas tudo se desmoronou no ano seguinte, com a PT a ficar com dívida por reembolsar do grupo Espírito Santo, de quase 900 milhões. Os termos da fusão foram revistos. A Oi, entretanto, entrou também em processo de reestruturação. E vendeu a PT Portugal à Altice. Mas manteve sempre os 10% na PT, que alterou, em 2015, o nome para Pharol. É essa a empresa que hoje está cotada na bolsa de Lisboa.
E que, agora, comunicou que a Oi se desfez da posição histórica que tinha na empresa portuguesa. A Oi voltou a estar sob processo de reestruturação judicial e resolveu vender essa posição. À cotação de fecho desta sexta-feira, a posição da Oi está avaliada em 4,9 milhões de euros. A compradora foi o fundo irlandês Burlington Loan Management, detida pelos norte-americanos da Davidson Kempner, que já tinha ficado, em 2023, com a posição que era detida na Pharol pelo Novo Banco, que vendeu a sua posição, que estava também ela perto dos 10%, por 6,5 milhões de euros, acima do valor em bolsa. Não se sabendo ao preço a que foi vendida a posição da Oi, pode ter conseguido obter um valor acima da cotação (0,0548 euros).
Com estas compras a Burlington ficou com 19,56% da Pharol, ainda que só possa exercer 10% de direitos de voto. É, agora, a maior acionista individual da Pharol.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]
A Pharol foi também vendendo a sua posição na Oi e, assim, fechou o ano de 2024 com 59.258 ações da Oi, representativas de 0,02% do capital social com o valor de 12 mil euros. “A Pharol concluiu igualmente a estratégia de desinvestimento na Oi, permitindo-nos concentrar os nossos esforços no acompanhamento dos processos fiscais e na redefinição estratégica do futuro da empresa”, diz a empresa no relatório e contas de 2024. Chegou a ter 39,7% da Oi em 2014.
Fica praticamente concluído o desligamento total da Oi e Pharol, que protagonizaram uma das maiores fusões no ano de 2013.
Após a venda da quase totalidade da participação na Oi, “os principais ativos da Pharol passaram a ser os créditos de que dispõe sobre a Rioforte, em liquidação judicial no Luxemburgo, e valores acessórios com aqueles relacionados, nomeadamente os relativos a pedidos de indemnização apresentados na justiça em Portugal. A 31 de Dezembro de 2024, “a valorização total destes ativos inscrita no balanço da empresa é de 51,9 milhões”, indica no relatório anual. Tem, ainda, disponibilidades (incluindo carteiras de investimentos compostas maioritariamente por grupos de ativos de obrigações e ações de empresas cotadas) de 42,9 milhões. Com a resolução destes casos, a Pharol indica que, “ainda que numa fase embrionária de análise de projetos, definiu orientações de princípio para eventuais investimentos de diversificação a mais longo prazo”.