António Costa faz tudo para não entrar na análise concreta do crescimento da extrema-direita em Portugal e do resultado das últimas legislativas. Prefere apontar para uma tendência europeia que justifica com o aumento das desigualdades e sobretudo, com a crise na habitação. Em entrevista à Antena 1, diz mesmo que justificar o aumento dos populismos com a imigração é encontrar um “bode expiatório”.

A imigração é “o catalisador invisível mais evidente”, diz o presidente do Conselho Europeu quando fala nos argumentos usados para explicar o crescimento da extrema direita. Sem nunca falar da situação portuguesa em concreto, o socialista que foi primeiro-ministro português durante oito anos assume que nos últimos anos “os principais partidos andaram mais focados noutros temas do que nas desigualdades sociais que são transversais e as pessoas sentiram alguma carência de representação”.

É “o padrão comum” na Europa que encontra para o fenómeno político e social, considerando que “há largas camadas da população que estão bloqueadas nas suas perspetivas para o futuro” e que, a partir daí, “é fácil encontrar um bode expiatório”, apontando o dedo aos que explicam o aumento dos populismos com a imigração.

Para Costa, o aumento das desigualdades e a “demora” da Europa em assumir que a crise da habitação era uma questão comum e não de cada Estado-membro, gerou um “mal estar muito grande”. Existiu um “empobrecimento da classe média, muito fruto da inflação, do aumento das taxas de juro e da crise da habitação”, diz Costa, que mantém a sua explicação: “Não há nenhum país que tenha chegado à democracia sem classe média forte e sempre que elas enfraquecem isso fragiliza as democracias.”

Agora, o socialista diz que parte da solução pode passar pelas políticas de habitação, que a União Europeia vai financiar, através do próximo quadro financeiro plurianual, que, diz, “não pode ser igual aos anteriores”. “A habitação vai ser elegível” para os fundos, tal como no PRR, diz Costa, que considera que “o grande fator de disrupção das sociedades europeias é a habitação”.

Nesse quadro, Costa acredita que vão existir os mesmos mecanismos do PRR, “a mesma metodologia de execução”. E também aproveita o tema para defender que “no quadro europeu dificilmente vai haver execução do PRR a 100%  até agosto de 2025”, considerando que “não é muito inteligente” dizer aos Estados-membros que “sacrifiquem investimentos estruturantes para fazer menos estruturantes, mas mais fáceis de executar. É mais inteligente compreender que quadro temporal do PRR não teve em conta um conjunto de vicissitudes, como rutura de cadeias de abastecimento, o pico da inflação, a crise energética profunda, que alterou o quadro de execução. Devíamos ter parado na altura própria, agora convém não agravar o erro”, comenta.

Já quanto ao quadro nacional e à execução dos fundos europeus, é o único tema sobre o país em que Costa é direto na análise. Diz que o País “se martiriza com esta questão”, já que Portugal “está desde 1985 nos melhores indicadores”, tanto na capacidade de absorção dos fundos, como nas taxas de fraude. “A ideia de que aproveitámos mal é uma ideia errada”, argumenta considerando que “há um problema nacional da autoflagelação” com a execução dos fundos.

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Trump “mais otimista”, tarifas “irritantes” e travar Israel

Na entrevista que deu ao programa “Política com Assinatura”, Costa também falou na Ucrânia, para dizer que a UE deve “continuar todos os esforço para o sucesso do processo de paz”, mas também no “apoio ao presidente Trump”. Garante, no entanto, que enquanto nada disso tem sucesso, a UE deve “continuar a apoiar a Ucrânia do ponto de vista financeiro, humanitário e militar”. Já sobre o falhanço de Trump em conseguir a paz em 24 horas, ironizou: “Finalmente alguém mais otimista do que eu, mas infelizmente não foi verdade”.

Na questão do investimento europeu em Defesa, Costa tem defendido um orçamento comum: “Não precisamos de 27 super forças armadas mas de um super sistema de defesa.” Diz também que a Europa “já gasta mais dinheiro em defesa do que a Rússia, mas “gasta mal”: “Se agregarmos as compras, fizermos as compras conjuntas, conseguimos ter muito maior eficiência”.

Nesta altura esta não é a única questão com os EUA, com a guerra das tarifas a continuar presente. “Um ‘irritante’, assume Costa, que  considera que a “questão central a resolver deve ser a defesa” e que “tudo o que perturbe a saúde económica dos EUA e da Europa só prejudica o esforço que ambos têm de fazer na defesa coletiva”.

Também falou na situação na Faixa de Gaza, dizendo que está a aguardar o relatório da Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros. “A Europa tem sido muito clara na condenação do ataque do Hamas”, mas ao mesmo tempo lembra que “Israel está claramente a desviar-se no exercício de legítima defesa dos ataques de outubro de 2023”. Tem a expectativa de que mais países europeus reconhecerão os dois estados, mas que “o mais importante” é “impedir que Israel destrua fisicamente as possibilidades de existirem dois Estados”.