A última aldeia da Cisjordânia maioritariamente cristã tem sido repetidamente alvo de ataques de colonos israelitas. Numa recente investida, os atacantes lançaram fogo no monte em que se localiza a Igreja de São Jorge, que data do século V. Depois, utilizaram sopradores de folhas para tentar que a chama alastrasse até ao edifício. As chamas acabaram por se extinguir com a ajuda de várias pessoas que as combateram, mas, na mesma noite e nas seguintes, os colonos voltaram armados.
“Chamámos a polícia israelita todas as vezes, mas eles nunca vieram”, disse Bashar Fawadleh, o padre da paróquia, ao The Telegraph. “Se atacam o nosso lugar sagrado, podem atacar qualquer coisa nossa”, continua. Fawadleh acredita que os ataques vão “esvaziar a aldeia, porque as pessoas vão sair com medo”, acrescentando que, nos últimos dois anos, já perderam 10 famílias. De acordo com o jornal inglês, os colonos têm criado colonatos ilegais cada vez mais perto da aldeia e colocram recentemente um sinal, escrito em hebreu, em que se lê: “Não há futuro para vocês aqui”.
Ramiz Akhoury, produtor de azeite de 37 anos, estima que nos últimos dois anos, os colonos anexaram 3 mil hectares que lhe pertenciam, que corresponde a 70% de toda a sua propriedade. “Eles roubam os nossos equipamentos agrícolas, cortam as nossas árvores, queimam-nas… estamos todos com medo”, disse ele. Akhoury conta que, no ano passado, dois dos seus familiares foram violentamente espancados enquanto trabalhavam na terra.
Segundo os dados mais recentes, cerca de meio milhão de judeus vivem em colonatos de judeus num território onde vivem três milhões de palestinianos. A maioria da violência tem tido como alvo comunidades muçulmanas, mas os colonos começaram a atacar aldeias cristãs da Cisjordânia.
A comunidade cristã neste território representa agora menos de 2%, após muitas saídas para fugir da discriminação religiosa violenta. Em Gaza, há também cerca de mil cristãos que se têm refugiados nas três igrejas que ainda ali existem. A Igreja para onde o Papa Francisco telefonava quase todos os dias foi atacada pelo exército israelita, na semana passada, causando a morte a três civis.
O líder da Igreja Ortodoxa Grega de Taybeh também receia que a sua comunidade religiosa seja obrigada a exilar-se. “Os colonos estão-nos a criar problemas todos os dias. Assediando, vandalizando, aterrorizando as nossa famílias, destruindo os nosso campos de oliveiras, danificando as nossa propriedades”, disse David Khoury.
No primeiro semestre de 2025, foram registados 750 incidentes violentos realizados por colonos israelitas, de acordo com as Nações Unidas. Em todo o ano de 2023, foram 216 incidentes.
Os líderes da Igreja Católica radicados em Jerusalém têm dito publicamente que os recentes episódios de violência em Taybeh são “claramente parte de ataques sistemáticos contra cristãos que acontecem em toda a região“. O Embaixador norte-americano em Israel Mike Huckabee condenou os “atos de terror” e pediu “consequências duras” para os responsáveis. Ainda que seja a favor da política israelita de colonatos, Huckabee é um cristão evangélico. Porém, quando condenou os ataques não fez qualquer referência a colonos.
O líder local de Taybeh alertou o The Telegraph para a iminência de um ataque à aldeia, depois dos recentes ataques de colonos na localidade Sinjil, pertencente ao município de Ramallah, que causaram a morte a dois palestinianos. “O que aconteceu lá pode acontecer-nos a qualquer momento. Os colonos não querem saber se somos cristãos ou muçulmanos. Estamos sob ataque porque somos palestinianos”, afirmou Suleiman Khouryeh.
Desde a tomada de posse do atual governo israelita, em dezembro de 2022, os colonos já anexaram 14% do território da Cisjordânia com apoio do exército e governo israelita, de acordo com associações israelitas como a December by Peace Now e a Kerem Navot. Os níveis de violência de colonos israelitas na Cisjordânia desde o ataque do Hamas em 2023, que deu início à guerra em larga escala, “não podem acontecer sem um apoio governamental, direto ou indireto”, disse o co-diretor da associação Settlement Watch at Peace Now Yonatan Mizrachi.
A polícia israelita confirmou que recebeu queixas de residentes palestinianos pelo incêndio provocado nos arredores da Igreja de São Jorge e disse que iria levar a cabo “uma investigação minuciosa“. “Se se confirmar o fogo posto, a justiça vai fazer o seu trabalho qualquer que seja a etnia ou contexto”, acrescentaram.
Ao nível militar, a resposta foi outra: “Contrariamente às alegações, o exército israelita não tem conhecimento de incidentes como o fogo posto a uma igreja na zona da aldeia. Os fogos próximos da igreja são conhecidos e foram extintos por civis israelitas”. As forças armadas reconhecem que receberam queixas de fogo posto por israelitas, em duas ocasiões, sem que tivessem encontrado suspeitos desse crime.
“No que diz respeito à questão da presença militar nos arredores da aldeia, as Forças de Defesa de Israel operam continuamente na Judeia e Samaria [nome dado pelo Estado israelita à Cisjordânia] contra atividades terroristas e para melhorar a segurança de todos os residentes da área.”
[É sábado. No lobby de um hotel de Albufeira um assassino misterioso espera junto ao bar por um convidado especial: representa a Organização para a Libertação da Palestina. Quando o vê entrar, o terrorista dispara quatro tiros e foge. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]