Nas ruas do bairro parisiense de Saint-Germain-des-Prés, entre cafés literários e boutiques, ouve-se diariamente uma voz inconfundível para todos os que lá moram: “Ça y est! [Já saiu!]“. É Ali Akbar, o último ardina de Paris que anda com muitos jornais debaixo do braço.

Com 72 anos e natural de Rawalpindi, no Paquistão, Akbar vende jornais há mais de meio século, tendo-se tornado uma figura incontornável do quotidiano de Paris. “Quando não se tem nada, aceita-se o que vier”, disse ao New York Times, lembrando os tempos difíceis da sua infância numa casa com dez irmãos.

Nasceu em 1953, aprendeu a ler sozinho, deixou a escola aos 12 anos e desde cedo que começou a fazer pequenos trabalhos para ajudar a família. O seu sonho era dar à mãe uma casa com jardim. Para isso, saiu do Paquistão e, antes de chegar à capital francesa, andou por várias cidades, como Kabul, Teerão, Atenas e Xangai.

“Quando cheguei aqui [Paris], sentia uma necessidade muito grande de me fixar. Desde que comecei a andar pelo mundo, não conheci muita gente que não me desiludisse. Mas se não se tem esperança, está-se morto”, afirmou.

Dormiu debaixo de pontes, enfrentou racismo e por essa altura ouviu pela primeira vez a expressão “Ça y est!” — que viria a tornar-se a sua imagem de marca. Antes de abraçar a profissão de ardina, trabalhou na colheita de pepinos em Borgonha, onde abandonou as restrições alimentares do Islão: “Ainda acreditava em Deus, mas concluí que quem come  salsichas é muitas vezes melhor pessoa do que os muçulmanos mais rígidos”, escreveu no livro de memórias Je fais rire les gens, le monde me fait pleurer (“Eu faço as pessoas rirem, o mundo faz-me chorar”, em português).

Vive com título de residência, mas o passaporte francês nunca chegou. Apesar de se sentir grato aos franceses, Akbar não esconde que, sendo estrangeiro de pele escura, sente que “nunca será totalmente aceite”. Ainda assim, reconhece o valor da educação gratuita que os seus filhos receberam. É casado desde 1980 com uma mulher paquistanesa escolhida pela família, tem cinco filhos, um deles com autismo e outro com problemas de saúde. Um sexto filho morreu à nascença. “A vida não tem sido fácil. Talvez por isso tenha feito da minha missão fazer rir os outros”, sublinhou.

Em 1974 encontrou a sua vocação ao cruzar-se com estudante argentino que vendia jornais. Nos primeiros tempos, os lucros eram escassos, mas eram suficientes para sobreviver. Hoje, meio século depois, continua a percorrer quilómetros todos os dias, do meio-dia à meia-noite, com jornais como Le Monde e Les Échos debaixo do braço. Utiliza um boné azul-escuro com o logótipo do Le Monde e recusa o meio digital.

“Ali faz parte do tecido cultural de Paris”, afirmou David-Hervé Boutin, empreendedor no meio artístico. “Ali é indispensável“, reforçou Jean-Philippe Bouyer, estilista ligado à Dior, acrescentando que “há algo de muito positivo e raro nele. Manteve a alma de criança”.

O ardina ganha cerca de 70 euros por dia, raramente tira folgas e não tem reforma. Vive das vendas, gorjetas, convites para almoço e da generosidade dos clientes que, por vezes, compram três jornais só para o ajudar. Graças à sua persistência, a mãe de Ali Akbar teve finalmente o jardim com que sonhava.

Ao longo destes 50 anos, cruzou-se com figuras ilustres como François Mitterrand, Bill Clinton (que lhe disse que o Paquistão era “perigoso”), Jane Birkin ou Bernard-Henri Lévy. E em outubro irá receber a “Légion d’Honneur“, a mais alta condecoração da República Francesa. Será entregue pelo Presidente francês, Emmanuel Macron, no Palácio do Eliseu.