A Câmara Municipal de Loures pediu esclarecimentos à Hillsong Portugal após as notícias que deram conta de polémicas internacionais desta igreja evangélica, colocando em causa o apoio às obras na sede no Prior Velho. A Hillsong Portugal defende-se, em comunicado, argumentando que “nada tem a ver com os factos ocorridos em Nova Iorque ou em qualquer outro local”, já que as igrejas são “legalmente autónomas”.

Numa carta endereçada ao pastor Mário Rui Boto, citada pela SIC, a autarquia de Loures — que aprovou o financiamento de quase 150 mil euros para as obras da sede da Hillsong Portugal — solicita “esclarecimentos quanto aos escândalos evidenciados na reportagem [da SIC, com base no documentário da Discovery Plus], relativos a assédio sexual, exploração de voluntários e discriminação de homossexuais”. Para a câmara, que “condena veementemente” este tipo de conduta, as situações descritas no documentário — e que se referem a polémicas internacionais — “carecem de explicações públicas, atendendo à gravidade que as envolve”.

E, no seguimento, o executivo de Loures acrescenta: “O apoio financeiro aprovado tem o intuito de suportar o desenvolvimento de respostas sociais e solidárias no município, contudo o seu pagamento está condicionado aos esclarecimentos que aqui solicitamos.”

Além disso, na mesma carta enviada à Hillsong, a autarquia critica ainda a “indisponibilidade para qualquer esclarecimento” que foi demonstrada, segundo a SIC, durante a reportagem.

No seguimento das reportagens dos últimos dias, após a notícia do Observador que deu conta que a Câmara Municipal de Loures aprovou uma despesa de 150 mil euros para apoiar a Hillsong Portugal, a direção da igreja evangélica também emitiu um comunicado no qual se distancia das polémicas internacionais.

“Precisamos [de] esclarecer que a Igreja Hillsong Portugal nada tem a ver com os factos ocorridos em Nova Iorque ou em qualquer outro local, uma vez que as igrejas nacionais são legalmente autónomas umas das outras e cada uma responsável pelos factos que ocorram na sua própria organização”, escrevem os responsáveis em comunicado, acrescentando que nesta igreja evangélica em Portugal “os líderes que não cumpram os elevados padrões morais serão exonerados das suas funções, assim como foram os de Nova Iorque”.

Em comunicado, a direção da Hillsong Portugal esclarece o “protocolo de cooperação” com a Câmara Municipal de Loures que levou ao apoio. Começa por referir que a igreja em causa é uma “pessoa coletiva religiosa reconhecida pelo Estado Português desde 2002, membro da Aliança Evangélica Portuguesa (AEP), legalmente autónoma de qualquer entidade internacional” que desenvolveu um “trabalho espiritual” nos últimos 23 anos.

Em outubro de 2024, segundo conta a mesma nota, a Hillsong Portugal “tomou posse de um edifício no concelho de Loures, que passou a ser a sua sede nacional” e fez “profundas obras” financiadas por “contribuições voluntárias de membros, simpatizantes e parceiros da missão, sem qualquer recurso a
fundos públicos”.

Agora, depois de a autarquia ter reconhecido o “impacto social do trabalho realizado pela Hillsong Portugal ao longo das últimas décadas” — já em declarações ao Observador a câmara tinha “destacado [esta igreja] como uma entidade de referência” pela “capacidade de implementação de iniciativas de intervenção social” —, houve um protocolo entre ambas assente nesse reconhecimento do trabalho da Hillsong Portugal e com a possibilidade de cedência da sede para a “realização de eventos culturais e sociais promovidos ou apoiados pela Câmara Municipal de Loures” durante a vigência do acordo.

“Esta colaboração insere-se plenamente na missão da Hillsong Portugal de servir a comunidade, disponibilizando os seus recursos e espaços para benefício coletivo. Reforçamos o nosso compromisso com os valores da integridade, da generosidade e do serviço público, pilares que orientam a nossa atuação enquanto comunidade de fé”, acrescenta a direção que assina o comunicado.

[Um jovem polícia é surpreendido ao terceiro dia de trabalho: a embaixada da Turquia está sob ataque terrorista. E a primeira vítima é ele. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o terceiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro episódio aqui e o segundo aqui]

Também a Aliança Evangélica Portuguesa (AEP), em comunicado, lamentou “o tratamento jornalístico efetuado em certos órgãos de comunicação social que vieram dar destaque” ao protocolo e argumenta que “o montante protocolado colaborará para o desenvolvimento de diversas atividades culturais e sociais, incluindo apoio a sem abrigo, e ainda o uso do espaço da Igreja para eventos da Câmara Municipal de Loures ou outras organizações parceiras”.

Além de “louvar” que autarquias e organismos públicos reconheçam a “presença histórica” das igrejas protestantes/evangélicas e a sua “vasta e consistente obra nos mais diversos domínios, designadamente social, cultural e outros”.

“Protocolos semelhantes são celebrados com outras organizações sociais ou religiosas no mesmo concelho e genericamente em quase todos os municípios deste país, sem que seja dado destaque noticioso, demonstrado que este caso, por ser uma igreja evangélica é caso raro, o que é demonstrativo da discriminação ainda existente para com esta minoria religiosa”, critica a AEP, recordando que “o Estado Português é não confessional, pelo que não adota nenhuma religião oficial e não interfere em questões religiosas”.

No passado domingo, o Observador noticiou que a Câmara Municipal de Loures aprovou o financiamento de praticamente 150 mil euros para a igreja Hillsong Portugal e revelou um apoio de 250 mil euros para a construção do futuro Templo de Shiva em Santo António dos Cavaleiros.

A Hillsong é internacionalmente conhecida como a igreja dos famosos — que atingiu o cume da fama com Justin Bieber — e um documentário da Discovery Plus, publicado em 2022, deu conta de polémicas relacionadas com exploração e manipulação de voluntários, com ex-membros e ex-funcionários a denunciarem práticas dentro da igreja, tornou públicos escândalos pessoais de pastores, revelou que a Hillsong protegia figuras públicas, noticiou denúncias por homofobia, regras rígidas sobre sexualidade — em mulheres em específico — e revelou como foi construído um império financeiro pela igreja. Agora, a Hillsong Portugal distancia-se destas situações e assegura total autonomia.

Ricardo Leão aprova 150 mil euros para apoiar igreja de Justin Bieber. Hillsong está envolta em polémica a nível internacional